25 julho 2013

Outras Estantes: Questionário queirosiano a Clara Ferreira Alves

"Eça Agora" é uma coleção que além de "Os Maias" inclui a sua continuação e um livro de estudo.

O Expresso distribui esta semana o terceiro livro da coleção "Eça Agora". São sete volumes dedicados a celebrar a obra de Eça de Queirós - "Os Maias" foram publicados há precisamente 125 anos - bem como o 40º aniversário do Expresso.
Clara Ferreira Alves é um(a) dos seis escritores(as) escolhidos para continuar "Os Maias", num exercício literário em que cada um explora determinado período histórico, de forma a transportar a narrativa até aos dias da fundação do Expresso, em 1973. Estes novos capítulos compõem os três volumes de "Os Novos Maias".

Questionário queirosiano a Clara Ferreira Alves


A ideia recorrente de que o Portugal de hoje "é igualzinho" ao Portugal de Eça é justa ou exagerada? 

Portugal não é igualzinho ao do tempo de Eça, porque a desigualdade se atenuou e porque entre as duas classes de que trata Eça, a alta e a baixa, se interpõe hoje uma terceira, a pequena burguesia, nascida e aprimorada pelo salazarismo e confortada pela revolução e a democracia, que criou uma elite de altos assalariados e self-made men. Portugal melhorou muito. Mas um certo tipo de português, e um certo modo de ser português, incivilizado, bruto, oportunista, vaidoso e preguiçoso, ou um certo modo de ser português, velhaco e sarcástico, cheio de pilhéria, continuam por aí. Por nós. Os tipos queirosianos são perenes, fazem parte do nosso genótipo.

A constante ironia de Eça é um dos seus grandes méritos ou uma das suas principais limitações, por comparação com o trágico e o patético de Camilo, por exemplo?

A ironia é o melhor de tudo. "Os Maias" estão cheios de generosidade e têm a personagem mais grandiosa e humana de Eça, Afonso da Maia. Mais do que um mérito, é um estilo e um retrato do país. É um humor finíssimo. Nunca oponho Eça a Camilo, são géneros diferentes. Pessoalmente, prefiro a ironia aos tons carregados de Camilo. O trágico não me interessa tanto como o cómico. Nunca fui nem serei uma camiliana, porque nem cheguei a lê-lo como li Eça. Devotadamente. Passei por Camilo, não fiquei.

Existe um "segredo" em "Os Maias": é um estratagema de época, que envelheceu mal, ou continua um recurso atual? 

Continua atual. É o derradeiro tabu. O último segredo. Para ser atual, tem de ter uma arquitetura a sustentá-lo ou deriva, justamente, para o patético. "Os Maias" é um crescendo, nunca se perde na consumação da tragédia ou nas consequências.

"Ainda o apanhamos", dizem os dois amigos na última página do romance; é essa esperança desesperançada que torna "Os Maias" tão português? 

Eu acho que o que o torna tão português é o retrato de Portugal. E a nossa lassa indiferença à tragédia, como se tudo se passasse com os outros. Os portugueses absorvem o desastre sem paixão nem desespero. São como a Scarlett O'Hara - pensarei nisso amanhã. E nunca chegam a pensar.

Poucos romances portugueses são tão "cinematográficos" e tão dependentes, nomeadamente, do advérbio de modo; a escrita de "Os Maias" é "visual" ou "estilística"?

É as duas coisas. O estilo é o da descrição visual, típico dos romances realistas. Muito reposteiro, muita rosa no jarrão do Japão, muito tom de pele, muita luz de janela, muita matéria. Mais do que cinema, é um quadro, uma tela a óleo ou, por vezes, uma aguarela, caso da Quinta de Santa Olávia. Eça escreve pintando.


Fonte: Jornal Expreso

Editora Moderna relança livros da Coleção Veredas

São Paulo, Thursday, February 14, 2013

Reedições, revistas pelos autores, contam com novos projetos gráficos

A Coleção Veredas, iniciada em 1980, é constituída de uma variedade de gêneros e tipos de texto, como poemas, contos, crônicas, novelas e romances. Nos livros, publicados pela Editora Moderna, há histórias de amor, suspense, mistério, aventura, humor, relações familiares, do mundo do além, de terror e ficção científica. Agora dez livros estão sendo relançados depois de um trabalho de releitura e revisão pelos autores. 

