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12 abril 2014

Outras Estantes: Os Maias Revisitados- Parte 16

João da Ega: Memórias de um Átomo
Seis romancistas 'inventam' um início para o romance que a famosa personagem d'Os Maias desejava escrever e o sétimo imagina a sua estrutura.
6) Mário de Carvalho

"Desde a pristiníssima nebuloda priveva, num dóbar de poeiras amalgamadas em vagares da eternidade, à pena de aço, banal e fugaz do senhor João da Ega, isto foi um rufo. Se me fosse dado preferir, escolheria decerto a imponência, o seu tanto bocejante, daquele cenário imenso, rodando nas imensidões geladas, exprimindo solenemente a grandeza das eras, a este percurso tamanhinho que me levou ao estanqueiro do número doze da rua da Prata, entre caixas de charutos "Blomont" e resmas de papel azul de requerimento, escutando o trote sonolento dos flacres e os ecos das discussões dos galegos e varinas. Certo ancião venerando, num dos seus dias mais entediados, convocou Mefistófeles ao seu gabinete de estrelas e tonitroou- designando a gigantesca nuvem de poeiras de que eu fazia parte: "Vai, carrega uma porção desta matéria e compraz-te em fazer o mal, em conformidade com a função que te foi distribuída". E destarte arregimentado pelo lado do maligno, fui posicionado em tudo o que tem sido reaccionário e vil, devo confessá-lo, com certo gozo. Relatá-lo-ei, de forma positiva e verdadeira, como é próprio deste século de luz, mesmo quando se prefere as trevas. A minha coroa de glória foi ter sido materializado mesmo abaixo do olho esquerdo da serpente que seduziu a pobre Eva. Mas prefiro começar pelo fim, na esteira dos autores mais ousados que, levando ao extremo o preceito do velho Horácio, proclamam o primado das Ultimas Res. Há pouco, tendo exultado por pertencer ao aço do canhão que em revoadas sucessivas arrasou um  bairro de Paris e devastou os rebeldes da Comuna, vi-me entregue a uma fundição que através de calores atrozes transfigurou a nobre arma em corriqueiras chapas de metal, estas em penas baratas e reles (substitutas da elegante pena de pato) que rolaram em caixas, no Sud-expresso, para pasmarem na vitrina encardida do senhor Lopes da Rua da Prata. Aqui me encontro, pois, neste negregado momento, à secretária do senhor João da Ega, rabiscando estas linhas, enquanto ele pensa noutras coisas."  
Fonte: JL   

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22 fevereiro 2014

Outras Estantes: Os Maias Revisitados- Parte 15

João da Ega: Memórias de um Átomo
Seis romancistas 'inventam' um início para o romance que a famosa personagem d'Os Maias desejava escrever e o sétimo imagina a sua estrutura.
5) Teolinda Gersão

Dourados leitores de uma época distante, cujos olhos futuros percorrerão avidamente estas linhas, é por vós que me entrego, trêmulo de emoção e tomado de reverencial temor, à tarefa ingente de narrar as memórias de uma existência tão longa, acidentada e vária como a do próprio incomensurável Universo. É a vós que dedico esta obra, redigida a partir de um lugar rasteiro e mínimo, pelo bico de uma pena que avança, incerta e insegura, sobre a folha ainda virgem do papel. Não olheis, dourados leitores, para a minha humilde pequenez atómica, e valorizai antes a minha vontade de vos alcançar, nessa luz que à distância de milènios vos doura, nesse ponto do tempo em que estais a salvo da miséria, do asco, da inominável estultícia da época em que por desgraça me situo. (De nada valeria o esforço de levar a cabo a obra a que, aqui e agora, me comprometo, se fossem apenas de hoje os seus leitores. Falaria no deserto, para mentes fechadas e orelhas moucas. Já noutra época, que adiante narrarei porque dela guardo memórias indeléveis, não faltaram, pregando no deserto, os pregadores mais insignes. E o seu fracasso deixou-me, por mais de mil anos, desalentado e mudo).
Sei no entanto que por vós serei ouvido e entendido, conheceis outras leis e sociedades e tendes uma visão lúcida e justa: estais portanto preparados para fazer comigo esta viagem vertiginosa através do Ser. Invoco por isso a vossa presença a meu lado - desde o primeiro instante de espanto e turbulência em que, a partir do nada, tudo começou. A vós, e a nenhuma inexistente divindade, me confio. Não serei capaz deste empreendimento sem que a vossa companhia benfazeja me sirva de luzeiro e guia. Sede a estrela do norte, o poder inspirador, a força que me leva, a mim miserável átomo, a atravessar, no bico de uma pena, o vendaval do tempo. Protegei-me dos perigos desta tarefa desmedida e sobre-humana. Mas sobretudo protegei-me da mão que segura a pena, do braço  que segura a mão, do corpo que segura  o braço, do homem sentado à escrivaninha a quem pertencem o corpo, o braço, a mão esgrouviada e a pena: um desgraçado inútil e ridículo, de nariz adunco e de bigode, com um caco de vidro encaixado num olho, que sempre viveu da mesada da mãe e da generosidade dos amigos,  e usa todo o tipo de excessos e demagogias para chamar as atenções a qualquer preço, porque tem um ego do tamanho do mundo. Como aliás o seu nome indica, pois chama-se João do Ego (embora ele o disfarce, usando-o astuciosamente na forma feminina, João da Ega). Pois é sobretudo contra esse energúmeno, dourados leitores, que invoco, com fé inabalável, a vossa proteção: o sujeito, que sempre viveu à custa de outrem, quer agora viver à minha custa, identificar-se comigo e assinar com o seu nome estas Memórias inteiramente minhas. Salvai-me, suplico-vos, deste parasita, não permitais que ele escreva por mim o livro que agora eu inicio. Forçai-o riscar, se ele escrever isso, que é da autoria de João da Ega e uma espécie de biografia sua. Guiai a sua mão, fazei que ele siga e respeite o  que eu lhe ditar, da primeira à última linha. Tolerarei de bom grado que concedais ao inepto parasita a ilusão de ser autonómo e de ser autor, desde que o livro seja  sempre meu, porque sou eu que lho dito e desde já lhe ponho um nome, que deverá manter, pela eternidade adiante. As Memórias de um Átomo.          
Fonte: JL   


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04 janeiro 2014

Outras Estantes: Os Maias Revisitados - Parte 14

João da Ega: Memórias de um Átomo
Seis romancistas 'inventam' um início para o romance que a famosa personagem d'Os Maias desejava escrever e o sétimo imagina a sua estrutura.
4) Fernando Venâncio

Na mão fechada do Eterno, encolhido, cheio de sonhos trepidantes, o Universo dormia. Era uma cavidade macia, tépida, essa que aconchegava os elementos, singelos uns, nobres outros, com que Ele iria construir mundos. No mais escuro e insondável da caverna, jazia eu. Não nos diria impacientes, a mim e meus irmãos, já que uma eternidade produz certa acalmia, e até enfado. Mas estávamos expectantes, e de algum modo curiosos. Foi quando, sem um aviso, sem um prenúncio, lenta mas resoluta, se abriu a mão do Eterno.
Senti-me voando espaço fora. Ia solto e bafejado de promessas. Foi-me tomando aquele entusiasmo que, percebi depois, é o dos pioneiros de qualquer coisa. Digo qualquer coisa, e digo bem. Eu era jovem, menino ainda, podia tornar-me, pensei, o que bem entendesse, na Terra ou no Céu.
Calhou-me a Terra. Assim dispôs o Eterno, com quem nunca privei, é certo, mas de quem, em momentos de langor, recordo o resguardo e a quentura. Andei a tarde desse primeiro dia balouçando entre a onda e a areia, nos confins dum mundo ainda infértil. A minha primeira noite, modo de dizer, pois nem sol nem estrelas havia então, passei-a eu nesse vaivém despreocupado e embalador.
Foi de pouca dura. Cedo senti que me agarravam e conduziam por apertos sombrios e húmidos. Eram as raízes duma plantazinha que, atrevida, robusta, não tardou a subir ao ar livre, onde agora avançava, radiante e animoso, o Sol.

