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17 fevereiro 2013

Semana do Livro Nacional




Diante da constatação de que poucas editoras – dá para contar em uma mão – investem no lançamento de autores e obras de anônimos, uma ação impactante se faz necessária.
Mas, por que elas não investem? Lançar um novo autor exige um pesado investimento e o risco é muito alto em comparação com os livros de fora que já são um grande sucesso.
Falou-se muito sobre motivos. Que livros nacionais não vendem, que há pouca publicidade, que leitores tem preconceito de nacionais e não compram. Tudo bem. Mas, diante de tudo isso, o que pode ser feito?
Um grupo de autores, juntamente com blogueiros, editoras e livrarias, está organizando uma semana a fim de promover somente obras nacionais. Dessa forma, os leitores terão maior informação, acesso e conhecimento sobre as obras modernas que são lançadas em vários cantos do nosso Brasil.
A primeira edição da Semana do Livro Nacional ocorrerá entre 20 e 28 de julho deste ano e contará com eventos, publicidade, palestras, bate-papo com autor e muito mais. Os idealizadores pretendem realizá-la anualmente, cada vez com mais apoiadores.
Seja um leitor que tem o privilégio de se encontrar pessoalmente com autores e ter um livro autografado. Para tornar-se um apoiador acesse a página do projeto e se inscreva.

Twitter: @SemanaDoLivroBr

Mais um movimento nacional, vamos lá? Já tem o meu apoio.
Alguns blogs que apoiam:

Academia Alquimia | Alegria de Viver e Amar o que é Bom | Apaixonada por Livros | As Palavras Fugiram | Attraverso le Pagine | Clube Jovens Escritores | Doce Encanto | Drafts da Nica | Éden Saga | Fulana Leitora | Hangover at 16 | Irmandade Literária | Leitor Cabuloso | Ler e Pensar | Let It Shine | Livro, Filme e Cia. | Literatura de Cabeça | Literatura Br | Mell Books | Meus Livros, Meu Mundo | Murmúrio Pessoais | Mania de Ler | Nathi e seus Livros | Over Shock | Pausa para um café | Prazer, me Chamo Livro | Quarto de Garota | Sangue com Amor | Sweet Pimenta | Viaje na Leitura | 

20 de Julho
Ribeirão Preto
- Bate-Papo com autores no Clube do Livro da Livraria Paraler

27 de Julho

Rio de Janeiro
- Palestra com Janaina Rico sobre "Eu Leio Brasil" e Bate-Papo com Autores

São Paulo
- Palestra com Selène D'Aquitaine sobre "Literatura Nacional" no auditório da Livraria Martins Fontes da Av. Paulista e Bate-Papo com Autores no auditório da Livraria Martins Fontes da Av. Paulista

Eu leio Brasil. E você?


Eu leio Brasil


A literatura nacional pede socorro.
O que está acontecendo é que as obras brasileiras não estão recebendo o trato que merecem. Basta entrar em qualquer livraria para perceber a diferença de tratamento. Em destaque, apenas as obras que vêm de fora. Nas listas dos mais vendidos, nomes estrangeiros pipocam e somente de vez em quando surge uma Paula ou um Eduardo para diversificar.
Os marketings das grandes editoras apontam todos os seus canhões para 50 tons de estrangeirismo, enquanto o verde e amarelo fica ofuscado sob o cinza.
Ora, não podemos esquecer que para cá já vêm os best-sellers, testados e retestados no exterior, que já passaram por uma pesada campanha de publicidade.
Mas os daqui ficam relegados a segundo plano, sem que os leitores sequer tenham o direito de escolher se vão comprar ou não. A dinâmica é clara: o consumidor comum entra em uma livraria procurando uma capa que lhe chame atenção, ou uma história que se destaque no meio das outras. Impossível que um livro escondido no meio da prateleira ganhe a parada. Isso, quando pelo menos fica em um canto escondido na livraria, pois na maioria das vezes os títulos nacionais nem chegam às estantes das grandes redes.
Por isso, criei este manifesto. Longe de mim pedir para que as pessoas só leiam os nacionais. Adoro Marians, Sophias e Stephanies e quero muito continuar a lê-las. Mas quero chegar no shopping e ter o direito de escolha entre elas e as Vanessas, Lucianes, Leilas e Carinas. Ah, e Janainas também!
*Precisamos reunir 10.000 assinaturas para mandar este manifesto para a mídia. Vamos fazer o nosso barulho!


Vi esta postagem no blog Livros e Marshmallows e aderi correndo. E vocês?

