14 outubro 2013

Dica Literária da Semana

Se você não tem, compre.
Se você já comprou, leia.
Se você já leu, resenhe.
Se você já resenhou, releia.



Emigrantes
Ferreira de Castro
Cavalo de Ferro
272 pp
Ficção
15 euros

Com Emigrantes, a Cavalo de Ferro inicia a publicação do essencial da obra de Ferreira de Castro, nome forte da literatura portuguesa da primeira metade do século XX. Autor de romances muito célebres no seu tempo, como A Selva, iniciou o seu percurso literário no Brasil, para onde emigrou aos 12 anos. Mais tarde, muito mais tarde, haveria de ser jornalista e percorrer o mundo em consagradas reportagens, mas nesses anos de juventude comeu o pão que o diabo amassou. Teve múltiplos trabalhos e experiências, que de certa forma deram corpo a esta história de homens e mulheres que procuram uma vida melhor do outro lado do Atlântico. "Biógrafos que somos das personagens que não têm lugar no Mundo, imprimimos neste livro despretensiosa história de homens que, sujeitos a todas as vicissitudes provenientes da sua própria condição, transitam de uma banda a outra do oceano, na mira de poderem também, um dia, saborear aqueles frutos de oiro que outros homens, muitas vezes sem esforço, colhem às mãos cheias", escreve Ferreira de Castro no prefácio a este livro. Além do romance, esta edição inclui Pequena História de Emigrantes, texto autobiográfico sobre o regresso do escritor ao Brasil, em 1959.
Fonte: JL

Texto relacionado:

12 outubro 2013

Outras Estantes: Os Maias Revisitados - Parte 10

Se assinalam os 125 anos da sua edição(Os Maias) e uma iniciativa Expresso (Eça Agora) veio chamar a atenção para a obra e a efeméride. De facto, o conhecido semanário oferece o romance, em très edições consecutivas, a que se seguirão, em outras três edições, textos de seis escritores atuais que "trazem" Os Maias até 1973- e um sétimo e último volume sairá um estudo, sobre o romance, do reputado especialista queirosiano Carlos Reis. Maria do Rosário Cunha, falará sobre a futura edição crítica de Os Maias. Kyldes Batista Vicente, sobre a minissérie da TV Globo que os teve por base- enquanto se lembram também suas adaptações ao teatro (bem como a falhada tentativa do próprio Eça), com o testemunho da encenadora Filomena Oliveira.  E ainda o que pretende ser uma sua próxima adaptação ao cinema, em entrevista com o realizador João Botelho.
Os Maias no cinema como "retrato" do país
João Botelho

"Fazer cinema em Portugal é, neste momento, um privilégio. Por isso, só vale a pena fazer filmes importantes". É esta convicção, associada à vontade de explorar uma certa ideia de Portugal, que leva o realizador a adaptar Os Maias, cujas filmagens começam no outono.
" A escolha não teve nada a ver com a efeméride", diz João Botelho, referindo-se ao 125º aniversário da edição do romance, e ao conjunto de iniciativas a ela ligadas, nomeadamente Eça Agora, do semanário Expresso.
"Acho isso de 'de continuar' Os Maias um bocado pretensiosa", comenta. "O Eça inventa um final genial: depois da violência do incesto, o normal era Carlos dar um tiro na cabeça e Maria Eduarda ir para um convento. Ele tem esta ideia maravilhosa: Vamos mas é curtir para a Europa! Como é que se pode continuar isto? Esta abertura é um fecho", argumenta. No entanto, confessa-se curioso: "É esperar para ver o resultado. Vou querer ler, claro".
Os Maias -(Alguns) Episódios da Vida Romântica - o seu projeto de adaptação da obra-prima de Eça ao grande ecrã- remonta ao ano de 2011. Foi então que o apresentou ao concurso de apoio à produção cinematográfica do Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA), mas os resultados só foram homologados no início deste ano. E o filme tem, finalmente, pernas para andar.
O realizador já assinou contrato com o ICA e além desse apoio (de 600 mil euros), o filme conta com outras fontes de financiamento como a Câmara Municipal de Lisboa e a ANCINE - Agência Nacional do Cinema, do Brasil, o que faz com que o orçamento ascenda a mais de um milhão de euros. Além da longa-metragem, que terá cerca de duas horas, haverá uma série televisiva de três episódios, de 50 minutos cada. As filmagens decorrem entre os próximos meses de outubro e dezembro, e a estreia está pensada para o outubro de 2014. 

