04 maio 2011

Teólogo alemão Hans Küng questiona beatificação de João Paulo 2°

O teólogo alemão Hans Küng critica a beatificação de João Paulo 2°, afirmando que isso implica, na verdade, a beatificação de uma política eclesiástica reacionária.

Milhares de pessoas presenciaram no Vaticano neste domingo (01/05) a missa celebrada pelo papa Bento 16 para a beatificação de seu antecessor, João Paulo 2º, falecido em 2005. Essa foi a penúltima etapa no reconhecimento do papa polonês como santo pela Igreja Católica.

Teólogo e filósofo Hans KüngEm entrevista à emissora Deutschlandfunk, o teólogo alemão Hans Küng criticou o papa João Paulo 2°, classificando-o de intolerante, reacionário e sem disposição para o diálogo. O teólogo, que foi proibido de lecionar teologia católica em 1979 por João Paulo 2°, afirma na entrevista "não entender como se pode beatificar tal homem, como se pode fazer dele um exemplo para a Igreja".

Küng também criticou a violação do direito canônico devido ao desrespeito dos prazos de beatificação por parte da Santa Sé.

Jürgen Zurheide: Em primeiro lugar, o senhor mesmo está bastante cético e criticou a rápida beatificação de João Paulo 2°. Quais são os seus principais motivos?

Hans Küng: Não nego que ele tenha sido um homem de caráter, um pioneiro da lutas e dos direitos humanos e que tinha muitos lados positivos. Mas, por outro lado, pairam tantas sombras sobre essa pessoa e seu pontificado, que eu não concordo de maneira alguma com sua beatificação.

Ele praticava uma política interna autoritária. Com essa beatificação, está sendo beatificada uma determinada política eclesiástica reacionária restaurativa. Aconteceram também, nesse contexto, diversas violações do direito canônico. Todos os prazos previstos foram colocados fora de vigor, tudo sempre através do privilégio papal, o que é um sinal de que ainda temos um absolutismo medieval. Houve uma múltipla traição ao Concílio.

Se comparar com o grande slogan do aggiornamento – como se chamava antigamente [a modernização da Igreja como objetivo do Concílio Vaticano 2°] –, nós presenciamos a volta das grandes encíclicas morais, de um catecismo tradicionalista. [...] Em vez de diálogo, se aposta novamente no controle da liberdade de expressão e consciência.

Então, se eu ainda acho que a nova evangelização falhou completamente e, hoje, 80% dos católicos alemães exigem reformas em sua Igreja, e se levo em conta o nefasto envolvimento com o pedófilo Maciel Degollado, então devo dizer que não posso entender como se pode beatificar tal homem, como se pode fazer dele um exemplo para a Igreja.

Voltaremos a falar sobre a situação da própria Igreja, mas eu também quero lhe fazer uma pergunta pessoal: o fato de João Paulo 2° ter cassado sua licença para lecionar teologia católica em 1979 exerce algum papel em seu julgamento sobre ele? Existe uma amargura de sua parte?

Eu não estou amargurado, mas eu vejo isso naturalmente como o começo de uma onda inquisitória, que também atingiu outros teólogos, freiras e bispos. O meu caso foi apenas o primeiro. Na ocasião, eu não pude defender minha posição nem antes nem durante tampouco depois do processo.

Ou seja, isso é um sinal de que o papa foi intolerante durante todo o seu pontificado, sem disposição para o diálogo dentro da Igreja. Ele queria ter ao seu redor yes men, pessoas que obedecem a tudo incondicionalmente. Tudo isso fez com que agora estejamos numa verdadeira crise.


O senhor já mencionou uma série de questões – de acordo com sua análise, a Igreja Católica se encontra em uma situação crítica. O senhor levantou a pergunta recentemente em um livro: A Igreja ainda pode ser salva? Alguns pontos já foram mencionados. O que acontece, em princípio, de errado?

Em princípio é errado que a Igreja Católica, a grande comunidade religiosa – da qual eu sempre fui membro e sempre o serei – sofra sob aquilo que chamamos de sistema romano. Esse sistema romano, um sistema de governança, foi criado na Idade Média, no século 11. Desde então, vivenciamos um Absolutismo papal, nós temos – pense em Canossa – os clérigos em contraposição aos leigos, temos também a lei do celibato, isso tudo é do século 11.