Fonte: JL   


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14 dezembro 2013

Outras Estantes: Os Maias Revisitados - Parte 13

João da Ega: Memórias de um Átomo
Seis romancistas 'inventam' um início para o romance que a famosa personagem d'Os Maias desejava escrever e o sétimo imagina a sua estrutura.
3) Nuno Camarneiro

Dirão alguns que não és ser, que um atómo não pensa, não vive e é coisa que não lembra. Que sempre foste e sempre serás uma parte que mexe ao ser mexida, sem alma ou intenção.
E, no entanto, esses que falam são eles também grãos de coisa tanta e maior. E o sistema solar, e a galáxia, e o cosmos, e Deus, que não existindo sempre teve imensas opiniões. Que dirão de nós tantos infinitos?
Vivemos importados com as nossas infâncias e mortes e somos afinal tão voantes, um segundo de estrelas, uma mancha na superfície de um planeta, que ora está e ora se some. E vamos compondo os nossos livros, e relatando as nossas memórias com a minúcia dos tontos - foi no dia 24 de fevereiro de 1866, jamais o poderei esquecer. Mas esquecem todos os outros, e os próprios leitores chegam ao fim da página a bocejar-nos os dias inolvidáveis, espreitando o jantar se já está pronto, olhando para um relógio que mede o que já não nos pertence.
E tu estavas e estás e vais estar ainda muito mais. Tu viste reis e imperadores e os seus avós bárbaros, assististe à nossa queda das árvores, ao mar que nos pariu, à sorte que nos deu nome. E continuas aqui, parte muda do meu aparo, resignado com só ser sem nada perguntar. E se a indiferança ou a sageza te libertam das vaidades, cá estou eu, João da Ega, homem de todos os costados, petulante, vão e airado, pronto a trair-te a anonimidade eterna por uma glória que ninguém há de recordar.
Fonte: JL   


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09 novembro 2013

Outras Estantes: Os Maias Revisitados - Parte 12

João da Ega: Memórias de um Átomo
Seis romancistas 'inventam' um início para o romance que a famosa personagem d'Os Maias desejava escrever e o sétimo imagina a sua estrutura.
2) Miguel Real 

No princípio criou Deus os céus e a terra. E Deus fez-me como ser luminoso. De mim nasceu o primeiro luzeiro e brilhou a primeira luz.
Rompi as trevas que havia e viu-se, entre o abismo hiante das profundezas do Nada, a face de Deus pairando sobre as águas.
E disse Deus, haja luz. E houve luz. Por todos os céus estrelares penetraram as minhas vibrações incandescentes, aclarando os mais ínfimos vórtices de matéria. E luz houve, organizando o caos e banhando de claridade as trevas mais fundas do fundo sem fundo do universo. E com a luz, houve o Tempo, que desde então não cessou de se movimentar, consumindo-me a força vital. São os meus dois filhos, que me esgotarão a vida - o Tempo e o Movimento -, que patriarca um só tenho: Deus, meu Senhor e Criador. Eu, templo de matéria, seu escravo.
Chamou-me Deus à expansão da vida. Da luz nasce o calor, do calor a vida e a vida inundou a terra vazia e sem forma. Separou Deus o céu alvo e a terra escura e, como um berlinde nas mãos de uma criança, acionou a redonda terra, fazendo-a girar infinitamente até o longínquo limite dos tempos e das eras. Fui eu a primeira partícula a beijar de luz a sagrada terra, antes mesmo de esta para todo o sempre ser beijada pelo magnificente sol. Ao esplendor do sol chamou Deus dia e noite ao fulgor prateado da lua. E criou Deus os viventes do dia e os viventes da noite.
Eu, atraído pela potência do astro-rei, pairava a uma velocidade absoluta entre a terra e o sol, criando, na escuridão do vasto espaço gelado e imóvel, uma fímbria de luminosidade que atraiu o santo olhar divino. Por misericórdia, Deus libertou-me da minha prisão gravitacional. Senti-me projetado para a terra, arremessado para o centro da pupila de Adão, que, puro e virginal, lançava o primeiro olhar de desejo para as carnes roliças e ardentes de Eva.
Fonte: JL   


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26 outubro 2013

Outras Estantes: Oa Maias Revisitados - Parte 11

João da Ega: Memórias de um Átomo
Seis romancistas 'inventam' um início para o romance que a famosa personagem d'Os Maias desejava escrever e o sétimo imagina a sua estrutura.
1) Manuel Jorge Marmelo 

Eis que posso beneficiar, enfim, de algum sossego após as mil atribulações em que desde o início dos tempos me tenho visto confundido, eternamente em bolandas (1).
A existência de um átomo não é coisa amena nem descontraída, bem pelo contrário, condenado, como é da nossa condição, a participar em contínuo na grande azáfama (4) da reinvenção das matérias mais vulgares do mundo. Entre ser grão de pó e luz das estrelas, já perdi já a noção de quantas substâncias incorporei no decurso do grande tropel do universo, mas não a sua recordação, pois que desde o momento inicial tenho impresso no mais íntimo do núcleo a memória de tudo o que hei de ser até o momento em que tudo se extinga e volva a ser nada. O mais complexo é contá-lo e incluir nisto alguma ordem inteligível. Um átomo não conhece o tempo: existe desde sempre e para sempre - como se, numa comédia, se condensasse o curso da história num único e íntimo instante, numa palavra mínima que resumisse tudo. Hu.
Na fração do ininterrupto em que transitoriamente estacionei, insignificante parcela absoluta no corpo de um escritor de novelas, forcejarei, em todo o caso, por dar sentido e continuidade ao que é amálgama (2) e caos. Redigirei as minhas memórias como se, com voz grave de contador de casos, as narrasse a partir do futuro, de um lapso do espaço-tempo que não existe e é apenas amálgama e quantum (3), eternidade.
Era uma vez, pois, o início do mundo.
(Fonte: JL)

Vocabulário: 
1) Bolandas: s. f. pl. || baldões, tombos. [Usa-se na locução andar em bolandas.] F. talvez do cast. Volandas

2) Amálgama:. Fig. Mistura de coisas ou pessoas de natureza diferente, formando um todo: "Homens de todas as cores, amálgamas de diversas raças..." (Euclides da Cunha, Os sertões.)

3) Quantumsm. 1. Fís. A menor quantidade, indivisível, de energia eletromagnética.

4) Azáfamasf.1. Grande pressa e dedicação na execução de um trabalho, de uma tarefa etc.: "(...) um menino que entrava e saía sem descanso, numa azáfama dos diabos (...)" (Adolfo Caminha, A normalista))

(Fonte: http://aulete.uol.com.br)


Complemento: 

João da Ega

Amigo e confidente de Carlos da Maia e filho de uma viúva rica e beata, de Celorico de Basto.

Caracterização física:

Ega usava “um vidro entalado no olho”, tinha “ nariz adunco, pescoço esganiçado, punhos tísicos, pernas de cegonha” – retrato idêntico ao de Eça.

João da Ega é a projecção literária de Eça de Queirós.

Personagem contraditória – por um lado, romântico e sentimental, por outro, progressista e crítico sarcástico do Portugal do Constitucionalismo.