Uma História de Decacência 
A pouco mais de dois meses do início da rodagem, João Botelho está, agora, na fase de pré-produção e mergulhado no 'caldeirão' de dúvidas e (algumas) certezas que é o processo criativo. "Será um filme abstrato", adianta. E o mesmo é dizer que não haverá qualquer pretensão de verdade. "Não se vai perceber a época - pode ser hoje ou daqui a 100 anos. Quanto muito, nota-se uma ideia da época. Não gosto nada do Naturalismo", diz. E explica: "No cinema é tudo falso. Ninguém morre no cinema: mato uma personagem e, no dia seguinte, ela está aqui connosco. Verdade é o que as pessoas sentem quando veem o filme- o tédio, a alegria, a tristeza, a inquietação".
Foi essa relação "falso/verdadeiro" que sempre lhe interessou. E que estará visível nos seus Maias. Desde logo, nos décors. Todos os exteriores serão filmados em estúdio (num grande hangar em Azeitão), e estão a cargo do artista plástico João Queiroz, que está a pintar Lisboa numa série de telas de grande dimensão. Os interiores, por sua vez, aproximar-se-ão mais dos espaços do livro. Estão já 'encontrados'  alguns deles, como a Casa Veva de Lima (que será o Ramalhete), o Grêmio Literário ou o Palácio de Francelhos, todos em Lisboa. "O mais difícil está a ser achar a Toca", nota, com entusiasmo.
Além dos cenários, também a escolha dos atores foi pensada de acordo com esse 'ideal' de abstração. Pelo menos a dos protagonistas. "Queria pessoas menos conhecidas do grande público. 'Estranhas'. O ideal era fazer o filme com pessoas que nunca ninguém tivesse visto. Quero que vejam o Carlos, a Maria Eduarda, e não este ou aquele ator", explica. "O importante é que o texto literário prevaleça sobre o resto, sobre as pessoas que o interpretam", remata o cineasta, cuja obra é atravessada pela relação entre o cinema e a literatura (em filmes como Conversa Acabada, a partir de Mário Sá Carneiro e Fernando Pessoa; A Corte do Norte, de Agustina Bessa-Luís; Quem és Tu? uma adaptação de Frei Luís de Sousa; ou Filme do Desassossego, a partir do Livro do Desassossego, do semi-heterónimo de Fernando Pessoa, Bernardo Soares).
Entre os 54 atores que compõem o elenco, são já certos os nomes de Graciano Dias (Carlos da Maia); da brasileira Maria Flor (Maria Eduarda); Catarina Wallenstein (Maria Monforte); e Maria João Pinho (condessa de Gouvarinho). João Botelho avança outros, ainda por confirmar: Luís Miguel Cintra, Ana Moreira, Miguel Guilherme e Rita Blanco. "O mais difícil é o Ega! Ainda estou a fazer casting...O Ega é que é o génio. É ele que transporta o romance", observa.
A sua verdadeira inquietação prende-se, no entanto, com o conteúdo. "Os Maias dava um filme de 15 horas e eu vou fazer de duas para o cinema e de três para a televisão. Podia fazer uma longa inteira só a partir da descrição do Ramalhete", afirma. "O mais difícil é cortar sem ofender. Como é que se monta isto? Como é que se mantém uma cena e se tira outra?".
Já bem assente tem a sua leitura do romance e o que quer, a partir dele, explorar. "A história de amor de Carlos e Maria Eduarda é também a história do país. A decadência da família - que vai ao limite, que não deixa descendência- é a história da morte do país. Portugal morre quando Afonso da Maia morre. E o tédio de Carlos é o da aristocracia que acaba", diz. "Não vou separar as coisas".
Não só não as vai separar como quer explorar, sobretudo, essa "ideia de limite". De um país em decadência. O de 1800 e o de agora: "O país retratado n'Os Maias é muito semelhante ao de hoje, na definição dos comportamentos, na indiferença das pessoas que têm mais poder, no desespero dos mais pobres".
Fonte: JL


