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04 setembro 2011

Aula de "bruxaria" assusta alunos

Crianças de 11 anos copiam textos sobre poções para atrair um amor e pais questionam escola I Uma aula “sinistra” de português provocou polêmica na Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Maria Pavanatti Fávaro, no Jardim São Cristóvão, em Campinas. Os alunos da quinta série aprenderam na última semana como preparar poções mágicas para atrair um amor e a prosperidade financeira. A justificativa para a aplicação do conteúdo é de que os alunos irão ao cinema para assistir ao filme Harry Potter e as Relíquias da Morte.


De acordo com os pais, na quarta-feira da semana passada, os alunos, que têm idades entre 11 e 12 anos, fizeram cópia de dois textos, um deles intitulado “Transformando Homens em Porcos”. No dia seguinte, eles foram ao laboratório de informática, onde receberam orientação do professor para copiar o significado de algumas palavras encontradas em um dicionário on-line de termos usados em umbanda e candomblé. Além das palavras, os alunos precisaram copiar receitas mágicas de um blog. E foram elas que mais assustaram os pais. Entre as poções, há formulas para um beijo ardente, para atrair um amor, fazer poção afrodisíaca e banho incentivador de prosperidade financeira. Preocupados, alguns pais procuraram a escola para pedir explicações sobre o objetivo da aula e a ligação das receitas com a disciplina de português. Uma das mães, a autônoma K.C.S., decidiu tirar o filho da escola. “O meu filho disse que ficou assustado, assim como os outros coleguinhas. Procurei a equipe pedagógica da escola para tentar saber porque o meu filho estava recebendo aquele conteúdo e se fazia parte do cronograma de aula, porque não consegui fazer nenhuma ligação das receitas de magia com os adjetivos, substantivos ou interpretação de textos”, diz. Segundo K., a resposta que recebeu era de que a atividade foi extracurricular e contava no planejamento anual da escola. “Para mim não fazia sentido o meu filho de 11 anos aprender como se faz para atrair um amor. Para que lado ele está indo? Para o ocultismo? É um ritual que não tem nada a ver com o português. Faltou bom senso do professor”, afirma. O garoto parou de frequentar a escola na segunda feira. “Com tudo isso, se ele continuasse na escola, não sei se o rendimento dele seria o mesmo”, afirma a mãe. Outra mãe, C.M.B., não tirou o filho da escola, mas decidiu que não quer mais que ele participe das aulas de português. “Não estamos de acordo que o nosso filho aprenda esse conteúdo na idade em que está. Entendo que o professor quis informar, mas ele se aprofundou de mais sem levar em conta a idade dos alunos”, diz. A Secretaria de Estado da Educação não informou o nome do professor. Outro lado A escola informou, por meio da assessoria de imprensa, que o projeto pedagógico da escola tem como foco a leitura e a escrita. Por isso, várias atividades desenvolvidas com os alunos visam o desenvolvimento dessas duas questões educacionais, como foi o caso da lição de português questionada pelos pais. Informou ainda que a atividade de pesquisa sobre magia faz parte da atividade extra-classe que será desenvolvida com os alunos da turma. Os estudantes irão até o cinema para assistir Harry Potter e as Relíquias da Morte — o filme foi escolhido pelos próprios alunos. A primeira etapa do trabalho consistiu na leitura de um texto sobre magia, retirado de um livro didático. Posteriormente, os alunos fizeram a pesquisa via internet, no laboratório de informática. Após a visita ao cinema, os alunos irão fazer uma redação sobre o tema em sala de aula. Educadora diz que conteúdos são 'ilimitados' Para a coordenadora do curso de Pedagogia da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Maria Márcia Sigrist Malavasi, não existe um limite para aplicação de conteúdo em sala de aula. “Esse limite é colocado na competência da formação do professor. Se ele é bom, você pode dar o tema mais complexo e mais difícil que ele vai saber dar a melhor abordagem. Daí a importância da boa formação do professor e da atuação competente da equipe gestora”, afirma. Segundo a especialista, o próprio educador poderia esclarecer à família o motivo didático-pedagógico para aplicação do tema. “Quando o professor é bom, ele dá conta de fazer a explicação didático-pedagógica. A família pergunta e se sente absolutamente esclarecida. Agora, se o professor não fez a escolha do conteúdo com clareza, ele não vai conseguir justificar”, diz. A decisão da mãe em tirar o filho da escola pode ter sido precipitada, segundo a educadora. “Quem