04 fevereiro 2013

Marquês de Sade proibido na Coreia do Sul


19/09/2012 - 15h00

Conheça o livro de marquês de Sade proibido na Coreia do Sul

da Livraria da Folha
Comissão Coreana de Ética Editorial proibiu a venda e ordenou a destruição dos exemplares de "Os 120 Dias de Sodoma", escrito por marques de Sade no século 18 e publicado recentemente na Coreia do Sul.
Divulgação
Romance erótico que inspirou o filme "Salò", de Pier Paolo Pasolini
Romance erótico que inspirou o filme "Salò", de Pier Paolo Pasolini
O clássico apresenta linguagem mais obscena e descrições de atos sexuais mais polêmicos que os presentes na trilogia erótica"Cinquenta Tons de Cinza", atual best-seller do gênero, da britânica E. L. James.
"Os 120 Dias de Sodoma" foi muito estimado pelo marquês. Considerado a sua obra-prima, o texto foi dado como perdido e publicado apenas no início do século 20. O romance inspirou "Salò" (1975), filme de Pier Paolo Pasolini (1922-1975).
Donatien Alphonse-François, o marquês de Sade (1740-1814), filósofo e ateu convicto, passou boa parte da vida aprisionado, foi processado por prostitutas, perseguido por suas ideias libertinas e abominado por monarquistas e republicanos. Morreu no sanatório de Charenton, na França.
Abaixo, leia um trecho do livro escrito pelo poeta Contador Borges.
*
O romance que o leitor tem em mãos foi objeto de especial estima por parte do marquês de Sade. Tendo dado por perdido o rolo em que o escrevera, ao ser retirado às pressas da Bastilha, às vésperas da Revolução, o autor morreu sem saber que o manuscrito seria mais tarde recuperado, e, finalmente, publicado no início do século XX. A trágica circunstância desse desaparecimento o levou a verter "lágrimas de sangue" conforme suas próprias palavras.
Por esse apreço do criador pela criatura, pode-se deduzir o quanto dele está aqui impresso com todas as letras, no limite do fôlego. Maurice Heine, um dos grandes divulgadores da obra sadiana, chegou a afirmar que Sade tentou remediar essa perda em todos os seus escritos posteriores. Ou seja: os despudorados fantasmas de 120 dias de Sodoma rondaram-lhe a mente e a pena até o fim de sua vida.
Mas é com o próprio livro, esse "Decamerão" libertino, que o leitor vai se defrontar plenamente nessa nova versão brasileira, rigorosa e afinada com a escrita vertiginosa de seu autor. Um livro incomum, sem dúvida, de leitura perturbadora para muitos, cuja chave mestra talvez seja o humor. A bem da verdade, um humor negro, algo sombrio, genuinamente perverso, e, no limite, absurdo.
Todavia, quem vencer as primeiras páginas e dobrar o cabo da tormenta ou desesperança de sua literatura, uma das mais radicais jamais escritas, irá por certo concordar com Georges Bataille. Para ele, o ato de ler Sade - ou melhor, o ato de o reler copiosamente, a fundo, sem preconceitos -, não se faz sem adoçar seu pensamento. Isso não quer dizer que o efeito de sua obra se esvazia com a leitura. Muito pelo contrário. É aí que ela pega. Eis como dourar a pílula, por mais grossa (e aqui escatológica) que seja, para colher as pérolas barrocas que ele dispõe ao leitor de olhos livres e razão de longo alcance.
Afinal, é em nome da racionalidade que esse virtuose do pensamento materialista do século XVIII destila à exaustão sua consumada virulência. E o faz em requintado estilo, sempre em nome do ateísmo, em frontal combate a Deus e à religião, mediante o solapamento de todas as instituições humanas, para o bem e para o mal.
Assim sendo, este leitor, não necessariamente sadiano, mas agora um tanto escolado nas idiossincrasias de seus castelos e alcovas, poderá então flagrar o homem. Verá então o humano em potência, para além do horror e do grotesco, para além do apelo inelutavelmente abjeto com que esta obra singular se despe e se reveste. Verá o homem no extremo de si mesmo.
Ora, para que serve a literatura senão para aproximar nossas lentes do impossível, onde possamos vislumbrar e sondar as infinitas potencialidades humanas? Assim poderemos, quem sabe, avaliar melhor o lobo do homem, uma alcateia inteira que seja, este homem por dentro e por fora levado ao paroxismo nas relações com seus pares e ímpares, este outro que lhe serve de ouro e despojo.
Chegaremos possivelmente ao fundo de nós mesmos, vale dizer, já não seremos os mesmos. Talvez assim possamos nos encarar mais de perto, sem terror, nem escândalo, e até sorrir com as extravagâncias, os absurdos e o impossível que chamamos de humano, para não dizer terrível. Ou, em uma aproximação com Nietzsche: o que se desvela nesses 120 dias de Sodoma é o demasiado humano.

03 fevereiro 2013

Títulos considerados indignos de leitura. Será?


21/01/2013 - 20h30

Conheça títulos considerados indignos de leitura por autoridades

da Livraria da Folha
Ditadores e fanáticos religiosos são os inimigos históricos dos livros. Queimar exemplares em praça pública, tentar bani-los ou condenar um autor à morte não é lá grande novidade. Estranho é quando um Estado democrático passa a coibir a sua comercialização. Parece que Luiz Felipe Pondé tem razão: "politicamente correto é censura fascista".
Divulgação
No Brasil, mais de 900 mil livros foram comercializados em 80 dias
Trilogia erótica entra para a lista de "proibidões da literatura"
apreensão de livros eróticos em Macaé (RJ) foi a mais recente de uma série. Lá, a Justiça do Rio de Janeiro do município, com ordem expedida pelo juiz Raphael Baddini de Queiroz Campos, retirou títulos considerados obscenos de duas livrarias.
O episódio, que ocorreu na segunda-feira passada (14), retirou e lacrou 64 exemplares. "Cinquenta Tons de Cinza""Algemas de Seda""50 Versões de Amor e Prazer" e "A Dama da Internet" estão entre os mais recentes "proibidões da literatura".
Em breve, andar pelas ruas com um livro de Dalton Trevisan ou deNelson Rodrigues pode acabar na delegacia.
No final de novembro do ano passado, a deputada distrital Celina Leão (PSD) encaminhou o pedido de suspensão da venda de "O Livro Maldito" à Procuradoria-Geral da República. A edição foi publicada no Brasil em 2011.
Divulgação
Autor promete contar tudo o que você precisa saber se não for uma mané
Autor se fundamenta no nonsense para criar a cartilha do crime
Escrito pelo publicitário norte-americano Christopher Lee Barish, o texto é inspirado em "Grand Theft Auto" (GTA), um game no qual o protagonista se envolve em diversas atividades criminosas. Barish explica como produzir um filme pornô, abrir cofres, fazer ligação direta em carros e assaltar bancos.
Fora do Brasil, a Comissão Coreana de Ética Editorial proibiu a venda e ordenou a destruição dos exemplares de "Os 120 Dias de Sodoma", escrito por marques de Sade no século 18 e publicado recentemente na Coreia do Sul.
O clássico apresenta linguagem mais obscena e descrições de atos sexuais mais polêmicos que os presentes na trilogia erótica"Cinquenta Tons de Cinza". Considerado a obra-prima do marquês, o texto foi dado como perdido e publicado apenas no início do século 20. O romance inspirou "Salò" (1975), filme de Pier Paolo Pasolini (1922-1975).