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Outras Estantes: Os Maias Revisitados - Parte 9 

06 outubro 2013

A Semana em Retalhos: 29/ 09 a 05/10/13


Meme semanal hospedado pelo Lost in Chick Lit, onde compartilhamos pequena informações sobre a nossa semana literária. Tendo como principal objetivo encorajar a interação entre os blogs literários brasileiro, fazer amizades e conhecer um pouquinho mais sobre outras pessoas apaixonada por literatura. Tem interesse em participar? Saiba como aqui 


Leitura(s) do momento:
Estrela Cativa- Nora Roberts


Livros emprestados da biblioteca:

Li essa semana:

Abandonei essa semana:
Nenhum 
Resenhei essa semana: 
Falta publicar
Comprei essa semana
Evento(s) da Semana: 

Sorteios:(Participando)





Desafio de comentários




Blog: Livros e Bolinhos: 1 Desafios de Comentários


Promovendo:



Promoção de 1 ano dos blogs: Superbookaholic e Moda e Eu


Ganhei essa semana:
Nada
Recebi essa semana: (pelo correio)
Nada
Desejo Comprar Urgentemente:
No momento nada 
Im in mood for...(gênero literário do momento)
Romance
Super Quote:
Não selecionei nenhum

Vi e viciei(booktrailers, trailers, videos whatever)

http://petrobr.as/meinspira

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1) Resenhas Lidas


2) Conhecendo novos blogs:

  • Carissa Vieira
  • Entrelinhas Casuais
  • Escrivaninha Literária
  • Páginas na Estante


3) Sinopses Lidas


05 outubro 2013

Outras Estantes: Os Maias Revisitados - Parte 9

Se assinalam os 125 anos da sua edição(Os Maias) e uma iniciativa Expresso (Eça Agora) veio chamar a atenção para a obra e a efeméride. De facto, o conhecido semanário oferece o romance, em très edições consecutivas, a que se seguirão, em outras três edições, textos de seis escritores atuais que "trazem" Os Maias até 1973- e um sétimo e último volume sairá um estudo, sobre o romance, do reputado especialista queirosiano Carlos Reis. Maria do Rosário Cunha, falará sobre a futura edição crítica de Os Maias. Kyldes Batista Vicente, sobre a minissérie da TV Globo que os teve por base- enquanto se lembram também suas adaptações ao teatro (bem como a falhada tentativa do próprio Eça), com o testemunho da encenadora Filomena Oliveira.  E ainda o que pretende ser uma sua próxima adaptação ao cinema, em entrevista com o realizador João Botelho.