mais se prejudica com essa situação de retirada da escola é o próprio aluno. É na escola que ela faz amigos, aprende com o convívio. Por isso, é preciso ter um motivo muito forte para desvincular a criança de seus laços afetivos. É uma decisão muito séria”, afirma. (IM/AAN) naê Miranda    De acordo com os pais, na quarta-feira da semana passada, os alunos, que têm idades entre 11 e 12 anos, fizeram cópia de dois textos, um deles intitulado “Transformando Homens em Porcos”. No dia seguinte, eles foram ao laboratório de informática, onde receberam orientação do professor para copiar o significado de algumas palavras encontradas em um dicionário on-line de termos usados em umbanda e candomblé. Além das palavras, os alunos precisaram copiar receitas mágicas de um blog. E foram elas que mais assustaram os pais. Entre as poções, há formulas para um beijo ardente, para atrair um amor, fazer poção afrodisíaca e banho incentivador de prosperidade financeira. Preocupados, alguns pais procuraram a escola para pedir explicações sobre o objetivo da aula e a ligação das receitas com a disciplina de português. Uma das mães, a autônoma K.C.S., decidiu tirar o filho da escola. “O meu filho disse que ficou assustado, assim como os outros coleguinhas. Procurei a equipe pedagógica da escola para tentar saber porque o meu filho estava recebendo aquele conteúdo e se fazia parte do cronograma de aula, porque não consegui fazer nenhuma ligação das receitas de magia com os adjetivos, substantivos ou interpretação de textos”, diz. Segundo K., a resposta que recebeu era de que a atividade foi extracurricular e contava no planejamento anual da escola. “Para mim não fazia sentido o meu filho de 11 anos aprender como se faz para atrair um amor. Para que lado ele está indo? Para o ocultismo? É um ritual que não tem nada a ver com o português. Faltou bom senso do professor”, afirma. O garoto parou de frequentar a escola na segunda feira. “Com tudo isso, se ele continuasse na escola, não sei se o rendimento dele seria o mesmo”, afirma a mãe. Outra mãe, C.M.B., não tirou o filho da escola, mas decidiu que não quer mais que ele participe das aulas de português. “Não estamos de acordo que o nosso filho aprenda esse conteúdo na idade em que está. Entendo que o professor quis informar, mas ele se aprofundou de mais sem levar em conta a idade dos alunos”, diz. A Secretaria de Estado da Educação não informou o nome do professor. Outro lado A escola informou, por meio da assessoria de imprensa, que o projeto pedagógico da escola tem como foco a leitura e a escrita. Por isso, várias atividades desenvolvidas com os alunos visam o desenvolvimento dessas duas questões educacionais, como foi o caso da lição de português questionada pelos pais. Informou ainda que a atividade de pesquisa sobre magia faz parte da atividade extra-classe que será desenvolvida com os alunos da turma. Os estudantes irão até o cinema para assistir Harry Potter e as Relíquias da Morte — o filme foi escolhido pelos próprios alunos. A primeira etapa do trabalho consistiu na leitura de um texto sobre magia, retirado de um livro didático. Posteriormente, os alunos fizeram a pesquisa via internet, no laboratório de informática. Após a visita ao cinema, os alunos irão fazer uma redação sobre o tema em sala de aula. Educadora diz que conteúdos são 'ilimitados' Para a coordenadora do curso de Pedagogia da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Maria Márcia Sigrist Malavasi, não existe um limite para aplicação de conteúdo em sala de aula. “Esse limite é colocado na competência da formação do professor. Se ele é bom, você pode dar o tema mais complexo e mais difícil que ele vai saber dar a melhor abordagem. Daí a importância da boa formação do professor e da atuação competente da equipe gestora”, afirma. Segundo a especialista, o próprio educador poderia esclarecer à família o motivo didático-pedagógico para aplicação do tema. “Quando o professor é bom, ele dá conta de fazer a explicação didático-pedagógica. A família pergunta e se sente absolutamente esclarecida. Agora, se o professor não fez a escolha do conteúdo com clareza, ele não vai conseguir justificar”, diz. A decisão da mãe em tirar o filho da escola pode ter sido precipitada, segundo a educadora. “Quem mais se prejudica com essa situação de retirada da escola é o próprio aluno. É na escola que ela faz amigos, aprende com o convívio. Por isso, é preciso ter um motivo muito forte para desvincular a criança de seus laços afetivos. É uma decisão muito séria”, afirma. (IM/AAN)
04/08/2011 - 08h46 . Atualizada em 04/08/2011 - 08h51
Inaê Miranda  