A Reforma, no entanto, não fez efeito, nem o Iluminismo. O Concílio Vaticano 2° tentou empreender uma reforma, mas não conseguiu. Temos agora mais uma vez os mesmos problemas, não há reforma do papado, da Cúria Romana, da lei do celibato, da atitude em relação às mulheres, à sexualidade, à misoginia. Isso tudo faz parte de um conjunto de coisas, foi isso que expliquei no livro.

O senhor está entre os que conhecem bem, há longo tempo e pessoalmente, o papa Bento 16. Até 2005, os senhores ainda empreendiam longas discussões. O senhor deve ter lhe enviado seu livro, já recebeu alguma resposta?

Eu enviei um exemplar. Acho que temos um diálogo muito aberto, e apesar de tudo bastante amigável. Servimos à mesma comunidade religiosa, mas é claro que de forma completamente diferente. Eu não espero que ele aprove o que eu escrevi agora, mas ele deve reconhecer que tenho boas intenções, intenções construtivas para a Igreja.

Ele me confirmou o recebimento e me disse claramente através de seu secretário particular que o Santo Padre deixa cumprimentos cordiais. De qualquer forma, esse é um sinal de que se podem ter diferentes opiniões na mesma Igreja, sem ser simplesmente inimigo um do outro.

O que deve acontecer para que essa Igreja volte a seguir o caminho do Concílio Vaticano 2°, que o senhor mencionou diversas vezes?

Eu propus no meu livro uma série de terapias ecumênicas, a Igreja teria de se concentrar novamente em suas funções básicas e assumir sua responsabilidade social. Mas caberia ao papa fazer um esforço maior de comunhão com a Igreja – quando 80% dos católicos alemães dizem hoje que desejam reformas, ele não pode simplesmente dizer que isso não lhe diz respeito.

A Cúria Romana precisa ser reformada com a maior urgência, o nepotismo deve ser substituído por pessoal competente. Precisamos, principalmente, também de uma Glasnost ou Perestroica para as finanças da Igreja. E a Inquisição deve ser finalmente abolida e as formas de repressão têm de ser eliminadas. Dessa forma, o direito canônico não deve ser só melhorado, como tem sido feito até agora, mas completamente reorganizado, ou seja, o casamento deve ser permitido a padres e bispos e os postos da Igreja devem ser abertos a mulheres.

E, sobretudo – isto é uma reclamação de muitos católicos – o clero e os leigos devem participar da escolha dos bispos, como era antigamente. E, quanto ao ecumenismo, já está mais do que na hora que seja permitida a comunhão entre católicos e protestantes, como se pode ler em muitos pareceres do movimento ecumênico. Também seria possível esperar que o papa trouxesse tais presentes quando viesse à Alemanha, e não somente palavras bonitas, aplaudidas por todos, especialmente pelos políticos.

Mas o senhor ainda tem alguma esperança de que isso aconteça?

Nós não podemos impor limites ao espírito de Deus.

Entrevista: Jürgen Zurheide (ca)
Revisão: Roselaine Wandscheer

Comentário:
\o que acha da posição do filósofo alemão?

03 maio 2011

Quartas de final - Copa de Literatura-de 2011

http://www.copadeliteratura.com.br/

Política e literatura

Publicação: 16 de Maio de 2010
Marcelo Alves Dias de Souza - procurador da República 

É fato que escrevi, nas últimas semanas, sobre política, essencialmente sobre a política do Reino Unido. “E já basta”, o leitor mais enfezado poderá dizer. Então passemos, até para evitar uma tão constrangedora reprimenda, a outro assunto: literatura. Mas passemos suavemente, pois, como disse o maior do poetas portugueses, “mais vale saber passar silenciosamente. E sem desassosegos grandes”. E se da política à literatura inglesa vamos, nada melhor que façamos por intermédio de duas personagens que, nos séculos XIX e XX, respectivamente, com grande desenvoltura, marcaram presença nesses dois mundos: Benjamin Disraeli (1804-1881) e Winston Churchill (1874-1965) .

Na política, Benjamin Disraeli, Primeiro Earl of Beaconsfield e grande amigo da Rainha Victoria, foi, pelo Partido Conservador, duas vezes Primeiro-Ministro do  Reino Unido (1868 e 1874-1880), além de haver ocupado inúmeros outros cargos durante pelo menos quarenta anos de vida pública. A história política do Reino registra sobretudo sua intensa rivalidade com William Gladstone (1809-1898), que, apesar da antipatia da Rainha, em uma carreira política de mais de 60 anos, foi, representando o Partido Liberal, quatro vezes Primeiro-Ministro (1868-1874, 1880-1885, 1886 and 1892-1894). E essa rivalidade, entre Tories e Whigs, entre Disraeli e Gladstone, pautou por mais de um quarto de século a política na terra de Shakespeare. 