Eça dramaturgo falhado
Carlos Reis 

Numa entrevista concedida em 1945, a propósito da adaptação teatral d'Os Maias, José Bruno Carreiro referiu-se às  dificuldades que teve que superar para levar a cabo a dita adaptação (cf. J. Bruno Carreiro, Os Maias. Adaptação teatral do original de Eça de Queirós, edição de 1984 pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda). Por exemplo: a eliminação de "muitas cenas, com grande interesse" e a necessidade de o trabalho dramatúrgico se concentrar no "drama  Carlos-Maria Eduarda" e no "indispensável para criar o ambiente em que se desencadeia esse drama" (pp. 25-27).
Bruno Carreiro certamente ignorava que Eça passara por constrangimentos semelhantes, uma vez que, tendo tentado uma adaptação do seu romance, acabou por desistir da empresa. Sabemo-lo porque no espólio queirosiano que se guarda na Biblioteca Nacional existe um manuscrito (Esp. E1/233) que resultou dessa tentativa abortada. Trata-se da planificação de dois atos, esboçada pelo escritor supostamente antes de avançar para a escrita do texto dramático propriamente dito e não chegando a contemplar eventos e figuras cruciais da ação do romance. Anunciado no elenco de personagens, Afonso da Maia não reaparece no manuscrito; por outro lado, a intriga do incesto encontra-se longe do seu desenlace, quando se atinge o final do segundo dos dois atos planificados.
Parece claro, quando lemos este manuscrito, que Eça se preocupou sobretudo em fixar nele os elementos fundamentais que a escrita dramática deveria trabalhar: o elenco de personagens, a matéria dos atos, os cenários, com pormenores como a iluminação e a música. Tudo isto escrito aparentemente de um jato e já depois de publicados Os Maias: há no manuscrito frequentes remissões para as páginas do romance- sintomaticamente, aquelas em que abunda o diálogo-, o que sugere que a dramatização seguiria de perto o desenvolvimento do relato.
Com exceção de um fragmento de cena já composta e que na arrumação do espólio foi integrada neste manuscrito 233, nada mais se conhece deste impulso queirosiano para a escrita destinada ao teatro, em adaptação do que fora concebido como narrativa. Mas são bem evidentes as potencialidades dramáticas dos relatos queirosianos, com destaque precisamente para Os Maias. Para só dar um exemplo, lembre-se a cena de revelação do incesto, no capítulo XVII, envolvendo Carlos da Maia, João da Ega e Vilaça- que no momento mais tenso do diálogo procura o chapéu que se sumira...
Num outro plano, é conhecida uma carta de Eça a Augusto Fábregas (autor da adaptação teatral d'O Crime do Padre Amaro) em que expressamente é dito: "O único dos meus livros que sempre se me afigurou próprio a dar um drama patético, de fortes caratere, de situações morais altamente comoventes, é o meu romance Os Maias" (carta de 6 de maio de 1890).
Pelo que toca à escrita queirosiana, o romance ficou como era: um grande e admirável romance. Aparentemente, Eça não foi capaz de concentrar, numa ação dramática inevitavelmente redutora, vastíssimos cenários e lapsos temporais alargados, forçando-se a supressões difíceis de aceitar. O nível de exigência artística do grande romancista era, como ele disse em carta de 20 de fevereiro de 1881 a Ramalho Ortigão, o de quem, em modo narrativo e não dramático, originalmente desejara uma obra "em que (...) pusesse tudo o que (tinha ) no saco".

Fonte: JL


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03 outubro 2013

PROMOÇÃO DE 1 ANO DOS BLOGS SUPERBOOKAHOLIC E MODA E EU

Pessoal !!
Trazendo mais uma promoção para vocês, espero que curtam bastante!!
Prêmios: 

*1 Exemplar Autografado de Cores de Outono – Keila Gon (Blog Reflexão Literária)
*1 Exemplar de Métrica – Coleen Hoover (Blog SuperBookaholic)

*1 Exemplar de Querido John – Nicholas Sparks (Retalhos no Mundo)
*1 Exemplar de AXOLOTLE Atropelado – Helene Hegemann (Blog Detalhe Feminino)
*1 Exemplar de As Aventuras de Pi – Yann Martel (Blog Chá com Bolacha)
*1 Exemplar de A Breve Segunda Vida de Bree Tanner – Stephenie Meyer (Blog Borboletas do Saber)
*1 Exemplar de Domitila - Rezzutti, Paulo; Rezzutti, Paulo (Blog Entre Páginas e Sonhos)
*15 marcadores diversos (Blog Por Uma Boa Leitura)


*Surpresa! (Blog Moda e Eu)


Regras:

- É obrigatório seguir os blogs;
- Todas as outras opções são opcionais, mas elas lhe dão muito mais chances de ganhar :)

- Após seguir os blogs, as outras opções serão desbloqueadas;
- Residir ou ter endereço de entrega no Brasil;
- O resultado será liberado em até 03 dias após o término da promoção;
- O Ganhador terá 48 horas após ser comunicado para enviar seus dados, caso não aconteça, um novo sorteio será realizado.

a Rafflecopter giveaway

-Perfis no Facebook e/ou Twitter usados exclusivamente para participar em promoções serão desclassificados; 

-A participação nesta promoção implica na aceitação total e irrestrita de todos os itens do regulamento (que pode ser lido na integra no final do rafflecopter); 

-Antes do vencedor ser anunciado TODAS as regras serão conferidas, e caso seja constatado irregularidades, o mesmo será desclassificado sem aviso prévio; 


-LEMBRANDO que todos os prêmios possuem prazo de postagem de 30 dias, contando a partir da data que o vencedor entrar em contato, e como cada blog é responsável pelo envio dos prêmios disponibilizados, os mesmos poderão chegar separadamente ao vencedor.