Fonte: Folha de São Paulo
O Livro Maldito
Em "O Livro Maldito", Christopher Lee Barish ensina o passo a passo da maldade. Em curtos capítulos muitíssimo bem-humorados, o autor dá um passa fora no politicamente correto para instruir com perícia como proceder de maneira a sair ileso das mais variadas falcatruas --desde mentir ao polígrafo a ter a sua própria plantação de maconha.
Inspirado no game de sucesso Grand Theft Auto (GTA), o livro se baseia no nonsense para levar a frente o projeto de uma cartilha de ilicitudes, todas elas ilustradas por Christian Kunze para que ninguém confunda as temidas técnicas de maldade.
Publicado no Brasil pela editora Best Seller em 2011, a venda de "O Livro Maldito" pode ser proibida no Brasil.
Deputados em Brasília querem esse "manual do crime", que ainda é vendido livremente, fora das prateleiras. A deputada distrital Celina Leão (PSD) encaminhou o pedido de suspensão da venda à Procuradoria-Geral da República.


18 maio 2012

Outras Estantes - Uma realidade perturbante



Dois novos livros
Gonçalo M. Tavares: Uma realidade perturbante
Gonçalo M. Tavares faz parte daquele reduzidíssimo grupo de escritores que alia uma magnífica prosa a uma estonteante produção de escrita. A publicação em simultâneo de dois livros do autor não constitui, por isso, novidade. O que surpreende é a sempre renovada capacidade de, através da sua escrita, interpelar os leitores. Short Movies e Canções Mexicanas, os seus dois mais recentes livros, são disso prova.

Agripina Carriço Vieira
14:07 Quinta feira, 12 de Abr de 2012


Gonçalo M. Tavares faz parte daquele reduzidíssimo grupo de escritores que alia uma magnífica prosa a uma estonteante produção de escrita. A publicação em simultâneo de dois livros do autor não constitui, por isso, novidade. O que surpreende é a sempre renovada capacidade de, através da sua escrita, interpelar os leitores. Short Movies e Canções Mexicanas, os seus dois mais recentes livros, são disso prova. Sem designação genérica o primeiro, com o rótulo "Ficção" o segundo, estamos perante textos de difícil ou impossível classificação, porque de género indefinido, que oscilam entre os registos da crónica, do conto, do ensaio ou do guião, sem nunca obedecerem totalmente às convenções dos diferentes géneros.

Short Movies e Canções Mexicanas são antes de mais uma tomada de consciência do prazer do contador de histórias, que em traços sóbrios e contidos (textos há que não ultrapassam a dezena de linhas) nos revelam um mundo marcado pela violência gratuita, por ameaças brutais, por atitudes e acontecimentos absurdos. Cada história capta fragmentos de um quotidiano, suficientemente costumeiro para o reconhecermos como nosso, mas que se distancia quando mediado pela cáustica voz e irónico olhar do contador. O distanciamento assim criado obriga-nos, no final de cada história, a uma paragem, porque não se passa impunemente por um texto de Gonçalo M. Tavares, lê-lo tem consequências. As suas ficções desnudam uma realidade que perturba a nossa visão da existência humana e desafiam a nossa reflexão.A lente da câmara, estratégia retórica escolhida pelo autor que deste modo assinala através de um objeto concreto o distanciamento da observação que os seus textos refletem, capta acontecimentos anódinos, sem qualquer excecionalidade, que subitamente deixam de o ser: o menino que posa para uma fotografia em vez de ajudar a extinguir um incêndio; um homem que não regressa ao carro depois de o ter abastecido de combustível; a presença de mulheres a arranjarem o cabelo num cenário de total destruição. É através desse olhar da câmara de filmar, pretensamente neutro, que nos dá a ver um mundo perturbado e perturbador, que impiedosamente nos questiona. Como ficar indiferente à demonstração que a velhice não faz perder a vontade de matar, ou que qualquer pessoa pode adotar uma atitude e o seu inverso (ser agredido e agressor, vítima e carrasco), ou ainda que o perigo pode advir de sentimentos tão paradoxais quanto a arrogância (que impede a assunção dos nossos medos) ou a amizade (inimiga da vigilância e da cautela).

Mais do que quadros do quotidiano, cada texto surge antes como retratos de parcelas de algo mais vasto e abrangente que raramente nos é desvendado. A incapacidade de apreensão e entendimento dos acontecimentos que daí advém, presente em todos os textos (embora em níveis diferentes) é, não raras vezes, verbalizada pelo narrador, que nos explica: "E porque continuamos apenas a ver o rosto, não sabemos o que aconteceu" ou "Com o tamanho daquele espelho a mulher não consegue ver o seu rosto na totalidade, precisa de ajuda para isso". A ajuda de que a mulher ao espelho precisa é extensiva ao leitor que também ele se vê impossibilitado de perceber o que lhe é apresentado devido à proximidade da observação. Apenas quando "o plano se abre" é que algumas das situações ou atitudes que nos pareciam absurdas ou inexplicáveis ganham sentido. Quando a lenta da objetiva se afasta, percebemos porque é que nenhum taxista responde ao chamamento da elegante mulher, ou os motivos pelos quais um homem com uma máscara de gás gesticula de modo ridículo, ou ainda o porquê da fotografia do rosto de Hitler colada numa parede estar cravada de buracos.

É com uma interpelação ao leitor que se fecha este conjunto de curtas narrativas, convidando-nos o narrador a refletir acerca da atitude de aparente loucura de uma personagem que sem motivo aparente corre sozinho em redor de uma mesa. E pergunta-nos o narrador: "E tu, por exemplo, se estivesses na mesma situação - a correr como um louco em redor de uma mesa - também não estarias assustado?", sugerindo deste modo que o perigo mais temível não é físico mas imaterial.