Na letras, Disraeli, dotado de solidez intelectual e com formação em direito, incursionou por vários estilos e, assim como na política, angariou admiradores e desafetos. Quem sabe não esteja aí a explicação para o fato de ele estar fora do cânone da literatura da era vitoriana (apesar de seus desafetos/críticos, menos complacentes, atribuírem isso às deficiências intrínsecas à sua obra). O Disraeli-escritor deve seu status, certamente, aos inúmeros romances que escreveu. Desde o primeiro deles, “Vivian Grey” (publicado anonimamente em 1826) - mas, sobretudo, com sua trilogia “Coninasby” (1844), “Sybil” (1845) e “Tancred” (1847) - alcançou grande fama. As composições dessa trilogia, como informa o “(The) Oxford Companion to English Literature”, podem ser consideradas como os primeiros romances políticos em língua inglesa (algo que foi posteriormente desenvolvido por contemporâneos seus como Anthony Trollope). Na trilogia, Disraeli, ao mesmo tempo que demostra simpatia pelos oprimidos (para alguns, sobretudo seus adversários políticos, uma simpatia fingida), retrata as mais eminentes figuras de seu tempo com fina ironia, mostrando, às escâncaras, a alta sociedade e a política de então. Sobretudo com “Sybil, or The Two Nations” (alegadamente a mais refinada de suas obras, onde ele consegue denunciar o horror de uma nação dividida entre pobres e ricos), Disraeli, não obstante imperialista (vide a aquisição do Canal de Suez no seu segundo Governo), construiu a base para o que seria seu modo de agir e para as reformas que implementou na política interna, com a aprovação, por exemplo, de toda uma legislação protetiva à classe trabalhadora e à saúde. 

Já Winston Churchill é uma das figuras políticas mais lembradas do século passado, sobretudo pelo papel – certamente heróico – que exerceu na 2ª Guerra Mundial, no afã de deter o avanço militar nazista. Sem medo de errar, ele é uma das maiores lideranças em tempo de guerra que a humanidade já produziu. Aliás, sua carreira militar, apesar de reconhecidos insucessos, rivaliza com com sua carreira política, tendo servido como oficial na Índia, no Sudão, na 2ª Guerra Boer e, ainda, na 1ª Guerra Mundial, como First Lord of the Admiralty (algo como nosso Ministro da Marinha), Ministro/Secretário de Estado de Munições, para Guerra e para a Aeronáutica. Em tempos de guerra ou não, Churchill foi ainda Chancellor of the Exchequer (cargo mais ou menos correspondente ao nosso Ministro da Fazenda) e Primeiro-Ministro do Reino Unido por duas vezes (1940-1945 e 1951-1955). Orador brilhante, seus discursos são hoje considerados como clássicos na arte de Demóstenes e Cícero. Quem não se lembra de “sangue, suor e lágrimas” ou de “nunca tantos deveram tanto a tão poucos”?

Mas Churchill era um homem de inúmeras facetas. Além de militar e político, foi pintor diletante, grande bebedor, gastador e apreciador de charutos. Era também dado a recorrentes episódios de depressão (que ele chamava de “Black Dog”), do que padeceu durante toda vida. E ele foi sobretudo um historiador/escritor de imenso talento, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1953. Desde o seu primero livro (publicado em 1898) e quase sempre necessitado de dinheiro, Churchill viveu das rendas das publicações de seus livros ou de artigos em jornais e revistas. Se contados apenas os livros publicados em vida, sua obra passa dos 50 títulos. Dela se destaca, certamente, “A History of the English-Speaking Peoples” (1956-58), obra composta de vários volumes, cobrindo a saga desses povos desde a invasão Romana da Grã-Bretanha Romana por Julio César até os albores da 1ª Guerra Mundial.  No mesmo patamar ou talvez acima estão os vários volumes de “The Second World War” (se não estou enganado, reeditados no Brasil, faz poucos anos, em uma versão mais concentrada de um só volume), suas ambiciosas memórias publicadas entre 1948-1954, combrindo um período que vai desde fins da 1ª até fins da 2ª guerras mundiais, quando o autor não foi só testemunha da história, mas também um de seus grandes protagonistas. Considerada por muitos a mais importante de suas obras, as “memórias”, pelo seu conteúdo e pela qualidade estilística, certamente tiveram um peso decisivo para a obtenção do Prêmio Nobel. 