  • Diletante, concebe grandes projectos literários que nunca chega a realizar


(Fonte: http://osmaiasemanalise.wikispaces.com/Personagens+Secund%C3%A1rias)


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12 outubro 2013

Outras Estantes: Os Maias Revisitados - Parte 10

Se assinalam os 125 anos da sua edição(Os Maias) e uma iniciativa Expresso (Eça Agora) veio chamar a atenção para a obra e a efeméride. De facto, o conhecido semanário oferece o romance, em très edições consecutivas, a que se seguirão, em outras três edições, textos de seis escritores atuais que "trazem" Os Maias até 1973- e um sétimo e último volume sairá um estudo, sobre o romance, do reputado especialista queirosiano Carlos Reis. Maria do Rosário Cunha, falará sobre a futura edição crítica de Os Maias. Kyldes Batista Vicente, sobre a minissérie da TV Globo que os teve por base- enquanto se lembram também suas adaptações ao teatro (bem como a falhada tentativa do próprio Eça), com o testemunho da encenadora Filomena Oliveira.  E ainda o que pretende ser uma sua próxima adaptação ao cinema, em entrevista com o realizador João Botelho.
Os Maias no cinema como "retrato" do país
João Botelho

"Fazer cinema em Portugal é, neste momento, um privilégio. Por isso, só vale a pena fazer filmes importantes". É esta convicção, associada à vontade de explorar uma certa ideia de Portugal, que leva o realizador a adaptar Os Maias, cujas filmagens começam no outono.
" A escolha não teve nada a ver com a efeméride", diz João Botelho, referindo-se ao 125º aniversário da edição do romance, e ao conjunto de iniciativas a ela ligadas, nomeadamente Eça Agora, do semanário Expresso.
"Acho isso de 'de continuar' Os Maias um bocado pretensiosa", comenta. "O Eça inventa um final genial: depois da violência do incesto, o normal era Carlos dar um tiro na cabeça e Maria Eduarda ir para um convento. Ele tem esta ideia maravilhosa: Vamos mas é curtir para a Europa! Como é que se pode continuar isto? Esta abertura é um fecho", argumenta. No entanto, confessa-se curioso: "É esperar para ver o resultado. Vou querer ler, claro".
Os Maias -(Alguns) Episódios da Vida Romântica - o seu projeto de adaptação da obra-prima de Eça ao grande ecrã- remonta ao ano de 2011. Foi então que o apresentou ao concurso de apoio à produção cinematográfica do Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA), mas os resultados só foram homologados no início deste ano. E o filme tem, finalmente, pernas para andar.
O realizador já assinou contrato com o ICA e além desse apoio (de 600 mil euros), o filme conta com outras fontes de financiamento como a Câmara Municipal de Lisboa e a ANCINE - Agência Nacional do Cinema, do Brasil, o que faz com que o orçamento ascenda a mais de um milhão de euros. Além da longa-metragem, que terá cerca de duas horas, haverá uma série televisiva de três episódios, de 50 minutos cada. As filmagens decorrem entre os próximos meses de outubro e dezembro, e a estreia está pensada para o outubro de 2014. 

Uma História de Decacência 
A pouco mais de dois meses do início da rodagem, João Botelho está, agora, na fase de pré-produção e mergulhado no 'caldeirão' de dúvidas e (algumas) certezas que é o processo criativo. "Será um filme abstrato", adianta. E o mesmo é dizer que não haverá qualquer pretensão de verdade. "Não se vai perceber a época - pode ser hoje ou daqui a 100 anos. Quanto muito, nota-se uma ideia da época. Não gosto nada do Naturalismo", diz. E explica: "No cinema é tudo falso. Ninguém morre no cinema: mato uma personagem e, no dia seguinte, ela está aqui connosco. Verdade é o que as pessoas sentem quando veem o filme- o tédio, a alegria, a tristeza, a inquietação".
Foi essa relação "falso/verdadeiro" que sempre lhe interessou. E que estará visível nos seus Maias. Desde logo, nos décors. Todos os exteriores serão filmados em estúdio (num grande hangar em Azeitão), e estão a cargo do artista plástico João Queiroz, que está a pintar Lisboa numa série de telas de grande dimensão. Os interiores, por sua vez, aproximar-se-ão mais dos espaços do livro. Estão já 'encontrados'  alguns deles, como a Casa Veva de Lima (que será o Ramalhete), o Grêmio Literário ou o Palácio de Francelhos, todos em Lisboa. "O mais difícil está a ser achar a Toca", nota, com entusiasmo.
Além dos cenários, também a escolha dos atores foi pensada de acordo com esse 'ideal' de abstração. Pelo menos a dos protagonistas. "Queria pessoas menos conhecidas do grande público. 'Estranhas'. O ideal era fazer o filme com pessoas que nunca ninguém tivesse visto. Quero que vejam o Carlos, a Maria Eduarda, e não este ou aquele ator", explica. "O importante é que o texto literário prevaleça sobre o resto, sobre as pessoas que o interpretam", remata o cineasta, cuja obra é atravessada pela relação entre o cinema e a literatura (em filmes como Conversa Acabada, a partir de Mário Sá Carneiro e Fernando Pessoa; A Corte do Norte, de Agustina Bessa-Luís; Quem és Tu? uma adaptação de Frei Luís de Sousa; ou Filme do Desassossego, a partir do Livro do Desassossego, do semi-heterónimo de Fernando Pessoa, Bernardo Soares).
Entre os 54 atores que compõem o elenco, são já certos os nomes de Graciano Dias (Carlos da Maia); da brasileira Maria Flor (Maria Eduarda); Catarina Wallenstein (Maria Monforte); e Maria João Pinho (condessa de Gouvarinho). João Botelho avança outros, ainda por confirmar: Luís Miguel Cintra, Ana Moreira, Miguel Guilherme e Rita Blanco. "O mais difícil é o Ega! Ainda estou a fazer casting...O Ega é que é o génio. É ele que transporta o romance", observa.
A sua verdadeira inquietação prende-se, no entanto, com o conteúdo. "Os Maias dava um filme de 15 horas e eu vou fazer de duas para o cinema e de três para a televisão. Podia fazer uma longa inteira só a partir da descrição do Ramalhete", afirma. "O mais difícil é cortar sem ofender. Como é que se monta isto? Como é que se mantém uma cena e se tira outra?".
Já bem assente tem a sua leitura do romance e o que quer, a partir dele, explorar. "A história de amor de Carlos e Maria Eduarda é também a história do país. A decadência da família - que vai ao limite, que não deixa descendência- é a história da morte do país. Portugal morre quando Afonso da Maia morre. E o tédio de Carlos é o da aristocracia que acaba", diz. "Não vou separar as coisas".
Não só não as vai separar como quer explorar, sobretudo, essa "ideia de limite". De um país em decadência. O de 1800 e o de agora: "O país retratado n'Os Maias é muito semelhante ao de hoje, na definição dos comportamentos, na indiferença das pessoas que têm mais poder, no desespero dos mais pobres".
Fonte: JL


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05 outubro 2013

Outras Estantes: Os Maias Revisitados - Parte 9

Se assinalam os 125 anos da sua edição(Os Maias) e uma iniciativa Expresso (Eça Agora) veio chamar a atenção para a obra e a efeméride. De facto, o conhecido semanário oferece o romance, em très edições consecutivas, a que se seguirão, em outras três edições, textos de seis escritores atuais que "trazem" Os Maias até 1973- e um sétimo e último volume sairá um estudo, sobre o romance, do reputado especialista queirosiano Carlos Reis. Maria do Rosário Cunha, falará sobre a futura edição crítica de Os Maias. Kyldes Batista Vicente, sobre a minissérie da TV Globo que os teve por base- enquanto se lembram também suas adaptações ao teatro (bem como a falhada tentativa do próprio Eça), com o testemunho da encenadora Filomena Oliveira.  E ainda o que pretende ser uma sua próxima adaptação ao cinema, em entrevista com o realizador João Botelho.