Ao contrário da sua anterior produção que se caracteriza por uma ostensiva indeterminação espacial e temporal, Canções Mexicanas leva-nos numa alucinante viagem até à cidade do México. Se nesses romances a não identificação se constituía como uma outra forma de expressar o sentimento de estranheza que habita grande parte das suas personagens, verificamos que este não só se mantém como se agudiza em textos ancorados numa realidade nacional concreta e definida. Com efeito, nas canções que Gonçalo M. Tavares nos oferece, circunscrevendo-se à observação e descrição de espaços conhecidos e reconhecíveis, perpassa uma intensa sensação de estranhamento. Todos os textos são percorridos por um acrescentado sentimento de incompreensão, aquele que invade o viajante europeu ao percorrer as ruas e as praças da cidade do México e que é resumido de modo lapidar no comentário daquele pai que educa o filho à estalada: "Tu vieste de fora e não entendes nada". A sensação de estranhamento perante a cultura do outro, de que a efabulação dá conta, estende-se ainda ao discurso que surge pespontado por expressões ou vocábulos que não respeitam as convenções gramaticais (nomes próprios grafados ora com maiúscula ora com minúscula; textos que não se fecham graficamente). O turista imprudente ou inadvertido é levado numa espiral de loucura e delírio: o delírio provocado pelo mezcal, que distorce a realidade e cria "um redemoinho em cima da cabeça", o delírio da tarantela, essa dança frenética que salva o viajante da morte, mas também o delírio da brutalidade e da violência que a todos envolvem.

Gonçalo M. Tavares dá-nos a conhecer um mundo de loucura que está para além do racional, povoado por seres estranhos: uma prostituta que obriga os clientes, antes de qualquer ato, a beijar um crucifixo, uma menina que exige a esmola aos transeuntes, um polícia que em vez de desenhar os contornos de um corpo sem vida cria intermináveis representações figurativas. Short Movies e Canções Mexicanas revelam-nos um mundo fragmentado e às avessas, que inquieta e desafia o leitor, fazendo apelo ao seu imaginário para a perceção de cada personagem, de cada situação, de cada espaço.
Gonçalo M. Tavares
CANÇÕES MEXICANAS
Relógio D'Água, 96 pp, 14 euros
SHORT MOVIES
Caminho, 160 pp, 11,90 euros 


Fonte: JL

19 abril 2012

Ocupe – Desocupe

Livro vendido a preço de custo reúne artigos de pensadores como David Harvey, Mike Davis e Slavoj Zizek sobre o movimento Occupy

A mobilização política que se iniciou na Tunísia e se espalhou como um rastilho pelo mundo em 2011 é tema do livro Occupy – Movimentos de Protesto Que Tomaram as Ruas, que, condizente com a proposta do movimento que dá título ao livro, será vendido a preço de custo.
Para isso, todos os autores cederam os direitos autorais sobre seus textos. Entre eles, estão o filósofo esloveno Slavoj Zizek, o geógrafo britânico David Harvey, o historiador americano Mike Davis e o escritor paquistanês Tariq Ali, além de autores brasileiros como o sociólogo Emir Sader.
A obra analisa a história e os desdobramentos do movimento que, através da força das ruas, derrubou ditaduras no Norte da África e se espalhou pelo Ocidente.
O livro será lançado no Espaço Revista CULT (R. Inácio Pereira da Rocha, 400, SP, tel. 011 3032-2800) 04/04, em debate com o colunista da CULT Vladimir Safatle, o filósofo Edson Teles e o cientista social Giovanni Alves.
Occupy – Movimentos de Protesto Que Tomaram as Ruas
Vários autores 
Boitempo
88 págs.
R$ 10

Fonte: Cult

16 abril 2012

John Lennon, a última entrevista

2 meses antes de ser morto, o cantor concede entrevista, com Yoko Ono, em seu apartamento