As coincidências nas vidas de Disraeli e Churchill são inúmeras. Ambos eram “animais” políticos, no que a expressão tenha mais a ver com a política partidária. Mas ambos foram também grandes estadistas. Disreali, assim como Churchill, foi levado à literatura, se diz, em virtude de precária situação financeira. De certa maneira, ambos tiveram suas “carreiras” literárias eclipsadas pelas brilhantes carreiras na política. Sobretudo, a obra de ficção de Disraeli pode ser lida como as memórias (antecipadas) que ele, diferentemente de Churchill, jamais escreveu. E ambos, assim, fizeram política em literatura.

Jornal Tribuna do Norte.

02 maio 2011

O longo e decisivo caminho - da militância política à literatura

Por JAMES CAMPBELL - O Estado de S.Paulo

Em fotos de manifestações políticas dos anos 1960, Tariq Ali é inconfundível: o espesso cabelo preto e o bigode hirsuto; o punho cerrado e o característico avanço para o primeiro plano. Após sair de Oxford, em 1966, ele começou a agitar por um levante de trabalhadores - não só na Grã-Bretanha, mas em todo o mundo. Seu livro 1968 and After: Inside the Revolution (1978) ressalta "a importância-chave da classe trabalhadora como o único agente de mudança social". Seu herói: Che Guevara.
Encontrando-se com Malcolm X num debate da Oxford Union em 1964, ele ficou feliz de saber que Malcolm era "um grande admirador de Cuba e do Vietnã". Ali era o "outro" na Grã-Bretanha, um papel que assumiu com zelo e desempenhou com arrojo e estilo. Ele não conseguiu a sua revolução, mas ganhou um hino dos Rolling Stones em sua homenagem - Mick Jagger teria escrito Street Fighting Man para ele.
Ali teve uma forte presença pessoal naquela época, e ainda tem agora. Aos 66 anos, vive numa casa neogótica espaçosa em Highgate, norte de Londres - amigos foram ouvidos chamando-a de "Chateau Tariq" - com sua companheira de 35 anos, Susan Watkins. Ela edita a New Left Review, da qual Ali tem sido um constante colaborador. Eles têm dois filhos. Em 1974, ele concorreu ao Parlamento pela organização trotskista International Marxist Group, mas a persona pública panfletária é temperada por um homem doméstico erudito.
Ele não abandonou sua oposição às "políticas econômicas neoliberais" (capitalismo, em uma palavra), mas se resignou ao fato de que a prevista desintegração do sistema não ocorreu. "Esse é um problema que as pessoas tiveram de aceitar em diferentes momentos da história: o que se faz num período de derrota?" Em seu caso, o realinhamento assumiu uma forma inesperada: ele se dedicou a escrever ficção.
O segundo ato do drama de Tariq Ali começou após o colapso do Muro de Berlim em 1989. "Eu já havia começado a mudar minhas prioridades, que eram totalmente políticas até o início dos anos 1980, criando a Bandung Films. Jeremy Isaacs, que era então o chefe da estação de TV britânica Channel 4, me pediu para fazer alguns programas." Mas escrever ficção, que envolve meses de esforço solitário, foi um novo tipo de compromisso.
O primeiro romance de Ali, Redemption (Redenção), um roman a clef sobre trotskistas sectários em Londres, foi publicado em 1990. No ano seguinte, ele trabalhou num tipo de história completamente diferente, Shadows of the Pomegranate Tree (Sombras da Romanzeira) que entrava num reino imaginativo não menos importante para ele, o mundo histórico do Islã. O livro descreve o conflito entre cristãos e muçulmanos no fim do século 15, durante a Inquisição espanhola, e era para ser o primeiro de uma série de cinco denominada de Islam Quintet (Quinteto do Islã), concluída com a publicação neste mês, na Inglaterra, de Night of the Golden Butterfly (A Noite da Borboleta Dourada).
"Foi uma coisa que nós começamos por acidente" - "nós" sendo a Verso, a editora radical independente da qual Ali é diretor editorial, que tem mantido todos os cinco romances em catálogo. "Escrevi Pomegranate Tree e ele foi muito bem, e aí Edward Said me disse: Você precisa contar a maldita história toda agora. Você simplesmente não pode parar no meio do caminho." Os romances do quinteto não progridem em sequência, nem mesmo cronologicamente. O volume dois, The Book of Saladin (O Livro de Saladino) recua três séculos e ao Oriente Médio. O volume três, The Stone Woman (Mulher de Pedra) visita a Istambul do século 19. Com o quarto, A Sultan in Palermo (Um Sultão em Palermo), estamos na Sicília do século 12. Não há uma fieira de relações percorrendo as eras. A dinâmica comum é a colisão repetida de leste e oeste, e suas consequências assustadoras.
Viagem no tempo. Night of the Golden Butterfly é ambientado nos dias de hoje, com personagens voando de Londres para Paris, da Alemanha para a China. No centro da história está um pintor paquistanês, Plato (ao nomear seu herói por um fundador do pensamento ocidental, Ali afirma sua crença de que os dois mundos devem se encontrar). No fim do livro, as personagens se reúnem em Lahore para uma apreciação do último quadro de Plato. Trata-se de um tríptico, em cujo centro está Barack Obama, o "primeiro líder de pele escura da Grande Sociedade", com as estrelas e listas, "num estado de degradação cancerosa", tatuadas nas costas. "O mais recente líder imperial exibia um button: "Sim nós podemos ... ainda destruir países."" Da pintura brotam tumores e jihadistas barbudos são mostrados "desenvolvendo uma vida sua".