Eça dramaturgo falhado
Carlos Reis 

Numa entrevista concedida em 1945, a propósito da adaptação teatral d'Os Maias, José Bruno Carreiro referiu-se às  dificuldades que teve que superar para levar a cabo a dita adaptação (cf. J. Bruno Carreiro, Os Maias. Adaptação teatral do original de Eça de Queirós, edição de 1984 pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda). Por exemplo: a eliminação de "muitas cenas, com grande interesse" e a necessidade de o trabalho dramatúrgico se concentrar no "drama  Carlos-Maria Eduarda" e no "indispensável para criar o ambiente em que se desencadeia esse drama" (pp. 25-27).
Bruno Carreiro certamente ignorava que Eça passara por constrangimentos semelhantes, uma vez que, tendo tentado uma adaptação do seu romance, acabou por desistir da empresa. Sabemo-lo porque no espólio queirosiano que se guarda na Biblioteca Nacional existe um manuscrito (Esp. E1/233) que resultou dessa tentativa abortada. Trata-se da planificação de dois atos, esboçada pelo escritor supostamente antes de avançar para a escrita do texto dramático propriamente dito e não chegando a contemplar eventos e figuras cruciais da ação do romance. Anunciado no elenco de personagens, Afonso da Maia não reaparece no manuscrito; por outro lado, a intriga do incesto encontra-se longe do seu desenlace, quando se atinge o final do segundo dos dois atos planificados.
Parece claro, quando lemos este manuscrito, que Eça se preocupou sobretudo em fixar nele os elementos fundamentais que a escrita dramática deveria trabalhar: o elenco de personagens, a matéria dos atos, os cenários, com pormenores como a iluminação e a música. Tudo isto escrito aparentemente de um jato e já depois de publicados Os Maias: há no manuscrito frequentes remissões para as páginas do romance- sintomaticamente, aquelas em que abunda o diálogo-, o que sugere que a dramatização seguiria de perto o desenvolvimento do relato.
Com exceção de um fragmento de cena já composta e que na arrumação do espólio foi integrada neste manuscrito 233, nada mais se conhece deste impulso queirosiano para a escrita destinada ao teatro, em adaptação do que fora concebido como narrativa. Mas são bem evidentes as potencialidades dramáticas dos relatos queirosianos, com destaque precisamente para Os Maias. Para só dar um exemplo, lembre-se a cena de revelação do incesto, no capítulo XVII, envolvendo Carlos da Maia, João da Ega e Vilaça- que no momento mais tenso do diálogo procura o chapéu que se sumira...
Num outro plano, é conhecida uma carta de Eça a Augusto Fábregas (autor da adaptação teatral d'O Crime do Padre Amaro) em que expressamente é dito: "O único dos meus livros que sempre se me afigurou próprio a dar um drama patético, de fortes caratere, de situações morais altamente comoventes, é o meu romance Os Maias" (carta de 6 de maio de 1890).
Pelo que toca à escrita queirosiana, o romance ficou como era: um grande e admirável romance. Aparentemente, Eça não foi capaz de concentrar, numa ação dramática inevitavelmente redutora, vastíssimos cenários e lapsos temporais alargados, forçando-se a supressões difíceis de aceitar. O nível de exigência artística do grande romancista era, como ele disse em carta de 20 de fevereiro de 1881 a Ramalho Ortigão, o de quem, em modo narrativo e não dramático, originalmente desejara uma obra "em que (...) pusesse tudo o que (tinha ) no saco".

Fonte: JL


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28 setembro 2013

Outras Estantes- Os Maias Revisitados - Parte 8

Se assinalam os 125 anos da sua edição(Os Maias) e uma iniciativa Expresso (Eça Agora) veio chamar a atenção para a obra e a efeméride. De facto, o conhecido semanário oferece o romance, em très edições consecutivas, a que se seguirão, em outras três edições, textos de seis escritores atuais que "trazem" Os Maias até 1973- e um sétimo e último volume sairá um estudo, sobre o romance, do reputado especialista queirosiano Carlos Reis. Maria do Rosário Cunha, falará sobre a futura edição crítica de Os Maias. Kyldes Batista Vicente, sobre a minissérie da TV Globo que os teve por base- enquanto se lembram também suas adaptações ao teatro (bem como a falhada tentativa do próprio Eça), com o testemunho da encenadora Filomena Oliveira.  E ainda o que pretende ser uma sua próxima adaptação ao cinema, em entrevista com o realizador João Botelho.

Uma versão dramatúrgica
  Filomena Oliveira 


Os Maias tem sido diversas vezes adaptado ao teatro, sendo o primeiro registro de 1945, com encenação de Amélia Rey Colaço e interpretação da sua companhia. Sem se ser exaustivo, registe-se, nos anos seguintes, a do Teatro Independente de Oeiras (1995), do Centro Dramático Intermunicipal Almeida Garrett-Teatro da Malaposta (2001), da Companhia de Teatro na Educação do Baixo Alantejo (2002) e do Teatro Experimental do Porto(2004), esta com encenação de Norberto Barroca. Nas ainda mais recentes, destaque-se a do Teatro Noroeste, do Centro Dramático de Viana, em 2007 e 2012, e a que António Torrado fez para o Teatro da Trindade, em 2009. Filomena Oliveira apresenta a encenação que fez (de uma adaptação também sua e de Miguel Real), em 2010, para a ÉTER, e que ainda se mantém em cena, em Sintra.
A presente versão dramatúrgica d'Os Maias, de Eça de Queirós, em cena no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra, há quatro temporadas, um espetáculo da ÉTER-Produção Cultural, consiste na condensação dramática dos principais momentos, dos conflitos mais importantes e das personagens e acontecimentos centrais da obra, captando a sua essência estruturante como obra literária, traduzida para a linguagem dramática e cénica num espetáculo que unifica e harmoniza três dimensões estéticas diferentes: a representação dos atores em palco, a representação dos atores em filme-vídeo e a música, elemento não menos decisivo para a totalidade do espetáculo.
Nesta adaptação dramatúrgica para cinco atores em palco e nove atores em filme, salienta-se uma visão realista da obra, dando continuidade ao estilo do autor e, porque apresentado em Sintra, exploram-se, em representação vídeo, os ambientes românticos da Serra louvados pelo maestro Cruges e o poeta romântico Tomás de Alencar, as estadias de Maria Eduarda no Hotel Lawrence e o encontro de Carlos Eduardo no Hotel Nunes com o raquútico Eusebiozinho e com o devasso jornalista Palma Cavalão e as suas espanholas.
No interior de uma visão realista da obra, destacam-se os figurinos da época, o constante humor que atravessa a representação dos atores, nomeadamente da personagem Dâmaso Salcede ("Chique a valer!) e a ironia presente na representação de João da Ega ("A única ocupação dos ministros é cobrar imposto e fazer empréstimo").
No início da peça, o humor e a ironia são minimizados face ao elemento dramático do suicídio de Pedro da Maia; no final, pelo elemento de Carlos da Maia e Maria Eduarda.
Cético o final da peça, como o final do romance, Ega confessa pertencer a uma geração que falhou a vida, adiantando, budistícamente, que " não vale a pena correr com ânsia para nada, nem para o amor, nem para a glória, nem para o dinheiro, nem para o poder...". Assim termina Os Maias, com Ega e Carlos Eduardo atravessando a plateia do grande auditório a correrem para o jantar no Hotel Bragança: "Lá vem um americano, ainda o apanhamos!". Não correm pela vida, correm por uma refeição. Destino trágico dos portugueses!
A produção dramatúrgica d'Os Maias insere-se na estratégia cultural da ÉTER, companhia especializada na criação artística em monumentos patrimoniais. Assim, apresentará na próxima temporada cinco espetáculos que, de certa forma, iluminam a história e a cultura portuguesaa: Memorial do Convento, de José Saramago, no Palácio Nacional de Mafra e na Fundação José Saramago; Navegar-Camões, Pessoa e o  V Império, no Mosteiro dos Jerônimos; Frei Luís de Sousa, de Almeida Garret, no Panteão Nacional; Os Maias, de Eça de Queirós, no Centro C. Olga Cadaval, e Vieira- O Sonho do Império, no Museu Nacional do Teatro. Acabou de representar Liberdade, Liberdade!, peça sobre os presos políticos durante o regime do Estado Novo, na Guiné-Bissau, depois de ter sido apresentado o mesmo espetáculo, no ano anterior, em Macau.