DAVID SHEFF
No Dakota, o vigia idoso, que mais parecia um objeto do que um auxiliar, diante do edifício cinza, fantasmagórico, abriu as portas do carro para nós. John saudou o homem pelo nome e, de modo apressado, mas gentil, sorriu para algumas fotos tiradas com um fã que estava esperando desde cedo, apenas para ter a chance de conhecê-lo. Após dois rápidos flashes da câmera, John se encaminhou para a entrada às cegas. Piscando a fim de recuperar a visão, ele parou de repente. “Ops, querida, espero que você esteja com as chaves de casa. Eu me esqueci das minhas”.
Yoko não respondeu, mas usou suas chaves para chamar o elevador. John me olhou encabulado. “Eu nem precisava perguntar”, disse com um riso forçado.
Dentro do apartamento, John me guiou por um corredor coberto por fotografias até a cozinha, onde me disse para esperar enquanto ele se arrumava. Yoko tinha se dirigido para outra parte do apartamento. Enquanto eu olhava à volta da imensa cozinha recém-pintada, abastecida com potes de chá e café, especiarias e grãos, ouvi vozes de um quarto distante: uma criança dando risadas e um pai fingindo que lhe dava uma bronca.
“Então, seu malandro, por que ainda não foi dormir? Ah, ha! Muito bem, eu teria lhe dado um beijo de boa noite mesmo que você já estivesse dormindo, seu bobo.”
John voltou para a cozinha completamente revitalizado e, enquanto colocava uma chaleira de água para ferver, explicou que o filho, Sean, não estava acostumado ao novo horário dele e de Yoko, que ficavam até tarde trabalhando no disco. Antes desse projeto, John permanecia em casa praticamente o tempo todo.
Yoko entrou na cozinha vestindo um robe parecido com um quimono, e John preparou três xícaras de chá. “Bem, devemos começar?”, ele perguntou enquanto se sentava.
Olhei para ambos, esperando atentamente, e comecei. “A novidade é esta: John Lennon e Yoko Ono estão de volta”.
De imediato, John interrompeu e, gargalhando, cutucou Yoko. “É mesmo?”, ele brincou. “De onde?”. Sorri e continuei: “Ao estúdio, gravando novamente, pela primeira vez desde 1975, quando sumiram da vista do público. O que vocês fizeram durante todo esse tempo?”.
John virou-se para Yoko, gracejando. “Você quer começar, ou devo eu?”, ele perguntou.
“Você começa”, ela respondeu com firmeza.
“Eu mesmo? De verdade? OK…”. John se reclinou na cadeira, segurando firme a xícara de chá nas mãos, com energia. Enquanto observava o vapor que subia, começou.
Lennon – Eu andei fazendo pão.
Playboy – Pão?
Lennon – E cuidando do bebê.
Playboy – E quais os projetos secretos que guardava no porão?
Lennon – Você está de brincadeira? Não havia nenhum projeto secreto no porão. Pois pão e bebês, como qualquer dona de casa sabe, são um trabalho em tempo integral. Não deixam espaço para outros projetos.
Depois que eu fazia os pães, me sentia como se tivesse conquistado algo. Mas, quando via o pão sendo comido, pensava: Meu Deus! Será que não vou ganhar uma medalha de ouro, ou uma condecoração, ou qualquer outra coisa?
E trata-se de uma tremenda responsabilidade observar se o bebê está recebendo a quantidade adequada de comida e não se empanturra, e se está dormindo o suficiente. Se eu, no papel de mãe, não o colocasse para dormir e garantisse que ele tomasse banho às sete e meia, ninguém mais o faria. É uma tremenda responsabilidade. Hoje, entendo as frustrações daquelas mulheres por causa de todo o trabalho. E, no final do dia, não há um relógio de ouro à espera. [...]
Playboy – Por que você se tornou um dono de casa?
Lennon – Era uma questão de curar a si mesmo.
Ono – Havia uma pergunta: O que há de mais importante em nossa vida?
Lennon – Era mais importante olharmos para nós mesmos e encararmos a realidade do que continuarmos uma vida de rock’n’roll ligada ao show business, subindo e descendo ao sabor dos ventos, tanto do próprio desempenho quanto da opinião do público sobre nós. E havia ainda mais uma coisa.
Vamos usar Picasso como exemplo. Ele apenas se repetiu até a morte. Não é uma questão de negar o imenso talento, mas os últimos 40 anos do pintor foram de repetições. Que não levaram a nada. Que nome se dá a isso? Viver dos próprios louros.
Você entende, em meus trinta e poucos anos, eu me vi numa posição em que, por algum motivo qualquer, sempre me considerei um artista, ou músico, ou poeta, ou o que quer que queiram chamá-lo, e a tal dor do artista sempre foi paga com a liberdade do artista. E a ideia de ser um músico de rock’n’roll de certa forma se adequava a meus talentos e mentalidade, e a liberdade era maravilhosa. Então eu percebi que não era livre. Eu estava encaixotado. Não era somente por conta do meu contrato, embora o contrato fosse uma manifestação física do estado prisional. Considerando isso, eu poderia muito bem ter optado por um emprego de nove às cinco, que estaria seguindo o mesmo caminho. O rock’n’roll tinha perdido a graça. Então, havia as opções padronizadas em meu ramo de atividade: ir para Las Vegas e cantar meus maiores sucessos — caso tenha alguma sorte — ou ir para o inferno, que foi o destino de Elvis.
Ono – Você pode se tornar um estereótipo de si mesmo.
Talvez estivéssemos nesse caminho. Isso era uma coisa que não desejávamos fazer. É o que mais desprezo no mundo artístico. Você pega uma pequena ideia como “tudo bem, sou um artista que desenha círculos”. Então se agarra a ela e a transforma em seu rótulo. Você consegue uma galeria e patrocinadores e tudo o mais. E essa passa a ser a sua vida. No ano seguinte, talvez, você faça triângulos ou qualquer outra coisa.
É uma enorme pobreza de ideias. Assim, se você seguir em frente e fizer isso por cerca de dez anos ou mais, as pessoas se dão conta de que você é alguém que durou dez anos e merece um prêmio [risinhos]. Essa rotina é simplesmente ridícula.
Lennon – Você recebe o grande prêmio quando desenvolve câncer, e passou vinte anos desenhando círculos ou triângulos.
Ono – E, então, você morre.
Lennon – Certo. O maior prêmio de todos é quando você morre – um prêmio realmente grande por morrer em público.
A Última Entrevista de John Lennon
David Sheff
Trad.:Vania Cury
Nova Fronteira
Fonte: Cult

07 abril 2012

O inverno está chegando…

 “The winter is coming…” (O inverno está chegando, em português), a frase proferida por Eddard Stark, Senhor de Winterfell, se tornou famosa entre os espectadores do seriado “Game of Thrones” (em português, Guerra dos tronos), exibido pelo canal fechado HBO, e que começou sua segunda temporada no último domingo (1º de Abril).
Inspirado na série de livros de George R. R. Martin, “As crônicas de gelo e fogo”, a obra de ficção épica, com seu enredo instigante trazendo os clássicos conceitos de fantasia medieval que tiveram sucesso exponencial na obra de J. R. R. Tolkien. A série também apresenta intrigas, conspirações e guerras pela busca do poder, além da ideia do sobrenatural com os chamados outros (white walkers), criaturas envoltas em certo mistério. Partindo de todo esse contexto, poderíamos desenvolver uma discussão acerca da relação entre a obra literária e sua filmagem, ou percebendo como o número de livros vendidos só fez aumentar após a exibição da adaptação para a TV, mas há ainda outro tipo de questão que pode ser enfocada.
Atentando-se mais ao livro, pela abrangência maior que este possui, podemos perceber que, apesar de ser essencialmente uma ficção épica e de fantasia, se diferencia de outras obras desse gênero por suas características pautadas na realidade, mais especificamente na realidade política. Há os estratagemas que garantem a conquista do poder principalmente por meio da desonra, da traição, das alianças por interesses, os “vira-casacas”, entre outros artifícios. A ideia trazida por Hobbes de que “o homem é o lobo do homem” se insere perfeitamente nesse contexto, percebendo-se como o ser humano busca o poder, em função de seus interesses próprios, sempre que lhe é propício.
Observar o grande sucesso de uma obra como essa nos dias de hoje nos leva a pensar sobre como a nossa sociedade atual se encontra, e essa relação entre o fantasioso e a realidade nos faz perceber como, apesar de todas as dificuldades e de todo o desencanto que a realidade dura nos traz, ainda nos apegamos aos sonhos e ao irreal, buscando por um mundo que possa ser diferente e melhor.
Samita Vieira Barbosa Martins
Graduanda em História pela Universidade Federal de Uberlândia. Integrante do Nehac. E-mail: samitablue@hotmail.com

Fonte: Correio de Uberlândia


Retalhos no Mundo
Você já leu alguma obra de George R R Martin ou acompanha a série "Games of Thrones"?