Night of the Golden Buterfly é também a volta ao cenário da infância e juventude de Ali. Lahore, onde ele nasceu em 1943, ainda era parte da Índia britânica. Seus pais eram comunistas, mas ele os descreve como vindos de "uma família profundamente reacionária" - o avô materno de Ali foi primeiro-ministro do Punjab. Até completarem cerca de 7 ou 8 anos, ele e sua irmã falavam punjabi. O idioma da educação e das realizações era o inglês. Ele devorava os clássicos ingleses - "todos eles, provavelmente jovem demais" - depois os russos.
"Havia todos os escritores realistas socialistas da União Soviética em nossa casa. Mas eu odiava tudo aquilo. Meu pai implicava comigo, porque era um comunista ortodoxo. Mas eu o achava previsível demais." Seus heróis literários incluem Hardy, Balzac - ele dá uma gargalhada à sugestão de que acaba de concluir a Comédia Humana islâmica - e, acima de todos, Stendhal, "porque o ritmo de sua prosa é rápido e furioso, como eram seus políticos jacobinos".
Ele se tornou politicamente engajado na adolescência, em oposição à primeira ditadura militar no Paquistão, que se formou em 1958. "Um tio, que era uma figura importante na inteligência militar, disse a meus pais: "Ponham ele pra fora. Ele não pode ser protegido!"" Em seu caso, fora significava o Exeter College, em Oxford, onde ele estudou Direito entre 1963 e 1966. "Eu estava muito feliz. Fiz amigos rapidamente. Estava envolvido no clube Trabalhista, mas os Humanistas pareciam mais ousados. Eles diziam: Deus não existe. E eu pensava, como é animador: isso pode ser dito em público!"
Tributo e crítica. Ele acreditava que o desejo de escrever ficção só se desenvolvera no fim de sua quarta década de vida. "Mas eu estava remexendo nos papéis de minha mãe em Lahore, algum tempo atrás, e encontrei uma carta minha para ela. Estava escrita no caderno de minha faculdade em Oxford, de modo que devia datar de 1966 no mais tardar. E ela dizia: "Vou escrever ficção. Mas não sei quando. Há muito mais coisas a fazer neste momento." Eu não tinha lembrança disso, mas a ideia devia estar em minha cabeça."
Havia de fato muita coisa para fazer. Em janeiro de 1967, como empregado da revista Town, viajou a Praga para reportagem sobre teatro e cinema atrás da Cortina de Ferro. De lá, foi enviado ao Vietnã, onde reuniu um registro fotográfico de baixas civis. Mais tarde, no mesmo ano, foi à Bolívia para assistir ao julgamento do revolucionário francês Régis Debray, que era pressionado a revelar o paradeiro de Che Guevara.
Notavelmente ausente em sua ficção é uma história ambientada na Grã-Bretanha moderna (tirante os socialistas rabugentos de Redemption). "Imagino que acho a ficção inglesa provinciana. Prefiro a americana, sempre preferi." Ele se proclama "feliz" de não ser considerado parte da cena literária inglesa. "É um mundo muito autorreferenciado e incestuoso. E eu não gosto do fato de que muitos deles não gostam de ser criticados." Além de seu novo romance, Ali publicou recentemente uma coletânea de ensaios, Protocols of the Elders of Sodom (Protoclos dos Sábios de Sodoma). Ele contém tributos a Anthony Powell e Proust, e critica velhos camaradas, como Christopher Hitchens e Salman Rushdie.
Ali detecta um "acentuado declínio" na ficção de Rushdie - "é triste escrever isso" -, mas o evento que realmente o irrita foi ele "aceitar um título de nobreza de Blair". Hitchens, que uma vez louvou Ali por ter "passado boa parte de sua vida denunciando a América como o arsenal da contrarrevolução", é agrupado às "figuras ligeiramente frívolas", e agora soaria "mais como um chato e não como a mente crítica que explodiu os halos que rodeavam Kissinger e Clinton".
O tema predominante da ficção de Ali é o exílio. Pessoas são alijadas do que era mais importante para elas - sua fé, seus amantes, seus livros, sua pátria. "Eu sempre senti, desde que cheguei à Grã-Bretanha, que ela era bastante familiar. Nós havíamos sido criados num mundo pós-colonial, mas em muito uma parte do que havia sido antes de se tornar independente." Mas ele reconhece que passou os últimos 20 anos escrevendo sobre rupturas. "É verdade. As pessoas foram separadas em níveis diferentes. No nível das amizades por exemplo, porque todos seus amigos foram deixados para trás. E esse romance fala disso. E uma ruptura de amantes. E política."
Uma das características mais impressionantes do Quinteto do Islã é a atenção aos detalhes: costumes, leis, vestimentas, nomes de lugar arcaicos, tudo isso além de um domínio dos acontecimentos históricos. "No primeiro ano, eu apenas leio tudo que cai em minhas mãos. E depois vou visitar aqueles lugares sobre os quais estou escrevendo - Sicília, Granada e Istambul - só para cheirá-los." Depois de começar, porém, ele avança a passos largos, sem revisão - sem nem sequer reler o que escreveu. "Sou um mau sujeito assim. Eu simplesmente escrevo num grande jorro. E só consigo reler depois de algum tempo. Sou um grande crente nos editores. Eles me devolvem 10 páginas de anotações. Aí eu releio, e faço o que eles pedem." 
TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK 