CONTO COM PARTICIPAÇÃO DE TODOS!!!

28 setembro 2013

Outras Estantes- Os Maias Revisitados - Parte 8

Se assinalam os 125 anos da sua edição(Os Maias) e uma iniciativa Expresso (Eça Agora) veio chamar a atenção para a obra e a efeméride. De facto, o conhecido semanário oferece o romance, em très edições consecutivas, a que se seguirão, em outras três edições, textos de seis escritores atuais que "trazem" Os Maias até 1973- e um sétimo e último volume sairá um estudo, sobre o romance, do reputado especialista queirosiano Carlos Reis. Maria do Rosário Cunha, falará sobre a futura edição crítica de Os Maias. Kyldes Batista Vicente, sobre a minissérie da TV Globo que os teve por base- enquanto se lembram também suas adaptações ao teatro (bem como a falhada tentativa do próprio Eça), com o testemunho da encenadora Filomena Oliveira.  E ainda o que pretende ser uma sua próxima adaptação ao cinema, em entrevista com o realizador João Botelho.

Uma versão dramatúrgica
  Filomena Oliveira 


Os Maias tem sido diversas vezes adaptado ao teatro, sendo o primeiro registro de 1945, com encenação de Amélia Rey Colaço e interpretação da sua companhia. Sem se ser exaustivo, registe-se, nos anos seguintes, a do Teatro Independente de Oeiras (1995), do Centro Dramático Intermunicipal Almeida Garrett-Teatro da Malaposta (2001), da Companhia de Teatro na Educação do Baixo Alantejo (2002) e do Teatro Experimental do Porto(2004), esta com encenação de Norberto Barroca. Nas ainda mais recentes, destaque-se a do Teatro Noroeste, do Centro Dramático de Viana, em 2007 e 2012, e a que António Torrado fez para o Teatro da Trindade, em 2009. Filomena Oliveira apresenta a encenação que fez (de uma adaptação também sua e de Miguel Real), em 2010, para a ÉTER, e que ainda se mantém em cena, em Sintra.
A presente versão dramatúrgica d'Os Maias, de Eça de Queirós, em cena no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra, há quatro temporadas, um espetáculo da ÉTER-Produção Cultural, consiste na condensação dramática dos principais momentos, dos conflitos mais importantes e das personagens e acontecimentos centrais da obra, captando a sua essência estruturante como obra literária, traduzida para a linguagem dramática e cénica num espetáculo que unifica e harmoniza três dimensões estéticas diferentes: a representação dos atores em palco, a representação dos atores em filme-vídeo e a música, elemento não menos decisivo para a totalidade do espetáculo.
Nesta adaptação dramatúrgica para cinco atores em palco e nove atores em filme, salienta-se uma visão realista da obra, dando continuidade ao estilo do autor e, porque apresentado em Sintra, exploram-se, em representação vídeo, os ambientes românticos da Serra louvados pelo maestro Cruges e o poeta romântico Tomás de Alencar, as estadias de Maria Eduarda no Hotel Lawrence e o encontro de Carlos Eduardo no Hotel Nunes com o raquútico Eusebiozinho e com o devasso jornalista Palma Cavalão e as suas espanholas.
No interior de uma visão realista da obra, destacam-se os figurinos da época, o constante humor que atravessa a representação dos atores, nomeadamente da personagem Dâmaso Salcede ("Chique a valer!) e a ironia presente na representação de João da Ega ("A única ocupação dos ministros é cobrar imposto e fazer empréstimo").
No início da peça, o humor e a ironia são minimizados face ao elemento dramático do suicídio de Pedro da Maia; no final, pelo elemento de Carlos da Maia e Maria Eduarda.
Cético o final da peça, como o final do romance, Ega confessa pertencer a uma geração que falhou a vida, adiantando, budistícamente, que " não vale a pena correr com ânsia para nada, nem para o amor, nem para a glória, nem para o dinheiro, nem para o poder...". Assim termina Os Maias, com Ega e Carlos Eduardo atravessando a plateia do grande auditório a correrem para o jantar no Hotel Bragança: "Lá vem um americano, ainda o apanhamos!". Não correm pela vida, correm por uma refeição. Destino trágico dos portugueses!
A produção dramatúrgica d'Os Maias insere-se na estratégia cultural da ÉTER, companhia especializada na criação artística em monumentos patrimoniais. Assim, apresentará na próxima temporada cinco espetáculos que, de certa forma, iluminam a história e a cultura portuguesaa: Memorial do Convento, de José Saramago, no Palácio Nacional de Mafra e na Fundação José Saramago; Navegar-Camões, Pessoa e o  V Império, no Mosteiro dos Jerônimos; Frei Luís de Sousa, de Almeida Garret, no Panteão Nacional; Os Maias, de Eça de Queirós, no Centro C. Olga Cadaval, e Vieira- O Sonho do Império, no Museu Nacional do Teatro. Acabou de representar Liberdade, Liberdade!, peça sobre os presos políticos durante o regime do Estado Novo, na Guiné-Bissau, depois de ter sido apresentado o mesmo espetáculo, no ano anterior, em Macau.