   
 Palácio Nacional de Mafra
         
 Fundação José Saramago


Panteão Nacional 

               
    Centro C. Olga Cadaval



  Restaurante em Sintra.jpg
Museu Nacional do Teatro             Hotel Lawrence

    
                                                                Hotel Bragança
                                                                           
Fonte: JL


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21 setembro 2013

Outras Estantes: Os Maias Revisitados - Parte 7

Se assinalam os 125 anos da sua edição(Os Maias) e uma iniciativa Expresso (Eça Agora) veio chamar a atenção para a obra e a efeméride. De facto, o conhecido semanário oferece o romance, em très edições consecutivas, a que se seguirão, em outras três edições, textos de seis escritores atuais que "trazem" Os Maias até 1973- e um sétimo e último volume sairá um estudo, sobre o romance, do reputado especialista queirosiano Carlos Reis. Maria do Rosário Cunha, falará sobre a futura edição crítica de Os Maias. Kyldes Batista Vicente, sobre a minissérie da TV Globo que os teve por base- enquanto se lembram também suas adaptações ao teatro (bem como a falhada tentativa do próprio Eça), com o testemunho da encenadora Filomena Oliveira.  E ainda o que pretende ser uma sua próxima adaptação ao cinema, em entrevista com o realizador João Botelho.

Maria Eduarda for ever!
José-Augusto França

Maria Eduarda é, sem antes nem depois, a heroína do romance português, por excelência sua, do seu autor e no que dramaticamente pode ser entendido no Portugal (ou na Lisboa) do Romantismo, já em perda realista de Fontismo. Isto é, nos anos 1880 de entre o "Santanário" de Camões e o Ultimatum. Como soube perceber, acho eu, um certo Conselheiro Adalberto Martins de Sousa, em Memórias encontradas que vão vir a lume. Quando, depois do "curto rompante de luxo barato" da Avenida e das paragens fluviais do Aterro, e quando o turf mudara de luxos para o Chiado, em 1888 (com alguma colisão de datas próximas, na narração então terminada), Carlos voltou, em visita, à pátria da "língua da libra" e "dos sindicatos", diz o Alencar.
Maria Eduarda era já então Madame de Trélain- e em vão eu próprio pus a filha Rose em Madame d'Amécourt, Mademoiselle de Saint-Postou que fora, a encontrar Eça nos "Variétés", já no fim do século, num entreato da La Belle Lurette. Notícias de "Madame votre mère?" Bem, só o coração, uma pequena malformação, "rien de grave"...Assim do coração malformado (de nascença, veja-se), Maria Eduarda discretamente padecia, como convinha, simbolicamente ao seu passado de amor intenso, e impossibilidade final...
Nesse amor e nessa impossibilidade se cruzou o par Maria e Carlos, que se formou na Lisboa de 1880-"amantes malditos" em "amor de perdição", a meio século de distância ( e estando ainda vivo quem o descreveu, em 1862) foi o deles os dois. Outro não haveria ou poderia haver, entre o Grémio e S. Carlos, da Gouvarinho ou da Abranhos, da prima Luísa ou da pobre Amélia da Leiria do Padre Amaro, ou da priminha das Serras, em casamento reconhecido- que outros exemplos Eça não deu, nem o seu próprio; nem o dos pais, entre ajuste mundano e oficial e drama doméstico de imprevidência.
Neste "romance de aprendizagem", "educação sentimental", foi Eça o romancista do amor mais autêntico que em Portugal tivemos, até ao melancólico desamor. Prefiro não falar aqui da Menina e Moça "alternativa", em jogo de reflexos, do poeta Bernadim, numa história em 89 capítulos, inconclusiva e assim moderna, afinal. E tão o foi quanto a de Maria e Carlos, no arrumar das suas vidas( ou des-vidas, como é corrente; todos os romancistas o sabem e praticam, tanto quanto podem). Porque, no Portugal em que nasceram, só entre eles, na sua categoria física (a bela entrada real de Maria, no átrio do Hotel Central: não há filme que no-la encene) podia haver tal amor...
O suicídio de Ana Karenina ou de Madame Bovary, trágico e nobre ou sórdido e pequeno-burguês, não podia ser para aqui chamado, em catástrofe que a boa educação de "vencido da vida" proibia. Mas o desenlace, após a crise tragicómica, não foi menos terrível, em mansa nostalgia...
Maria Eduarda terá tido modelo angevino fotografado, no preciso momento (isso está documentado) em que Eça compunha e recompunha Os Maias? Não há especialista ( e tantos são!) que o confirme ou analise, nem biograficamente o queira saber, em Angers, como necessário parece ser.
De qualquer modo, neste aniversário esdrúxulo de 125 anos d'Os Maias - Maria Eduarda for ever, e única!


14 setembro 2013

Outras Estantes:Os Maias Revisitados- Parte 6

Se assinalam os 125 anos da sua edição(Os Maias) e uma iniciativa Expresso (Eça Agora) veio chamar a atenção para a obra e a efeméride. De facto, o conhecido semanário oferece o romance, em très edições consecutivas, a que se seguirão, em outras três edições, textos de seis escritores atuais que "trazem" Os Maias até 1973- e um sétimo e último volume sairá um estudo, sobre o romance, do reputado especialista queirosiano Carlos Reis. Maria do Rosário Cunha, falará sobre a futura edição crítica de Os Maias. Kyldes Batista Vicente, sobre a minissérie da TV Globo que os teve por base- enquanto se lembram também suas adaptações ao teatro (bem como a falhada tentativa do próprio Eça), com o testemunho da encenadora Filomena Oliveira.  E ainda o que pretende ser uma sua próxima adaptação ao cinema, em entrevista com o realizador João Botelho.