Os títulos que ganharam novos projetos gráficos, novas capas são: Crianças na escuridãoEu, pescador de mimUm Girassol na janelaA guerra do tênis nas ondas do rádioA Ladeira da SaudadeUma luz no fim do túnelPássaro contra a vidraçaQuando meu pai perdeu o empregoSempre haverá um amanhã e Um sinal de esperança

Confira abaixo um resumo das reedições que fazem parte desta bem-sucedida coleção:

ImagensCrianças na escuridão
 (Júlio Emílio Braz): conheça a história de oito meninas - Doca, Batata, Pidona, Santinha, Pereba, Maria Preta, Maria Branca e Rolinha. São crianças que têm uma vida inteira pela frente, se não fosse por um detalhe: elas moram na rua e estão à mercê dos infortúnios e das maldades da vida sem seus pais. Rolinha, a protagonista da história, retrata a infeliz realidade vivida por muitas crianças que sobrevivem invisíveis, dia após dia, nas ruas das grandes cidades. 

ImagensEu, pescador de mim (Wagner Costa): um adolescente da cidade sai à procura de seu horizonte. Imagina-o no mar. E parte em busca de si mesmo. No pequeno barco, quatro homens jogam as redes no mar incerto e profundo. Três são pescadores profissionais. O quarto é Pepê, que joga a rede dos seus sonhos, da poesia do seu coração. E o garoto poeta navega, navega sempre, pescador de si. Mas onde fica o horizonte?

ImagensUm girassol na janela (Ganymédes José): uma menina que transforma em amor tudo o que a cerca. Vivinha é a vida, Vivinha é a força, Vivinha é a alegria, e o seu girassol reflete essa satisfação de viver e sua fé no amor. Você vai vibrar, vai chorar, vai se emocionar quando Vivinha desmontar a sisudez de uma mansão e abrir as janelas para deixar entrar o vento da alegria e do amor!

ImagensA guerra do tênis nas ondas do rádio (Wagner Costa): um estudante é assaltado. Um “comunicador” de rádio aponta suspeitos, logo transformados em autores. Surgem duas correntes de ação: a da que quer o “prende, bate e mata” e a da que busca as causas da violência. Os dois grupos agem. A história passa pelo grêmio, pelos valores, limites e preconceitos, pela sala de aula, lanchonete, família, alienação política, revolta, indignação e generosidade do adolescente. Tudo num saboroso ritmo literário-jornalístico. Um texto com ternura poética, ironia e bom humor.

ImagensA Ladeira da Saudade (Ganymédes José): o livro fala sobre dois jovens que se amam acima de tudo, inclusive do preconceito. O despertar de um amor verdadeiro no coração de uma adolescente que revive, no século 20, em Ouro Preto, um amor atormentado do Brasil do século 18. Um amor puro, de entrega, que vence a barreira do preconceito racial.

ImagensUma luz no fim do túnel (Ganymédes José): Lúcio e Érica são dois adolescentes nascidos no lado pobre da vida, no lado miserável das oportunidades. À volta deles, só há os descaminhos da frustração, do desespero, da negação da vida, da droga... Essas trilhas desembocam numa única saída: a morte. Um livro realista e duro, um protesto tão forte quanto a realidade que vitima grande parte da humanidade. Um texto-verdade que o autor gostaria de não ter sido obrigado a escrever.

ImagensPássaro contra a vidraça (Giselda Laporta Nicolelis): Igor tinha quase tudo. Pais ricos, status, mesada, o melhor colégio. Faltava-lhe, porém, o principal: amor. Ele saiu em busca de algo que preenchesse aquele imenso vazio, mas escolheu um caminho perigoso. No começo, tudo era euforia, paz e leveza. Mas logo Igor percebeu que tinha chegado ao fundo do poço. Depois da fantasia vinha o desespero, e o passo seguinte poderia significar a morte. Como se livrar do pesadelo?

ImagensQuando meu pai perdeu o emprego (Wagner Costa): em primeira pessoa, Pepê conta como sua família, que sempre viveu com muito conforto e mordomias, reagiu quando seu pai perdeu o emprego. A abordagem do rebaixamento social e da superação desta nova realidade está diretamente ligada à questão de lidar com a frustração e amadurecer com as situações que muitas vezes, oportunamente ou não, acontecem em nossas vidas.