   
 Palácio Nacional de Mafra
         
 Fundação José Saramago


Panteão Nacional 

               
    Centro C. Olga Cadaval



  Restaurante em Sintra.jpg
Museu Nacional do Teatro             Hotel Lawrence

    
                                                                Hotel Bragança
                                                                           
Fonte: JL


Próximo post: Eça dramaturgo falhado

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23 setembro 2013

Dolo e desejo

No caso do triplo homicídio cometido há cerca de um ano, em Queluz, por um homem que bloqueou o elevador em que seguiam a cunhada, a sobrinha e um trabalhador da segurança privada, regando-os com gasolina e ateando-lhes fogo, a defesa terá alegado que o arguido só quis pregar um susto às vítimas, sem desejar a sua morte. O argumento será procedente?

Por: Fernanda Palma, Professora catedrática de Direito Penal


Apesar de jurídico, o conceito de dolo é cada vez mais utilizado pela comunicação social e até na linguagem comum. No Código Penal, o dolo é definido, em alternativa, como intenção, aceitação da inevitabilidade ou mera conformação com a possibilidade de praticar o crime. Estas modalidades correspondem, respetivamente, ao dolo direto, necessário e eventual.
A doutrina jurídica e os tribunais entendem, desde há muito tempo, que o dolo não se identifica com o "desejo". Quem desfere, por exemplo, um tiro na cabeça de alguém (sabendo que a sua arma está carregada) quer matar essa pessoa, independentemente do desejo. Pelo contrário, quem "deseja" matar outra pessoa através de magia não atua verdadeiramente com dolo.
Uma alegação, ainda que sincera, sobre o que o arguido desejou pode não corresponder à interpretação socialmente aceitável da sua conduta. Há esquemas comportamentais que todas as pessoas (pelo menos, as imputáveis) reconhecem como uma espécie de linguagem da ação. Se, por exemplo, tremermos numa situação de perigo, não será de alegria mas de medo.
Como dizia Wittgenstein, o modo como nós nos interpretamos está dependente de um jogo da linguagem social, no qual participamos obrigatoriamente. Só nesse pressuposto as normas incriminadoras (do homicídio, da violação, do sequestro, do roubo e de outras condutas lesivas de bens fundamentais) podem ter a pretensão de conformar as condutas das pessoas.
No teatro, o pensamento de um ator não modifica a compreensão do público sobre o sentido das ações que se desenrolam no palco. Do mesmo modo, o que sente o autor de um crime não muda o significado do que fez. Ao agir de certa maneira, as pessoas conhecem o seu papel. A impossibilidade de negar esse papel dá o critério da responsabilização por dolo.
Sem discutir o caso concreto, pode concluir-se que quem prende uma pessoa num espaço fechado e ateia um incêndio não pode deixar de querer matar essa pessoa. A única dúvida plausível diz respeito ao tipo de dolo com que o autor do crime terá agido. No mínimo, ele deve ter previsto a possibilidade de a vítima morrer, conformando-se com essa possibilidade.
Fonte: Correio da Manhã
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