05 novembro 2011

Culo



O lançamento foi feito pela Interscope Geffen A&M e conta com um vídeo especial para sua divulgação, com a música Pass At Me, de Timbaland com PitbullCulo será lançado oficialmente no dia 22 de novembro.

Veja o vídeo de divulgação de Culo: (Fonte:Contigo)

http://www.youtube.com/watch?v=prrVS7IwbbQ&feature=player_embedded


O renomado fotógrafo canadense Raphael Mazzuco vai lançar, uma obra definitiva sobre uma paixão nacional, mas parece ter abrangência planetária: o bumbum.
"Culo", um livraço de 248 páginas, trará fotos emblemáticas de derrières de famosas como Lady Gaga e Fergie, vocalista da banda Black Eyed Peas, mas quem rouba a cena, para variar, são duas brasileira: Gisele Bundechen, cujo bumbum perfeito ilustra a capa, é a modelo e atriz Ana Araújo, namorada do Rolling Stone Ron Wood.(Fonte: O dia)

03 agosto 2011

Lobão lança autobiografia "50 Anos a Mil"

Foi ao lado do jornalista Claudio Tognolli que o músico Lobão decidiu escrever a autobiografia. Motivado pela chegada aos 50 anos(hoje ele já contabiliza + 3), contou a sua trajetória sem recriminação em publicação extensa com 600 páginas. Abrange desde a infância no Rio de Janeiro, o primeiro contato com a música e os sucessos em bandas e carreira solo. Não faltam bastidores, polêmicas e música na vida de Lobão, seus fãs de diversas gerações poderão ter contato com os períodos distintos vividos pelo músico. Além de histórias 50 anos a mil  também traz entrevistas de Elza Soares, Ritchie e da produtora Maria Juça. Duas canções inéditas-"Das tripas, coração" e "Song for Sampa"- e amplo material fotográfico completam o lançamento da Editora Nova Fronteira.
Saraivaconteúdo


http://www.youtube.com/watch?v=hKJHMsd3R0k&feature=player_embedded#at=21


Das Tripas Coração

Lobão

Composição: Júlio Barroso, Cazuza, Ezequiel Neves e Lobão
Quem foi que disse a você, quero saber
Que perder é o mesmo que esperar?
Quero saber quem é que vai ficar tranquilo
perdido na beira do abismo, sangrando?
Se você pudesse ter alguém de joelho aos teus pés
A pedir o teu final
Sussurrando todo seu calor na tua orelha
Procurando uma palavra que não fosse em vão
Que fizesse você compreender...
Que eu abandono meu lugar rasgando as veias
Derramando o meu amor pelas areias
Anuncio um lindo sol radiante
A última alvorada em teu semblante
E na perfeição de um céu sem sombras
A gente vai se encontrar
Quem é que vai zombar desse Deus trapaceiro
Nesse Rio de Janeiro
Quem é que vai anunciar a próxima atração
E uivar pra lua cheia gargalhar dos tormentos do mundo
Quem é que vai ficar sorrindo jogando palavras ao mar
Vendo a terra toda estremecer
Quero saber quem é que vai guardar toda essa dor
De ficar sozinho no convés sem a tripulação
Sou eu...
Que abandono meu lugar rasgando as veias
Derramando o meu amor pelas areias
Anuncio um lindo sol radiante
A última alvorada em teu semblante
E na perfeição de um céu sem sombras
A gente vai se encontrar
E das tripas coração mais uma tarde
Pra levar o meu amor pra eternidade
Meu amigo, por favor, me aguarde
Que a gente vai se encontrar
Que a gente vai se encontrar



Song for Sampa

Lobão

Composição: Lobão
Eu ainda nem senti o que faz você vibrar
e os automóveis passam pelas ruas
caminhando com ninguém
a cidade ao meu redor
Eu quero alento para o recomeço
e vai acontecer, eu vou te libertar
pra gente sair,
sonhar feliz pelas noites sem luar.
E de que vale o céu se as nebulosas de faróis vem me dizer que isso é pra sempre?
Passageiros no metrô ouvem blues e rock'n'roll,
eu penso "essa é a minha cidade",
gosto tanto de você, para sempre vou te amar,
esse é o tempo depois do futuro.
E vai acontecer, eu vou te libertar
pra gente sair, sonhar feliz pelas noites sem luar.
E de que vale o céu se as nebulosas de faróis vem me dizer que isso é pra sempre?