ImagensSempre haverá um amanhã (Giselda Laporta Nicolelis): Daniel, um professor universitário, conta o drama que envolve o desenvolvimento de sua filha mais nova, Mahara. Diagnosticada com retardo mental, o pai relata como foi aceitar a condição especial de sua filha caçula e as situações que enfrentou para dar uma vida digna a ela. 

ImagensUm sinal de esperança (Giselda Laporta Nicolelis): na favela, o menino Oldemar tinha pouco a esperar da vida. A miséria, a violência e a falta de perspectivas compunham a única estrada que se estendia à sua frente. Mas a velha avó sabia que o garoto nascera para cumprir um destino melhor. Ele haveria de construir seu próprio futuro, um futuro que iria redimir toda aquela gente tão sofrida.


Sobre a Moderna Literatura
A Moderna na área de Literatura (http://www.modernaliteratura.com.br) desenvolve conteúdos para que o aluno-leitor - desde a Educação Infantil até o Ensino Médio - ative sua capacidade de compreender, analisar e refletir. Com obras de ficção, não ficção e arte, o selo oferece recursos para que o professor tenha a sua disposição diferentes oportunidades de ensino, tais como: um plano leitor, apresentando os níveis de dificuldades de cada livro; um projeto de leitura, sugerindo atividades criadas por especialistas; e uma assessoria pedagógica específica para a necessidade da escola. Sempre em busca de novos caminhos para a excelência de suas publicações, em uma iniciativa inédita no mercado editorial brasileiro, trouxe com exclusividade para seu catálogo todas as obras do renomado autor Pedro Bandeira, criando assim um momento importante para a literatura brasileira infantil e juvenil. O sucesso desta ação foi repetido, com a escritora e ilustradora Eva Furnari, e com o autor Walcyr Carrasco, cronista, dramaturgo, roteirista, tradutor e adaptador de clássicos da literatura.

Fonte: 
http://www.s2publicom.com.br/imprensa/ReleaseTextoS2Publicom.aspx?press_release_id=28453#.UfCGjtJJOAg

Maratona Literária-29/07 a 04/08/13

Maratona3

A maratona acontecerá entre os dias 29/07 04/08
Vocês estão convocados a participar da Maratona Literária entre blogs e leitores do Brasil, que acontecerá das 0h00 do dia 29/07 até às 23h59 do dia 04/08!

Sabe aquela sua pilha enorme de leituras pendentes que está juntando pó na estante? Ou aquele livro que você precisava comprar (há 3 anos) e ainda não leu? Pois então… Agora é a hora de você devorá-lo!
Como? Através de uma semana intensa de leituras, desafios, bate-papo e claro, diversão!
A maratona foi baseada em uma prática bastante comum lá nos States, onde diversos blogueiros se reúnem (virtualmente, claro) a cada intervalo de tempo para dar um “gás” nas suas metas de leituras.
Fique de olho nos blogs hospedeiros: Amount of WordsBookeandoBurn Book, Café com Blá Blá Blá, Por Essas Páginas e Psychobooks para acompanhar as novidades!!
Para se inscrever é bem simples! É só:
- Ler o post de apresentação da maratona, onde explicamos a dinâmica do evento.
- Criar um post no seu blog ou no seu mural do Facebook anunciando a sua participação e a sua meta.
(Pode ser ler 2, 3 ou 10 livros, manter uma média de 10, 200 ou 400 páginas lidas por dia… Só tem que ser algo que você possa alcançar. Por exemplo, se você trabalha o dia todo, acredito que não conseguirá ler 2 livros por dia… Vai saber, né?)
- Publicar o link do seu post  no formulário de inscrição até o dia 27/07, hospedado no blog Café com Blá Blá Blá (AQUI).
Pronto! Você já está inscrito e a partir das 0h00 do dia 29/07 é só se jogar na leitura e participar dos desafios diários!