Para uma edição crítica
Maria do Rosário Cunha * 

No início de 1881, Eça de Queirós ocupava-se já com a redacção d'Os Maias, conforme afirma numa carta a Ernesto Chardron, com data de 16 de janeiro, justificando o atraso na revisão das provas d'A Capital!: "Tem V. Exª razão, mil vezes razão, a respeito da Capital! Mas que quer? Meti-me nesta empresa dos Maias que deviam ser apenas uma novela, e que se tornaram um verdadeiro romance! E tenho gasto todo este tempo a trabalhar neles!" E acrescenta: "Felizmente vejo breve(o) fim desta obra - e então em pouco tempo, querendo Deus, a Capital estará pronta. Porque não creia que eu não tenha também trabalhado nela , aqui e além; mas trabalho casual que pouco adianta: os Maias absorvem-me."
Estas palavras permitem situar o início da gestação d'Os Maias no ano de 1880, pelo menos, sendo possível até que o romance "à espera de vez", de que fala a Ramalho Ortigão, em carta de 28 de setembro de 1878, fosse já o seu embrião: ainda sem título definido, era a história de um incesto, mas, segundo afirmava, "tratado com tanta reserva que não choca".
Seja como for, o certo é que quando Eça escreve a Chardron, em janeiro de 81, a elaboração d'Os Maias, já com o título com que virá a ser publicado, estaria numa fase que, monopolizando o ímpeto criativo do escritor, lhe permitia reclassificar a obra genologicamente, de acordo com a amplitude que esta fora adquirindo. O que vem a ser confirmado, um mês depois, em nova carta a Ramalho: o romance, "robusto e nédio livro em dois volumes", estava "pronto no manuscrito inicial", os três primeiros capítulos enviados para impressão, e outros capítulos já copiados e à espera de seguirem o mesmo caminho.
O processo complica-se, porém, e, no Verão do ano seguinte, Eça queixa-se a Ramalho de estarem impressos apenas quatro capítulos, facto que atribui à incompetência da empresa a quem fora confiada a tarefa. A partir de 1883, a responsabilidade da edição passa, por fim, para as mãos de Ernesto Chardron. Mas os cinco anos que, a partir de então, são ainda necessários ao aparecimento do romance desmentem a simplicidade que o escritor atribuía ao processo de revisão das provas tipográficas: "Eles mandam-me primeiras provas de composição, que eu revejo; em seguida remetem-me, não provas segundas, mas provas de páginas, que revejo, devolvo- e acabou-se" (carta a Ramalho, de 10 de agosto de 1882).
Sem ignorar as frequentes queixas de Eça relativamente à incúria dos tipógrafos, ao seu peculiar processo de escrita fica a dever-se a publicação, em 1888, de um romance que o escritor afirmava estar terminando em 1882. Só em outubro de 1887, no entanto, Eça anuncia a Jules Genelioux, sucessor de Chardron, entretanto falecido, ter enviado à tipografia o final do romance, ficando na sua posse, para revisão, o penúltimo capítulo. Em 19 de abril de 1888 espera ainda as duas últimas páginas, reclamando igualmente de Genelioux a revisão da página 8: "Cette feuille 8me j'avais l'intention de la laisser telle qu'elle est, après tout. En la rekisant cependant (...), je vois qu'elle fourmille d'erreurs trop grossiers et quíl est important de la reimprimer.(...)Ainsi vous voyez que je n'ai plus deja grand chose à faire. Je serais très satisfait vers la moitié de Mai". Não será em maio, contudo, mas no final de junho que o livro aparece.
As exigências de ordem estética e ética que sempre acompanharam o trabalho do escritor estão plenamente documentadas na extensa correspondência trocada com familiares e amigos. Todos os romances que escreveu lhe suscitaram tais dúvidas e, no que repeita a Os Maias, por mais de uma vez as manifestou. Em 1882, a 3 de junho, nomeadamente, escrevia a Ramalho: "Eu não estou contente com o romance: é vago, difuso, fora dos gonzos da realidade, seco, e estando para a bela obra de arte, como o gesso está para o mármore. Não importa. Tem aqui e além uma página viva- e é uma espécie de exercício, de prática, para eu depois fazer melhor".
A esta necessidade de "fazer melhor" ficaram a dever-se os enormes lapsos de tempo decorridos entre o momento em que anunciava a conclusão de uma obra e aquele em que essa obra era realmente concluída. Entretanto, no "vai e vem" das provas tipográficas, as correções ou, na maior parte dos casos, em acrescentos entrelinhados ou registados em longas tiras de papel coladas às páginas originais, do que resultava um produto inteiramente diferente  daquele que inicialmente chegara às mão dos tipógrafos.
Desta incessante procura do termo justo e da forma perfeita resultou um conjunto precioso de materiais - manuscritos e impressos - que hoje permitem reconstituir diferentes fases e estratégias de construção da narrativa queirosiana. Nem sempre, contudo, esses materiais foram preservados, e, no caso d'Os Maias, justamente, são escassos os elementos que poderiam levar à descoberta das diferentes fases de gestação e amadurecimento do romance onde, como escreve ao amigo Ramalho, em 20 de fevereiro de 1881, decidira "(pôr) tudo o que (tinha) no saco".
No espólio que a família de Eça de Queirós entregou à guarda da Biblioteca Nacional, na década de 70 do século passado, apenas dois manuscritos podem ser associados ao processo de elaboração e redação do romance. Um deles, composto por seis folhas escritas a lápis de ambos os lados e sem título, apresenta um conjunto de descrições, variantes umas das outras, de paisagens naturais. Em termos de construção narrativa, trata-se de um documento de trabalho que, por tentativas, procede à representação do espaço permitindo reconhecer o cenário do passeio a Sintra, que ocorre no capítulo VIII.
O outro, composto por cinco folhas igualmente escritas a lápis de ambos os lados, apresenta uma série de descrições independentes entre si, a maior parte das quais incide sobre a tourada: sobre aspetos técnicos do espetáculo, sobre o recinto da praça de touros e sobre o público que a ela acorre e nela se encontra. Como é sabido, não existe qualquer tourada n"Os Maias. Mas as notações de luz e cor, de calor e pó, e do tédio que se desprende da paisagem humana, tristonha e séria, remetem claramente para o episódio das corridas de cavalos, que ocupa o capítulo X do romance. As razões que terão levado Eça a substituir pelas corridas de cavalos o espetáculo genuinamente português da tourada, sem desaproveitar totalmente o documento de trabalho que este manuscrito representa, serão ponderadas, no texto introdutório à edição crítica que se encontra em fase de preparação*
O trabalho exigido por esta edição não levanta particulares problemas, dada a inexistência de variantes que lancem dúvidas sobre a vontade definitiva do autor relativamente ao texto que deixou. Ainda assim, não podem ser ignorados os excertos que, antes de 1888, foram publicados em alguns períodicos, nomeadamente no Correio da Manhã (1884), n' A Ilustração (1886) e no Almanaque das Senhoras Portuguesas e Brasileiras para 1888 (1887): conhecendo o processo de escrita de Eça de Queirós, não é possível ignorar a hipótese de alguma divergência relativamente ao texto final, publicado em 1888. É sobre este texto, primeira e única edição em vida do autor, com uma tiragem de 5000 exemplares, que incide a fixação do texto da edição crítica.*

* Maria do Rosário Cunha é profª da Universidade Aberta e autora de vários livros sobre Eça, estando a preparar, com Carlos Reis, a edição crítica d'Os Maias, para a Imprensa Nacional/Casa da Moeda.


07 setembro 2013

Outras Estantes:Os Maias Revisitados- Parte 5

Se assinalam os 125 anos da sua edição(Os Maias) e uma iniciativa Expresso (Eça Agora) veio chamar a atenção para a obra e a efeméride. De facto, o conhecido semanário oferece o romance, em très edições consecutivas, a que se seguirão, em outras três edições, textos de seis escritores atuais que "trazem" Os Maias até 1973- e um sétimo e último volume sairá um estudo, sobre o romance, do reputado especialista queirosiano Carlos Reis. Maria do Rosário Cunha, falará sobre a futura edição crítica de Os Maias. Kyldes Batista Vicente, sobre a minissérie da TV Globo que os teve por base- enquanto se lembram também suas adaptações ao teatro (bem como a falhada tentativa do próprio Eça), com o testemunho da encenadora Filomena Oliveira.  E ainda o que pretende ser uma sua próxima adaptação ao cinema, em entrevista com o realizador João Botelho.