18 março 2011

A primavera de Elizabeth Bishop

Foi graças a um caju que Elizabeth Bishop não passou pelo Brasil como tantos turistas, que vão embora depois de três dias de praia, caipirinha e feijão. Foi em 1951: aos 40 anos, ela estava no Rio de Janeiro de visita a uma amiga, Lota de Macedo Soares, e não resistiu à consistência suculenta da fruta. O caju lhe causou uma alergia que a impediu de seguir viagem. Mas não foi por causa disso que a poeta acabou ficando 15 anos no Brasil; foi por causa de Lota. A paixão pela brasileira, uma mulher de personalidade, que entre outras iniciativas ajudou a realizar o Aterro do Flamengo, com paisagismo de Burle Marx, foi como uma nova primavera. Na frase de outro escritor norte-americano, John Updike, Lota e a flora brasileira deram a Elizabeth um “desprendimento” há muito ansiado.

É por isso que em seu centenário, comemorado em fevereiro no mundo todo e um ponto de partida para uma série de livros, reedições e filmes, o período brasileiro ganhou destaque em todas as matérias. Bishop nasceu em 8 de fevereiro de 1911 em Worcester, Massachusetts, no coração frio e endinheirado da Nova Inglaterra, nos EUA. Quando tinha oito meses, seu pai morreu. Quando tinha 4 anos, sua mãe foi internada num sanatório. Passou um período com os avós numa ilha canadense, Nova Scotia, antes de regressar a Worcester. Mais tarde, estudou no Vassar College, uma faculdade católica, onde conheceu a crítica e romancista Mary McCarthy e fundou com ela uma revista literária com título em latim, Con Spirito. Mas a essa geografia Bishop jamais se conformaria.

Graduada em 1934, começou a gastar sua gorda herança em uma viagem pela Europa, rica em experiências pessoais e culturais. Morou com uma companheira na França, passou noites bebendo e começou a escrever poesia, inspirada em grande parte na de Marianne Moore, que conhecera em Vassar. O resultado foi seu primeiro livro, North & South, mas este só apareceria nas livrarias em 1947. Além de suas viagens pela Europa, o volume também reflete o período posterior, quando viveu na Flórida, estado que dizia ter o mais belo nome em seu país. Da mesma forma, seu livro seguinte, Cold Spring, embora publicado só em 1955, nasce de sua passagem de dois anos por Washington em 1949-50. Pelos dois volumes, recebeu aplausos de Marianne Moore e de outros poetas e críticos, como Randall Jarrell e Robert Lowell, que se encantaram com sua voz descritiva e tímida, como demonstra em poemas como Shampoo, traduzido por Paulo Henriques Britto.

“No teu cabelo negro brilham estrelas

cadentes, arredias.

Para onde irão elas

tão cedo, resolutas?

– Vem, deixa eu lavá-lo, aqui nesta bacia

amassada e brilhante como a lua.”

Quando decidiu circum-navegar a América do Sul, portanto, já era mulher madura e poeta estabelecida. O navio ancorou em Santos e ela programou uma viagem de duas semanas pelo Brasil. O reencontro com Lota, que conhecera em Nova York, onde a brasileira estudava arte, fez a poeta desistir da viagem. Lota a levou para sua casa em Petrópolis e Bishop caiu de amores também pela Mata Atlântica. Só o nome da propriedade, Samambaia, lhe sugeria doçuras e calores que a levaram a estudar o português, a ponto de poder traduzir poetas como Carlos Drummond de Andrade (seu preferido, que lhe beijou cavalheirescamente a mão quando a conheceu) e João Cabral de Melo Neto, que chegou a fazer um poema em sua homenagem que está no volume Museu de tudo:

“Quem falar como ela falou

Levará a lente especial:

Não agranda e nem diminui,

Essa lente filtra o essencial.”