Meta: Atualizado em 04/08

1-A Zona Azul  (381 páginas)
Até o dia 28/07= Já lidas= 102 páginas 
Dia 29/07= + 42 páginas
Dia 30/07= + 38 páginas
dia 31/07= +199 páginas
2- O Jogo da Amarelinha ( 407 páginas)
Até o dia 28/07= já lidas= 296 páginas
Dia 29/07= +  60 páginas
Dia 30/07= + 51 páginas
3- O Conde de Monte Cristo

4-Melancia ou Férias   (489 páginas)
Dia 31/07=+ 14 páginas
Dia 01/08=+ 65 páginas
Dia 02/08=+ 32 páginas
Dia 03/08=+ 94 páginas
Dia 04/07= +103 páginas

Desafios  Diários:


Desafio Diário 2: Criar uma imagem ou uma foto que ilustre algum elemento/cena/personagem do seu livro favorito= não realizado




Desafio Diário 6: Criar uma playlist do seu livro favorito= não realizado


24 julho 2013

Eu vi o Papa!


 

Logo JMJ


O meu trabalho fica no caminho do Papa. Ou seja,  para ele sair ou voltar para casa, tem que passar por lá.
E hoje quando ele ia para o aeroporto, eu estava aguardando a sua passagem. Ele veio com sua comitiva, mas acenou  a todos e fiquei do ladinho dele.
Infelizmente, não consegui tirar nenhuma foto (sou atrapalhada com o celular) e nem toquei nele. Em vista, do feriado de amanhã e sexta não terei outra oportunidade.
Quando foi o Papa João Paulo II, também tive a oportunidade de vê-lo no papa-móvel e descendo do Sumaré, por entre a mata.e como ele passou em direção contrária da rua, pude apreciar melhor. Dessa vez, foi muito rápido. Onde eu estava era numa curva, aliás um ponto estratégico, perfeito, a rua é estreita e você pode ficar bem localizado.
Agora, aguardo a próxima visita.

23 julho 2013

Outras Estantes: Questionário queirosiano a Gonçalo M. Tavares


"Eça Agora" é uma coleção que além de "Os Maias" inclui a sua continuação e um livro de estudo.


O Expresso distribui no próximo sábado o terceiro livro da coleção "Eça Agora". São sete volumes dedicados a celebrar a obra de Eça de Queirós - "Os Maias" foram publicados há precisamente 125 anos - bem como o 40º aniversário do Expresso.
Gonçalo M. Tavares é um dos seis escritores escolhidos para continuar "Os Maias", num exercício literário em que cada um explora determinado período histórico, de forma a transportar a narrativa até aos dias da fundação do Expresso, em 1973. Estes novos capítulos compõem os três volumes de "Os Novos Maias".

Questionário queirosiano a Gonçalo M. Tavares


O romance "épico", retrato de toda uma época, está tão condenado como a poesia épica?

Não sei bem. Os géneros literários são modos de a linguagem se aproximar de um tema ou, no limite, modos de a linguagem se aproximar do género humano, das suas violências e fraquezas. De um certo ponto de vista, o género humano talvez seja o supergénero literário, aquilo que está acima de todos os modos de escrita. Esse homem que, para tentar perceber o que lhe acontece e o que acontece aos outros, em vez de saltar ou gritar, pensa, fala e escreve. E um género literário, uma forma de literatura, que tente entender aquilo que é humano - humanamente alto e humanamente baixo e humanamente médio - talvez nunca perca a sua força. A questão da forma de escrita talvez não seja, portanto, o relevante. O importante talvez seja a direção. Para onde é que a linguagem vira os pés? Para o que é essencial ou para o acessório? No caso de "Os Maias" parece-me claro que a linguagem se dirige para o que é essencial. E o essencial pode ser a forma como um homem, diante de uma senhora numa mesa de restaurante, hesita antes de beber um copo de água. Nada de especial, mas essencial.

A constante ironia de Eça é um dos seus grandes méritos ou uma das suas principais limitações, por comparação com o trágico e o patético de Camilo, por exemplo?

A ironia mantém uma distância. Certas distâncias permitem-nos ver melhor, ver todo o quadro. Claro que é difícil saber qual a distância certa do observador em relação aos acontecimentos - três metros, trinta ou trezentos? (Muito afastado deixo de ver, próximo demais também.) E a posição? Do alto, de baixo, de lado? A olhar para a nuca do que acontece ou, pelo contrário, para os tiques do rosto daquilo que acontece? (e, nas duas hipóteses, mantendo a mesma distância). Enfim, cada situação como que exige uma distância ou uma proximidade, e Eça é um excelente avaliador da boa e sensata posição do observador em relação ao mundo em geral. Claro que há muitas outras posições e distâncias possíveis - as hipóteses são literariamente infinitas -, mas a opção de Eça é muito boa.