A minissérie da televisão brasileira
Kyldes Batista Vicente *

As minisséries e as telenovelas brasileiras buscaram seus temas na literatura, desde o início de sua produção. Ao analisarmos as minisséries exibidas pela Rede Globo de Televisão até hoje, notamos que metade delas teve inspiração nos textos literários: entre os brasileiros, Jorge Amado, Nelson Rodrigues e Érico Veríssimo foram os mais visitados. A procura por autores estrangeiros é menor; no entanto, Eça de Queirós constitui o destaque, duas vezes revisitado, com O Primo Basílio (1988) e Os Maias (2001). Esta última minissérie foi uma coprodução entre a Rede Globo (Brasil) e a SIC (Portugal), que teve o custo, à época, segundo a emissora, de XX milhões de reais.
O projeto da minissérie Os Maias teve início em 1997, quando a Rede Globo convidou a novelista Glória Perez para assinar o roteiro, e Wolf Maya, a direção. A minissérie teria 16 capítulos, seria toda gravada em Portugal, teria Paulo Autran como Afonso da Maia e estava prevista para ser exibida a partir de janeiro de 2000. No entanto, em março de 1999, depois de trabalhar no remake da novela Pecado Capital, Glória Perez não pôde participar do projeto Os Maias.
Então, em 2000, após o sucesso de A Muralha, a emissora escolhe Maria Adelaide Amaral para elaborar o roteiro e Daniel Filho para a direção. que posteriormente foi substituído por Luiz Fernado Carvalho. E, para colaborar com Maria Adelaide Amaral nesta elaboração do roteiro, foram convidados Vincent Villari e João Emanuel Carneiro, a mesma equipe do sucesso A Muralha. Após análise do romance, a equipe decidiu construir a minissérie a partir de três romances de Eça de Queirós: Os Maias, A Relíquia e A Capital,  já que a minissérie deveria ter 44 capítulos. Nesse caso, a equipe buscou na obra de Eça de Queirós subsídios para ampliação dos capítulos.
A pesquisa para a elaboração do roteiro contou com o exame e a consulta da obra ficcional do autor de Os Maias, as correspondências, ensaios, artigos publicados em jornais, projetos de textos inéditos fornecidos pelo prof. Carlos Reis  e também fotografias do escritor, Dessa forma é que os roteiristas chegaram à construção de cenas e diálogos que apresentassem o mesmo tom da literatura de Eça de Queirós. As escolhas dos romances do escritor português, as inserções de textos não narrativos e não verbais, bem como de outras fontes, para que a minissérie fosse elaborada, culminaram em um complexo processo de construção do roteiro da minissérie.
No trabalho de composição, os roteiristas sentiram a necessidade de aproximar o texto queirosiano ao espectador brasileiro.Com isso, as adaptações foram conduzidas para que houvesse a compreensão da narrativa e que pudessem ser atendidos os influxos da mídia televisiva.
A roteirista-autora esteve atenta aos cuidados com a realização deste trabalho, conduzindo-se de forma respeitosa com o texto do escritor português e as estratégias utilizadas para atender aos anseios da teledramaturgia. O embate entre o "fazer dramaturgia" e a preocupação com a aproximação ao texto literário, além da preocupação em imprimir suas marcas no texto, causaram reação de queirosianos acerca da inserção de outros textos do autor e dos recursos melodramáticos utilizados na versão para a TV.
Durante as gravações da minissérie, a equipe passou cerca de seis semanas em Portugal e foi a primeira equipe de produção a ficar tanto tempo fora do país. Além disso,  mais de 70 pessoas compuseram a equipe técnica, composta por 26 atores. O diretor Luiz Fernando Carvalho enfatizou que as cenas em Lisboa e arredores eram para encontrar e reproduzir bem a obra de Eça de Queirós. O ator Osmar Prado, que interpretou o poeta Alencar, em depoimento no DVD, demonstra a mesma opinião, afirmando que a minissérie cumpria uma função social, a de despertar o interesse das pessoas pela literatura.
A minissérie obteve uma audiência média de 16,3 pontos percentuais em São Paulo e 17,7 no Rio de Janeiro, diante de uma expectativa de, pelo menos, 30 pontos de audiência (índice médio do horário), naquela época. Todavia, apesar desses índices de audiência da minissérie, o livro Os Maias, no mesmo período, tornou-se um best-seller nas livrarias (um aumento de 80% nas vendas).
Durante o ano de 2001, a minissérie recebeu os prémios de melhor cenografia, fotografia e direção de arte do II Festival Latino-Americano de Cine Vídeo de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, e marcou o retorno de Luiz Fernando Carvalho à equipe de diretores da Rede Globo, da qual estivera afastado por três anos, para as gravações do filme Lavoura Arcaica (2001).
Em 2004, o DVD Os Maias (versão do diretor) foi lançado pela Globo Vídeo, com a edição de Luiz Fernando Carvalho, que suprimiu os trechos da narrativa audiovisual que fazem referência aos romances A Relíquia e A Capital. O lançamento do DVD também possibilitou a abertura de espaços para a discussão de outras obras dos realizadores e comparações entre os seus trabalhos, além da discussão acerca da obra de Eça de Queirós.
Nas redes sociais e blogues, a discussão acerca da afinidade entre o texto literário e o texto televisivo continua ocorrendo, especialmente no que diz respeito ao material do DVD. De março a maio de 2012, o Canal Viva (da Rede Globo) reapresentou a minissérie, o que trouxe à agenda brasileira de fãs, o retorno das participações nos grupos de discussão.
A análise da minissérie Os Maias nos faz crer que essa produção constitui-se em um cuidadoso trabalho de adaptação. O atendimento aos "influxos televisivos" de que fala Maria Adelaide Amaral não impede que a minissérie seja um dos melhores produtos da televisão brasileira.

* A autora é doutorada em Comunicação e Cultura Contemporâneas e profª da Universidade do Tocantis 
Fonte: JL



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24 agosto 2013

Outras Estantes: Os Maias Revisitados - Parte 4

Se assinalam os 125 anos da sua edição(Os Maias) e uma iniciativa Expresso (Eça Agora) veio chamar a atenção para a obra e a efeméride. De facto, o conhecido semanário oferece o romance, em très edições consecutivas, a que se seguirão, em outras três edições, textos de seis escritores atuais que "trazem" Os Maias até 1973- e um sétimo e último volume sairá um estudo, sobre o romance, do reputado especialista queirosiano Carlos Reis.
E é deste colunista o texto a seguir. Maria do Rosário Cunha, falará sobre a futura edição crítica de Os Maias. Kyldes Batista Vicente, sobre a minissérie da TV Globo que os teve por base- enquanto se lembram também suas adaptações ao teatro (bem como a falhada tentativa do próprio Eça), com o testemunho da encenadora Filomena Oliveira.  E ainda o que pretende ser uma sua próxima adaptação ao cinema, em entrevista com o realizador João Botelho.
Alguns tópicos de uma releitura 
Por Carlos Reis