Capa do livro "50 Anos a Mil"
Era um daqueles sábados de azul desconcertante no Rio. A entrevista com Lobão seria numa livraria em Ipanema, bairro pelo qual ele circulou a vida toda. Mas o cantor carioca preferiu transferi-la para um hotel no Flamengo. Queria ficar mais próximo do Aeroporto Santos Dumont, de onde decolaria para a cidade onde decidiu envelhecer: São Paulo. Aos 53 anos, o momento, em que está saindo da MTV e se voltando exclusivamente à música, seu ofício primaz, é considerado pelo próprio "um rito de passagem". O marco é o lançamento da autobiografia "50 Anos a Mil", em que narra não só suas quase quatro décadas de vida profissional, iniciada aos 17 anos ao lado de Lulu Santos e Ritchie, na banda Vímana, mas também os anos que forjaram sua personalidade, quando aprendeu a rir de si mesmo.
O jornalista Claudio Tognolli coassina a capa, estampada por um Lobão mais grisalho e magro do que a imagem fixada no imaginário brasileiro. A primeira pessoa, no entanto, é do roqueiro: "Eu não tava a fim de escrever. Mas quando fiz o prólogo, não parei mais, e escrevi 900 páginas. Logo percebi que se essa história fosse contada por outra pessoa, seria trágica. Chega às raias da inverossimilhança", conta o músico, ou melhor, o multiartista - assim se reconhece -, por vezes tachado de "decadente" e "recalcado".
Compositor de sucessos cantados há quase 30 anos, dos hinos "Me Chama" e "Rádio Blá" às criações mais recentes, baterista desde criança, toca guitarra e violão, e bem. É um sobrevivente, e está (bem) disposto para mais 50 anos.
Artista de apelo jovem, cultuado talvez igualmente pelo talento e pela porra-louquice, viveu os excessos das drogas dos anos 80 (principalmente cocaína, mas também heroína), só que conseguiu colocar a cabeça para fora. Acabou padecendo da dor de se tornar órfão dos grandes amigos, que morreram em plena atividade criativa (Júlio Barroso, Cazuza).
A 'vida louca, bandida' o jogou na prisão e na bancarrota, por conta dos gastos com advogados. A relação visceral com a música, a religiosidade (carola na infância, depois espírita), as brigas pela distribuição independente de seu trabalho, as desavenças no meio artístico, as vaias do Rock in Rio - tudo é contado no livro de forma quase sempre jocosa. Tire as crianças de perto e viaje com esse narrador-personagem, um ícone do rock nacional, que revela dramas, exageros e controvérsias com eloquência e ritmo. E sem arrependimentos.