01 maio 2011

1979: Vaticano pune teólogo Hans Küng

No dia 18 de dezembro de 1979, a Congregação da Fé do Vaticano cassou a licença de lecionar do suíço Hans Küng. O teólogo arrebatou o ódio do Vaticano ao questionar a infalibilidade do Papa.

O então cardeal de Colônia, Joseph Höffner, havia convocado uma entrevista coletiva para a tarde de 18 de dezembro de 1979, sem anunciar o assunto. Pouco antes do encontro com os jornalistas, um emissário da embaixada do Vaticano entregou em Tübingen uma carta da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé (ex-Santo Ofício). "O professor Hans Küng – declarou o cardeal Höffner – diverge da integridade da fé católica em seus escritos. Por isso, ele não pode ser considerado teólogo católico nem continuar lecionando como tal".

Era o desfecho de um conflito de dez anos entre Küng e o Vaticano. O teólogo suíço, radicado na Alemanha, foi proibido de lecionar teologia em nome da Igreja. "Acredito que o importante para um teólogo é expressar as preocupações e esperanças atuais do povo à luz do Evangelho. Assim ele também será levado a sério em Roma", disse Hans Küng, numa entrevista à Deutsche Welle em meados dos anos 1970, quando o conflito parecia ter se acalmado.

Nascido em 1928, em Sursee, no cantão de Lucerna, ele começou a questionar a doutrina da igreja depois de estudar em Roma. Ele duvidava que as antiquadas fórmulas de pregação católica ainda fossem assimiláveis pelo homem moderno.

Küng argumentava que os ensinamentos da Igreja deveriam ser formulados de maneira irrefutável, mas numa linguagem adequada a cada época. Ele criticou o dogma da infalibilidade do Papa, aprovado sob circunstâncias peculiares, no Concílio Vaticano 1º, em 1871.