Existe um "segredo" em "Os Maias": é um estratagema de época, que envelheceu mal, ou continua um recurso atual?

É difícil responder. Depende muito do que está à volta. Em "Os Maias" resulta muito bem.

"Ainda o apanhamos", dizem os dois amigos na última página do romance; é essa esperança desesperançada que torna "Os Maias" tão português?

A sensação de se estar sempre quase é, apesar de tudo, uma das mais bonitas e estimulantes. É talvez a posição mais esperançosa em que qualquer ser humano se pode colocar. O "nunca o apanharemos" ou o "já o apanhámos", se fizermos as contas, são expressões bem menos esperançosas. Quem já apanhou perdeu a desesperança, é certo, mas também já nada espera. Assim, como ainda não o apanhámos, mas estamos quase a apanhá-lo, sem desistências, continuamos. Enquanto estamos vivos, não vejo melhor movimento do que este, o de continuar. Em suma, parece-me um bom sítio para estar: exatamente no quase. "Ainda o apanhamos."

Poucos romances portugueses são tão "cinematográficos" e tão dependentes, nomeadamente, do advérbio de modo; a escrita de "Os Maias" é "visual" ou "estilística"?

Gosto muito desse modo de dar a ver cenas, que a escrita de Eça consegue. É uma escrita que mostra. Como se todo o romance fosse introduzido pela expressão: vejam!


Fonte: Jornal Expreso

19 julho 2013

Outras Estantes: Questionário queirosiano a José Rentes de Carvalho

"Eça Agora" é uma coleção que além de "Os Maias" inclui a sua continuação e um livro de estudo.




O Expresso distribui este sábado o segundo livro da coleção "Eça Agora". São sete volumes dedicados a celebrar a obra de Eça de Queirós - "Os Maias" foram publicados há precisamente 125 anos - bem como o 40º aniversário do Expresso. 

José Rentes de Carvalho é um dos seis escritores escolhidos para continuar "Os Maias", num exercício literário em que cada um explora determinado período histórico, de forma a transportar a narrativa até aos dias da fundação do Expresso, em 1973. Estes novos capítulos compõem os três volumes de "Os Novos Maias".

Questionário queirosiano a José Rentes de Carvalho


"Os Maias" é a história de uma família e a história de uma cidade, no caso Lisboa; mas quase toda a grande ficção portuguesa decorre fora de Lisboa. Porque será? 

Talvez porque, malgrado o seu tamanho em relação ao país e a hidrocefalia das instituições que alberga, Lisboa não tem drama. Nunca teve. É faceirinha, bonitinha, mesureira, sorri, pede desculpa, canta o fado, vai à praia... Revolta-se de vez em quando, mas nela as revoluções infalivelmente ganham um lado pícaro, canhestro e, sobretudo, compincha. O mesmo que mostra nas trafulhices da banca e nos corredores do poder. Os seus dramas são de café ou de tasca, apertos do fim do mês, ânsia de parecer, fracos ingredientes para a grande ficção.

A constante ironia de Eça é um dos seus grandes méritos ou uma das suas principais limitações, por comparação com o trágico e o patético de Camilo, por exemplo? 

Fora de dúvida, um dos seus grandes méritos, de par com o uso da linguagem e a qualidade do diálogo. Mas a ironia em Eça é também "maldade" e uma ratoeira: faz rir, logo depois leva-nos a pensar e, por vezes, a concluir que o riso era descabido.

Existe um "segredo" em "Os Maias": é um estratagema de época, que envelheceu mal, ou continua um recurso atual? 

Tecnicamente, o "segredo" continua um bom recurso para prender a atenção do leitor. O problema reside no desenvolvimento do enredo. Há quem estabeleça gráficos, planos, diagramas, e quem acredite na inspiração, mas nada resulta sem tarimba e métier. Eça de Queirós, que tinha ambos, pôde-se permitir o que a raros é dado: desvendar o segredo e manter o suspense no leitor.

"Ainda o apanhamos", dizem os dois amigos na última página do romance; é essa esperança desesperançada que torna "Os Maias" tão português? 