Agência Estado | 17/12/2010



Entrevista Revista Quem
    Revista QUEM: Como se sente aos 53 anos?
     Lobão: Me sinto muito bem, estou melhorzinho, não sou titio, “yo soy Lobón”. Só meu olho que está mal. Uso óculos para miopia, mas mesmo assim não enxergo bem. Acho que estou com catarata, dizem que a cortisona estraga a vista cedo, sei lá. Mas estou me preparando para envelhecer, ser escritor e continuar fazendo meu som. Eu sou bem-sucedido porque sei o peso do trabalho. Se parar de trabalhar, no mês que vem vou morar embaixo da ponte. São apenas meus primeiros cinqüenta anos, ainda tem muita coisa por vir . Sempre fui cara que quis ser caseiro, ter uma família. Sou casado há 20 anos. Pô, adoro minha mulherzinha (que ele chama de Regininha). Tenho três gatos, o Lampião, a Maria Bonita e a Dalila, e adoro morar em São Paulo. Estou muito mais bonito atualmente porque estou melhorando 
    QUEM: Por que tomava cortisona? 
    Lobão – Eu tinha nefrose, uma doença nos rins. Desde 1 ano eu tomava cortisona pra c…. Os médicos diziam que eu não sobreviveria, então minha mãe não me deixava fazer nada – escrever, calçar os sapatos, sair para brincar… Ela me superprotegia além da conta. Eu tinha tudo para ser um babaca, estava morto desde criança, na minha carreira me enterraram mil vezes, mas o rock’n’roll me salvou. 
    QUEM: Como foi o período que passou na prisão?
     Lobão – Fui pego com um galho de maconha (em 1987). Nem tinha erva, era só um galhinho. Cumpri três meses na cadeia com dois chefes do Comando Vermelho. Fiquei amigo dos caras porque levei caixas de Rivotril (tranquilizante) para a galera. Imagina, eles cheiravam cocaína num calor, dentro daquele cubículo! 
    QUEM: Depois que saiu da cadeia, como foi?
     Lobão – Fui muito bem tratado por eles (do Comando) e me tornei membro, uma espécie de diplomata do Comando Vermelho. Nunca gastei grana com farra: ganhava pó, uísque e até barra de ouro. Passava dias virado, cheirando pó, sob o fogo cruzado. Aí, a tia Bolinha, uma senhora lá do morro (da Mangueira), fazia suco de laranja para mim. Ela falava: “Menino, você está há dias sem comer nada, só cheirando esse troço. Precisa de vitamina”. Eu agachava para não levar nenhum tiro e ia tomar o suco
     QUEM: Até quando você se relacionou com criminosos? 
    Lobão – Ah, meu, acho que até 1992. Sumi de lá quando fui ameaçado. Um cara me mandou cheirar e eu estava de boa, não queria, mas ele insistiu e ameçou matar um amigo se eu não obedecesse. Agora, estou limpo, não uso mais droga, mas acho que devia ser legalizado. O crime tem muita força, meu, eu estava lá dentro, eu vi! Queria escrever só sobre esse tempo que passei no meio do crime. Virei bandido mesmo, fazia assaltos, atirava, pô! Era marginalizado pela sociedade e fui buscar a marginalidade real. Mas minha vida tem outras histórias… minha mãe se suicidou por minha causa. 
    QUEM: Como foi isso? 
    Lobão – Ela era bipolar. Tivemos uma briga porque eu estava cansado das inúmeras tentativas de suicídio dela. Em seguida, ela deixou de tomar o remédio do coração e disse a todo mundo que, se morresse, a culpa era minha. Ela disse: “Meu filho, quando eu morrer, coloca uma bandeira do Botafogo e toca meu samba-enredo preferido”. Coitada, só achei um lápis que tinha a bandeirinha do Botafogo. Mas, no velório dela, eu batuquei no caixão, como ela pediu. O povo me tachou de mau filho, mas eu não estava nem aí com eles. Só fiquei aliviado depois que escrevi esse livro. Minha mãe, Ruth, era professora, tentou dezenas de vezes o suicídio. Mas conto com muita naturalidade, me tratei como personagem, me desprendi e me curei com isso. Penso que se hoje consigo rir disso tudo, é porque estou curado 
    QUEM: Você também tentou se matar, em 1999. Por quê?
     Lobão – Minha tentativa de suicídio não foi depressão química, foi uma reação saudável de querer me salvar, estava sem saída. A indústria fonográfica só me queria se eu gravasse um acústico, porque os artistas da minha geração só gravavam acústicos. Um dia, em que bebi, fiquei deprimido, peguei o canivete suíço, serrei os pulsos, fui para a janela e me seguraram para eu não cair. Me pegaram com camisa de força e, a partir daí, fique três meses sob vigilância integral. Olho para isso e não me arrependo. 
    QUEM: Gastou muito dinheiro com drogas? 
    Lobão – Que nada. Eu parecia um exu : chegava no palco e já ganhava seringa, garrote, heroína, cocaína. Torrei toda minha grana para me livrar da polícia e pagar propina para juiz. No livro, tem documentos que mostram que eu era perseguido, havia uma ordem para qualquer um poder me prender a qualquer momento.O Claudio Tognolli fez a pesquisa da perseguição que eu sofria na ditadura e conversou com as pessoas.
     QUEM: O que você lembra da sua infância?
     Lobão – Levava muita porrada quando era criança, tinha muito apelido porque minha mãe me engomava muito. Eu era completamente anacrônico, parecia um menino da década de 30 . Naquela época, só tinha maluco e meu pai me vestia completamente diferente dos outros meninos, ele colocava roupa da época da guerra em mim. Aí, não tinha jeito, era esculachado por todos. Aos 12 anos, ia a centro de macumba. Tinha tesão em pomba gira. Ela é a imagem da puta, falava de sexo, amava ir pra ficar vendo ela. Uma vez, resolvi fazer uma sessão para o Exu Caveirinha em casa: tive a minha primeira crise epilética naquele dia. Quando acordei, estava tudo quebrado, a gaveta bagunçada, uma destruição completa. Um médico me curou com uma lanterninha. Segundo ele, era um problema no alinhamento da córnea, o nervo ótico está desorientado, sei lá. Desde 1993, estou curado 
    QUEM: Você tem uma filha, como é sua relação com ela? 
    Lobão – A relação é desprezível. Sabe aquele casamento em que a mulher fala mal de você para a filha? Não tenho o menor contato. Não conheço ela basicamente. Não quero falar nem o nome, nem invocar, porque nessa hora vai ter um monte de ratazanas atrás de mim. Só posso dizer que ela é uma carioca típica. Tudo de que eu discordo.
     QUEM: O que pensa sobre a música da geração atual? 
    Lobão – Esse agrobrega novo quer ser rock, mas é muito ruim. O Luan Santana, por exemplo, é uma minhoca, uma degenerescência estética, depõe contra a inteligência. 
    QUEM: Conte sobre sua briga com Herbert Vianna…
     Lobão – Eu fiz “Me Chama”, ele fez “Me Liga”, eu fiz o disco “Cena de Cinema”, ele fez o “Cinema Mudo”, entre outras coisas. Eu dei pito nele, briguei, mas me falaram que no fundo ele é meu fã. Me disseram que, depois do acidente, quando ele estava voltando do coma, ele pediu um violão e começou a cantar “Chove lá fora e aqui…” Quer fixação maior que isso? Eu simplesmente não concordo com a maneira como ele se nutre dessa admiração. Só que agora ele está na cadeira de rodas. Vou dizer o que para ele? 
    QUEM: Quais foram as consequências disso? 
    Lobão – Essa minha briga com o Herbert Viana decretou minha solidão. Era eu e o resto, todos os meus amigos se bandeavam para o lado dele. Virei o doido, o maluco, o vilão. A música do Hebert, além de ser copiada, era ruim. Mas a crítica estava toda comprada. Então, no final de 1989, ninguém mais estava com a bola nenhuma, estava morta a nossa geração de artistas por causa dessa polarização, de muita briga. Acho que a minha cisão com o Herbert implodiu a geração 
    QUEM: Como foi o fim da união com a Blitz ?
    Lobão – Fui baterista da Blitz, mas não ganhei muito dinheiro como eles. Na época do sucesso “Você não soube me amar”, eu comia pão com mortadela, não tinha um puto no bolso, e o pessoal estava comprando sítio, apartamento duplex. Eu não assinei contrato com a gravadora porque eles queriam que eu rasgasse uma fita que eu tinha com composições próprias. A gravadora falou: “Ou você rasga isso aí ou não tem contrato”. Como eu não assinei, me dei mal. A Blitz teve que virar uma banda infanto juvenil pra fazer sucesso, pô! Eu não concordo nisso. Jonas Tucci 
    QUEM: Você se sente esquecido no cenário musical? 
    Lobão – Eu sumi da biografia do Cazuza, sou o melhor amigo dele, a gente era a voz da nossa época . Ele falava: “Lobão, você teve que ser preso e eu tive que pegar uma Aids pra gente aparecer “. Eu faço parte da história do Cazuza, eu ajudei a construir tudo isso, mas me baniram da história, por isso eu resolvi escrever o livro. Ainda tenho que aturar crítico musical dizendo que eu lanço mão da musica do Cazuza . Mas os caras mal sabem que a música “Vida Louca Vida” é minha. Ele também cantou, mas a música fui eu que fiz e cantei primeiro. Tem gente que me assiste na MTV e acha que eu surgi agora, ali. O livro tem um historia muito densa e as pessoas tem que saber a minha historia . Numa m … de país como esse, o povo tinha que me amar porque eu sou um gênio (risos) 
    QUEM: Por que resolveu escrever sua biografia?
     Lobão – Eu era rei das manchetes de jornal, vendo mais revista e jornal que disco. Nada mais justo do que poder vender muito livro. Eu lutei e consegui a numeração dos discos. Antes, os artistas não sabiam quantos discos vendiam e as gravadoras ganhavam em cima do número que queriam. Eu escrevo sobre a minha geração, sou o primeiro dessa época a escrever e contar sobre ela. Acho isso muito importante.
    Retalhos no Mundo:
    Acho que exagerei no post, mas nele dá pra sentir como é o Lobão e uma geração.
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