Leonardo Boff, outra vítima

Já em 1957, a Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, sucessora da Inquisição, havia elaborado um Dossiê Küng, para analisar posições duvidosas de sua teologia. Apesar disso, o Papa João 23 convocou o teólogo (professor da Universidade de Tübingen a partir de 1960) para ser consultor oficial durante o Concílio Vaticano 2º, que pretendia modernizar a igreja. Logo após a conclusão do Concílio pelo Papa Paulo 6º, a Sagrada Congregação retomou o dossiê, abriu secretamente um processo para cassar a cátedra de Küng e tentou impedir a publicação de seus livros.

Küng queria, ao menos, que o processo fosse justo. Reivindicava o direito de ver os documentos e à assistência jurídica. "Um processo que não respeite esses direitos básicos é contra o Evangelho", disse. O teólogo, porém, não teve possibilidade de se defender em Roma e, pouco antes do Natal de 1979, o Vaticano lhe cassou, unilateralmente, a licença de lecionar.

Cinco anos depois, no dia 3 de setembro de 1984, o teólogo brasileiro Leonardo Boff, um dos teóricos da Teologia da Libertação, receberia punição semelhante, por criticar a estrutura da igreja no livro Igreja, Carisma e Poder.

Pela lei alemã, Küng não podia ser demitido como professor e foi transferido para a cadeira de Teologia Ecumênica na Universidade de Tübingen. Longe de ficar reduzido ao silêncio, prosseguiu sua tarefa esclarecedora, empreendendo dois grandes projetos: tratar da situação religiosa e de uma ética global.

Globalização requer ética mundial

Küng realizou estudos sobre as tradições cristã, judaica, islâmica, hinduísta e budista e publicou obras sobre a questão da ética mundial ("Weltethos"). "A globalização requer uma ética mundial que supere as linhas de conflito entre nações, povos e religiões. Se a globalização for apenas um instrumento para a maximização dos lucros, preparem-se para uma séria crise social", advertiu no Fórum Econômico Mundial de 1997, em Davos, na Suíça.

No livro Uma ética global para a política e economia mundiais (Editora Vozes, Petrópolis, 1998), Küng afirma que "uma nova ética mundial passa pela paz religiosa, sem a qual não haverá paz mundial, e esta exigirá interpretações mais humanas de leis sacras ultrapassadas e anti-humanistas, fundadas na intolerância e na mentira".

Outro livro de sua autoria foi Os grandes pensadores do cristianismo – Paulo de Tarso, Orígenes, Agostinho, Tomás de Aquino, Martinho Lutero, Friedrich Schleiermacher, Karl Barth, lançado em português pela Editorial Presença, de Lisboa, em 1999.

Hajo Goertz (gh)

Líbia acusa Otan de violar direito internacional com ataques a Kadafi

Morte de filho e netos do ditador líbio em ataque da aliança militar ocidental é vista por Trípoli como tentativa deliberada de eliminar Kadafi. Otan rechaça acusações. Presidente venezuelano faz cobrança a europeus.

O filho mais jovem de Muammar Kadafi, Saif al Arab, e três netos do ditador líbio foram mortos num bombardeio da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) na capital líbia na noite de sábado.

A notícia foi confirmada pelo porta-voz do governo líbio, Mussa Ibrahim, na televisão estatal na manhã deste domingo (01/05). Também Kadafi e sua esposa se encontrariam na residência do filho de 29 anos durante os ataques, mas nada teriam sofrido.

A televisão mostrou imagens do prédio completamente destruído. As explosões teriam sido ouvidas em toda a cidade. Vários jornalistas foram levados para ver a destruição em um complexo de prédios num bairro residencial em Trípoli. Para Ibrahim, que vê nos bombardeios uma violação do direito internacional, o bombardeio foi um ataque deliberado contra a vida de Kadafi.

Em sua página na internet, a Otan confirmou neste domingo a ocorrência do ataque aéreo contra um prédio na capital líbia. O alvo teria sido um conhecido edifício do comando militar no complexo de Bab al Aziziya, no subúrbio de Trípoli, onde fica a principal base militar e a residência do líder líbio.

Estudo em Munique

Pouco se sabe sobre Saif al Arab Kadafi, que não ocupava uma posição de destaque no regime de seu pai. Segundo Ibrahim, ele estudou em Munique, mas não teria concluído seus estudos.

Reclamações devido a sua Ferrari especialmente barulhenta e pancadarias em boates exclusivas o tornaram conhecido da polícia da capital bávara. Entre novembro de 2006 e julho de 2010, foram registrados na Procuradoria Pública dez processos e uma investigação preliminar contra ele.

O Ministério Público de Munique investigou casos de contrabando de armas e lesões corporais, entre outros, mas nunca houve uma acusação formal contra Saif al Arab.