Bishop se encantou com as cascatas, borboletas, colibris, bromélias e montanhas de pedra, com as casas coloniais e suas cadeiras de balanço na varanda ensolarada. Isso não significa que tenha feito como aqueles românticos ingleses que iam para a Itália e assumiam um tom de exaltação sensual, como se estivessem num paraíso dos sentidos. Mas sua poesia sofreu a influência desse ambiente, sim, e com isso ganhou frescor e musicalidade, como se vê em poemas como Canção do tempo das chuvas, mais uma vez na versão de Paulo Henriques Britto:

“Numa obscura era de água

o riacho canta de dentro da caixa torácica

das samambaias gigantes;

por entre a mata grossa

o vapor sobe, sem esforço,

e vira para trás, e envolve

rocha e casa

numa nuvem só nossa.



À noite, no telhado,

gotas cegas escorrem,

e a coruja canta sua copla

nos prova

que sabe contar:

cinco vezes – sempre cinco –

bate o pé e decola

atrás das rãs gordas, que

coaxam de amor

em plena cópula.”

Com essa capacidade de filtrar o essencial, mesmo que diante de um encantamento visual e sonoro, Bishop não apenas enriqueceu sua poesia, mas também criou uma forma de descrição das belezas naturais brasileiras que destoa dos arroubos tradicionais, pois ainda conserva um tom de solidão e suavidade. A mata, afinal, também tem espinhos e enchentes. Com o passar do tempo, Lota tem depressões e Elizabeth cede ao alcoolismo. Em suas cartas, a poeta fala das belezas da paisagem e do romance, mas vai se queixando cada vez mais dos excessos de simpatia nem sempre confiáveis, da pobreza da Amazônia e dos morros do Rio, do modo como a fantasia alegre teima em esconder realidades dolorosas. Problemas como o que ela via no governo de Carlos Lacerda:

“Você não sabia? Deu no jornal:

pra resolver o problema social,

estão jogando os mendigos num canal.

E não são só pedintes os lançados

no rio da Guarda: idiotas, aleijados,

vagabundos, alcoólatras, drogados.

Se fazem isso com gente, os estúpidos,

com pernetas ou bípedes, sem escrúpulos,

Depois de 15 anos, a relação se deteriora, Elizabeth vive outro caso, Lota se desespera. Quando a americana vai embora, em 1967 a brasileira a segue. Frustrada, comete suicídio em Nova York. Dois anos antes, Bishop publicara seu terceiro livro de poemas, Questions of Travel, com dedicatória para Lota e, embaixo, um verso de Camões: “O dar-vos quanto tenho e quanto posso,/ Que quanto mais vos pago, mais vos devo.” De volta aos EUA, se apaixona de novo, por Alice Methfessel, a quem dedica seu livro Geography III (1976) e com quem vive até morrer, três anos depois, de um aneurisma cerebral. Seu último livro traz seu poema mais famoso, Uma arte:

“A arte de perder não é nenhum mistério

tantas coisas contém em si o acidente

de perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouco a cada dia. Aceite austero,

a chave perdida, a hora gasta bestamente.

A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:

lugares, nomes, a escala subsequente

da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero

lembrar a perda de três casas excelentes.

A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. Um império

que era meu, dois rios, e mais um continente.

Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

Mesmo perder você (a voz, o ar etéreo, que eu amo)

não muda nada. Pois é evidente

que a arte de perder não chega a ser um mistério

por muito que pareça (Escreve!) muito sério.”

No original, Bishop escreveu a perda “não é nenhum desastre”, em vez de “que não é nada sério”, opção que o tradutor adotou para poder rimar; e que dominar essa arte não é tão difícil. De qualquer modo, o mistério continua a ser a arte com que Bishop tantas vezes mapeou a geografia das saudades.


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