Por que razão ou razões relemos um romance? Por exemplo: porque a sua complexidade requer outra e outra(s) leitura(s), porque trabalhamos sobre ele, porque amadurecemos e desejamos reencontrá-lo com olhos refeitos por esse amadurecimento. Ou simplesmente porque ele é, conforme a expressão banal diz, o livro da nossa vida, esse que nos fica quando muitas outras coisas passaram ou vão passando.
Das minhas releituras d'Os Maias retive algumas revelações curiosas. Como quem diz: fui reajustando imagens, refigurando personagens, descobrindo minudências aparentemente irrelevantes, dessas que me permitiram, há alguns anos, falar numa estética do pormenor que n'Os Maias se ilustra. Por exemplo: aquele "bando de pardais (que) veio gralhar um momento nos ramos de uma alta árvore que roçava a varanda", no amago episódio em que Afonso da Maia se acha na solidão decorrente da rutura com Pedro. A presença de Vilaça pai é ali meramente funcional (é ele quem traz a notícia do casamento de Pedro); não assim com aquele bando de pardais, que, por contraste, tornam mais denso e sombrio o episódio de que falo. E sobretudo dão o testemunho de um outro realismo, aquele que não prescinde de pormenores que dão do real representado uma imagem multímoda e plural, refugindo ao esquematismo de um programa estético pré-determinado. Ou seja: num texto de Eça nada está por acaso.
Dentre todas as revelações de que falei não esqueço nem esquecerei aquela a que fui conduzido por uma certa releitura d'Os Maias. Refiro-me à imagem reelaborada da grande personagem que é Afonso da Maia-porque, além do mais, Eça foi também um grande autor de personagens. Durante algum tempo, Afonso foi, para mim, uma figura imponente e fisicamente impressiva; e "lembrava, como dizia Carlos, um varão esforçado das idades heroicas, um D. Duarte de Meneses ou um Afonso de Albuquerque" (cap. 1). Só que um pouco antes e a abrir este parágrafo, pode ler-se: Afonso era um pouco baixo, maciço, de ombros quadrados e fortes."  Repito: "um pouco baixo".
De onde vinha, então, a imagem de grandeza que me estava gravada? Nem mais nem menos do que da derradeira aparição de Afonso, no capítulo XVII, naquele arrepiante encontro com o neto, quando ambos sabiam já da tragédia do incesto. É de madrugada, Carlos regressa de casa de Maria Eduarda, torturado pela culpa e pelo horror da desgraça que se abateu sobre a família; e quando reentra no Ramalhete, surge Afonso da Maia: "O clarão chegava, crescendo; passos lentos, pesados, pisavam surdamente o tapete; a luz surgiu - e com ela o avô em mangas de camisa, lívido, mudo, grande, espetral."
Para se entender a aparente divergência desta figura (agora) "grande", relativamente a quem antes era "um pouco baixo", é preciso estar atento a duas coisas, dessas que podem escapar a uma primeira leitura. Primeira: ambas as imagens são filtradas e mesmo distorcidas pelo olhar e pelas emoções de Carlos da Maia. Segunda: a grandeza de Afonso, naquele momento decisivo em que mudamente interpela o neto - "e os dois olhos do velho, vermelhos, esgazeados, cheios de horror, caíram sobre ele, ficaram sobre ele, varando-o até às profundidades da alma, lendo lá o seu segredo" - não é física, mas moral. É essa sua dimensão moral, aliás, que o impôe ao longo do romance como referência de valores e de comportamentos, perante a fauna de amigos e conhecidos que circulam pelo Ramalhete - incluindo quem, como Carlos, descuida o exemplo do "varão heroico" que o avô representa.
As releituras d'Os Maias não são apenas (o que já seria muito) atos de reencontro e processos de reajustamento semântico de um texto longo, complexo e tecnicamente muito elaborado. São também oportunidades para lermos o eco de outras aventuras artísticas que o gênio queirosiano antecipou.
Recordo que Eça trabalhou este romance durante cerca de oito anos, com avanços e recuos, desânimos e entusiasmos, num tempo que, para o escritor, foi de busca de novos rumos estéticos. Às vezes penso que nunca faremos um ideia precisa do que era, naquela época, o esforço exigido para se levar até o fim a redação, a cópia, o árduo trabalho de emenda (em sucessivas campanhas de escrita) e a correção de provas tipográficas de romances com esta dimensão, sejam eles Os Maias, La Regenta ou Guerra e Paz. Mais: esse exigente labor (até o ponto de vista físico: pense-se no que eram os instrumentos de escrita da época) foi acompanhado, por parte de Eça, por uma reflexão doutrinária muito lúcida e consequente. Vivendo fora de Portugal, Eça estava em boas condições para acompanhar o evoluir da vida cultural e literária europeia e para perceber, como poucos no seu tempo, os rumos e os desafios que essa vida cultural colocava..
Lembro que foi durante a composição d'Os Maias que Eça escreveu alguns dos seus mais significativos textos doutrinários: por exemplo, em 1884, a carta-prefácio d'O Brasileiro Soares, de Luís de Magalhães, em 1886; e sobretudo, no mesmo ano, o admirável prólogo dos Azulejos do Conde de Arnoso, texto de arguta e elegante reflexão acerca da pertinência estética do naturalismo, da sua receção portuguesa, do alargamento do mercado de bens culturais (assim mesmo, como um Bourdieu avant la letre), das mutações técnicas que alteraram a relação entre o escritor e o público e do potencial de transcendência e de sobrevivência das grandes obras artísticas..
É muito disto que encontramos n'Os Maias, quando os lemos como romance virado para questões de índole literária. É que Tomás de Alencar e João da Ega (e até, em parte, Carlos da Maia) são escritores em potência ou no ativo. E são-no num tempo em que a literatura e o escritor detinham um poder institucional e simbólico considerável. Por iso Os Maias incluem vários momentos de ponderação metaliterária e metacultura, às vezes temperados pela paródia a que Eça dificilmente resistia.
Só para dar um exemplo: o capítulo VIII ( o do passeio a Sintra) não é apenas um episódio de pausa na intriga e de dececionante desencontro (Carlos ia em busca de Maria Eduarda, afinal ausente). O espaço de Sintra e a sua relação com os temas, com os valores e com as vivências de um romantismo cada vez mais convencional estimulam reações em que é bem audível (mas quase sempre caricatural) o propósito de embutir na ficção a doutrina, o imaginário e os mitos literários do romantismo.
Dois exemplos: é em Sintra que o burlesco Palma Cavalão reage azedamente ao olhar sobranceiro de Carlos da Maia. Assim: "olhem, o Herculano é capaz de fazer belos artigos e estilo catita... Agora tragam-no cá para lidar com espanholas e veremos! Não dá meia.." E é já no final do capítulo que Alencar (era ele quem tinha que estar em Sintra e não Maria Eduarda) mistura receitas literárias com receitas de cozinha: "Porque, lá isso, rapazes, versos os farão outros melhor; bacalhau, não!"
Por estas e por outras, Tomás de Alencar saiu das páginas do romance e prolongou a sua vida ficcional num caso de polémica que é parte integrante da chamada receção imediata d'Os Maias (lembro um livro de António Apolinário Lourenço, O Grande Maia, de 2000). Refiro-me à reação de Bulhão Pato e de Pinheiro Chagas (sempre este homem fatal!, diria Eça) a propósito de Alencar como possível caricatura do poeta da Paquita. A resposta do grande romancista a esta acusação (e vá-se lá saber se Eça seria capaz de resistir à tentação daquela caricatura...) é um notável texto de ironia e de agilidade argumentativa, publicado em 1889 com o título "Tomás de Alencar (Uma explicação)" (inserto nas Cartas Públicas, edição de Ana Teresa Peixinho na Imprensa Nacional-Casa da Moeda).
Seja ou não fundada a ofensa de Pato, aquele texto é, em embrião, um tratado de teoria da ficção, envolvendo não só (e sempre) a questão do realismo e da representação, mas também a da sobrevida das figuras ficcionais na sua relação com o mundo real. Esse mesmo de onde talvez elas tenham vindo e para onde acabam por regressar, quando o génio de um escritor é capaz de projetar para a posteridade o que elas são e significam. Também por isso, reler Os Maias é uma aventura sem fim.
Fonte: JL



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