Segundo a Secretaria do Interior da Baviera, no início de 2011, Saif foi declarado "pessoa indesejada" na Alemanha, não podendo mais entrar no país.

Acredita-se que ele seja o segundo filho de Kadafi morto desde o início da rebelião contra o regime líbio. Segundo os rebeldes, seu irmão Chamies morreu em meados de março após a queda do avião de combate que pilotava. A informação foi negada pelo governo de Trípoli.

Otan: "alvos militares"

Sem confirmar a morte do filho de Kadafi, o comandante da missão da Otan na Líbia, general Charles Bouchard, declarou que "sei de relatos não confirmados que alguns membros da família Kadafi teriam sido mortos". "Todos os alvos da Otan são de natureza militar e estão em estreita relação com os ataques sistemáticos do regime de Kadafi contra a população líbia e regiões habitadas", acresceu.

Segundo Bouchard, a Otan está cumprindo seu mandato, cujo objetivo é, usando de cuidado e precisão, pôr fim aos ataques a civis, "diferentemente das tropas de Kadafi, que causam tanto sofrimento".

Cobrança de Chávez à Europa

O presidente da Venezuela foi citado neste domingo pelo portal da revista Der Spiegel. Em um programa de televisão, Hugo Chávez teria condenado como "loucura" os ataques aéreos contra a residência de Kadafi por parte dos Estados Unidos e Otan.

Chávez disse acreditar que a aliança militar teria dado o comando de "matar Kadafi", o que o levou a fazer uma cobrança aos europeus: "Não sei como a Europa apoia isso", cita a Spiegel em seu site.

A revista lembra que as palavras de Chávez foram direcionadas principalmente aos mandatários na Espanha, Itália e França, para que "reflitam" sobre os bombardeios. "Na verdade, todos os aliados na Otan envolvidos na missão na Líbia talvez estejam diante de um problema. Também os Estados Unidos e os britânicos. Porque segundo o direito internacional, eles não devem matar o ditador", escreveu o semanário.

RW/dapd/dpa
Revisão: Carlos Albuquerque

Cometário:
O que você acha da missão da Otan na Líbia?

Rubem Fonseca fez 85 anos com sucessos na literatura e cinema


11 de maio de 2010  

    Rubem Fonseca completa 85 anos: relembre momentos marcantes de sua carreira

O escritor mineiro Rubem Fonseca completa nesta terça-feira (11/05/10) 85 anos, sendo considerado um dos maiores cronistas da literatura brasileira, muitas vezes comparado a Machado de Assis. Advogado por formação, sua primeira profissão foi como policial, o que o levou a estudar nos Estados Unidos. Ele cursou Administração de Empresas no país entre 1953 e 1954 e começou a trabalhar na Light, companhia de energia elétrica. Só publicou seus primeiros contos em 1963, no livro Os Prisioneiros.

Em 1975, lançou Feliz Ano Novo, um dos clássicos da literatura brasileira contemporânea. O livro, também de contos, foi recolhido em todo o país, por ter "matéria contrária à moral e aos bons costumes". O conto que empresta o nome ao livro fala de um grupo que invade a festa de réveillon de uma casa rica de forma violenta, culminando com o assassinato dos donos da mansão. Mais do que uma história violenta, o conto aborda de forma crua as diferenças sociais entre a classe média burguesa e a periferia. Além da violência urbana, suas obras também tratam frequentemente de luxúria.
Rubem Fonseca não fica restrito à literatura. Outra de suas obras, o livro Agosto, deu origem à minissérie da TV Globo, exibida em 1993. Para o cinema, o escritor já recebeu prêmios pelos roteiros de Relatório de um Homem Casado (1974), dirigido por Flávio Tambellini; Stelinha (1990), de Miguel Faria Jr.; e A Grande Arte, de Walter Salles Jr. O romance policial Bufo & Spallanzani também, foi transposto para tela. Além dos prêmios de cinema, o escritor tem 5 prêmios Jabuti.
Rubem também criou o personagem Mandrake, que foi protagonista de vários de seus contos. Em 2005, Mandrake ganhou uma série no canal HBO, roteirizada e dirigida pelo filho de Rubem Fonseca, José Henrique Fonseca. O escritor sempre foi um homem reservado, conhecido pela aversão a aparições na mídia. Foi casado com Théa Fonseca, de quem é viúvo e com quem teve três filhos.
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