Sempre me confundiu o simbolismo atribuído à frase. Eça tem em mãos dois personagens atrasados para o jantar, e estes, vendo o "americano", simplesmente desatam a correr. Creio que não é questão de uma hipotética esperança, nem que Eça estivesse a pensar num país que era preciso "apanhar". Anotou apenas a pachorra nacional. Carlos da Maia acabara de dizer: "Com efeito, não vale a pena fazer um esforço, correr com ânsia para coisa alguma..." Essa frase parece contradizer a intenção de atribuir à correria um qualquer simbolismo.

Poucos romances portugueses são tão "cinematográficos" e tão dependentes, nomeadamente, do advérbio de modo; a escrita de "Os Maias" é "visual" ou "estilística"? 

Comecei a ler Eça por volta dos 14 anos, e havia uns cinco que todos os fins de semana ia ao cinema. Quatro filmes era a dose. A grande surpresa que me causaram os romances queirosianos foi, precisamente, descobrir o que neles continuo a admirar: a "qualidade cinematográfica", a mestria "visual" da narrativa, a utilização fílmica do diálogo.





Fonte: Jornal Expresso

18 julho 2013

Outras Estantes:Questionário queirosiano a Mário Zambujal

"Eça Agora" é uma coleção que além de "Os Maias" inclui a sua continuação e um livro de estudo.

O Expresso distribui esta semana o segundo livro da coleção "Eça Agora". São sete volumes dedicados a celebrar a obra de Eça de Queirós - "Os Maias" foram publicados há precisamente 125 anos - bem como o 40.º aniversário do Expresso. 

Mário Zambujal é um dos seis escritores escolhidos para continuar "Os Maias", num exercício literário em que cada um explora determinado período histórico, de forma a transportar a narrativa até aos dias da fundação do Expresso, em 1973. Estes novos capítulos compõem os três volumes de "Os Novos Maias".

Questionário queirosiano a Mário Zambujal 




As diversas personagens típicas ou ridículas de "Os Maias" fazem desta tragédia uma tragicomédia?
Em todas as épocas da História de Portugal (e não só de Portugal, convenhamos) existiram personagens e comportamentos açoitáveis pelo humor. O talento do Eça conduziu-o a caricaturar, magistralmente, figuras e figurões da atualidade que lhe coube viver. Os alvos simbolizam o que de mais torpe e balofo marcava uma sociedade - e um modo de "ser português" que não nasceu com "Os Maias" nem consta que tenha falecido. Tragicomédia, parece-me a designação adequada. Continua em cena.

A constante ironia de Eça é um dos seus grandes méritos ou uma das suas principais limitações, por comparação com o trágico e o patético de Camilo, por exemplo?
A pergunta convida a especular acerca do que o Eça escreveu - e do que não escreveu. Nunca ele terá pretendido ser outro Camilo - nem o Camilo ambicionaria pisar os terrenos do Eça. As diferenças no que escreveram não resultam de limitações mas das diferenças de personalidade, de estilo e de vida vivida. Nem será desajustado dizer: ainda bem que se limitaram a ser como foram.

Existe um "segredo" em "Os Maias": é um estratagema de época, que envelheceu mal, ou continua um recurso atual?
Existir um "segredo" aguça a curiosidade, a curiosidade estimula a continuação da leitura - mesmo quando outras e mais fortes razões não colam o leitor ao livro. Em "Os Maias", o "segredo" não é a alma do negócio, mas contribui para o prazer de ler.

"Ainda o apanhamos", dizem os dois amigos na última página do romance; é essa esperança desesperançada que torna "Os Maias" tão português?
Releio esse final em que o Carlos da Maia e o João da Ega perseguem o elétrico, gritando: "Ainda o apanhamos!" - e quem me salta à cabeça é o nosso esfalfado Governo, correndo atrás da meta do défice, aos gritos: "Ainda o apanhamos!" Ficou escrito que não.

Poucos romances portugueses são tão "cinematográficos" e tão dependentes, nomeadamente, do advérbio de modo; a escrita de "Os Maias" é "visual" ou "estilística"?
Acumula. As personagens e peripécias de "Os Maias" saltam aos olhos, a prosa é música para os ouvidos. Bem poderia dizer, o Carlos da Maia: "A minha vida dava um livro." E poderia o Eça acrescentar: "O meu livro dava um filme." Ambos teriam razão, como se comprova.
Fonte: Jornal Expresso
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