Foi graças a um caju que Elizabeth Bishop não passou pelo Brasil como tantos turistas, que vão embora depois de três dias de praia, caipirinha e feijão. Foi em 1951: aos 40 anos, ela estava no Rio de Janeiro de visita a uma amiga, Lota de Macedo Soares, e não resistiu à consistência suculenta da fruta. O caju lhe causou uma alergia que a impediu de seguir viagem. Mas não foi por causa disso que a poeta acabou ficando 15 anos no Brasil; foi por causa de Lota. A paixão pela brasileira, uma mulher de personalidade, que entre outras iniciativas ajudou a realizar o Aterro do Flamengo, com paisagismo de Burle Marx, foi como uma nova primavera. Na frase de outro escritor norte-americano, John Updike, Lota e a flora brasileira deram a Elizabeth um “desprendimento” há muito ansiado.
É por isso que em seu centenário, comemorado em fevereiro no mundo todo e um ponto de partida para uma série de livros, reedições e filmes, o período brasileiro ganhou destaque em todas as matérias. Bishop nasceu em 8 de fevereiro de 1911 em Worcester, Massachusetts, no coração frio e endinheirado da Nova Inglaterra, nos EUA. Quando tinha oito meses, seu pai morreu. Quando tinha 4 anos, sua mãe foi internada num sanatório. Passou um período com os avós numa ilha canadense, Nova Scotia, antes de regressar a Worcester. Mais tarde, estudou no Vassar College, uma faculdade católica, onde conheceu a crítica e romancista Mary McCarthy e fundou com ela uma revista literária com título em latim, Con Spirito. Mas a essa geografia Bishop jamais se conformaria.
Graduada em 1934, começou a gastar sua gorda herança em uma viagem pela Europa, rica em experiências pessoais e culturais. Morou com uma companheira na França, passou noites bebendo e começou a escrever poesia, inspirada em grande parte na de Marianne Moore, que conhecera em Vassar. O resultado foi seu primeiro livro, North & South, mas este só apareceria nas livrarias em 1947. Além de suas viagens pela Europa, o volume também reflete o período posterior, quando viveu na Flórida, estado que dizia ter o mais belo nome em seu país. Da mesma forma, seu livro seguinte, Cold Spring, embora publicado só em 1955, nasce de sua passagem de dois anos por Washington em 1949-50. Pelos dois volumes, recebeu aplausos de Marianne Moore e de outros poetas e críticos, como Randall Jarrell e Robert Lowell, que se encantaram com sua voz descritiva e tímida, como demonstra em poemas como Shampoo, traduzido por Paulo Henriques Britto.
“No teu cabelo negro brilham estrelas
cadentes, arredias.
Para onde irão elas
tão cedo, resolutas?
– Vem, deixa eu lavá-lo, aqui nesta bacia
amassada e brilhante como a lua.”
Quando decidiu circum-navegar a América do Sul, portanto, já era mulher madura e poeta estabelecida. O navio ancorou em Santos e ela programou uma viagem de duas semanas pelo Brasil. O reencontro com Lota, que conhecera em Nova York, onde a brasileira estudava arte, fez a poeta desistir da viagem. Lota a levou para sua casa em Petrópolis e Bishop caiu de amores também pela Mata Atlântica. Só o nome da propriedade, Samambaia, lhe sugeria doçuras e calores que a levaram a estudar o português, a ponto de poder traduzir poetas como Carlos Drummond de Andrade (seu preferido, que lhe beijou cavalheirescamente a mão quando a conheceu) e João Cabral de Melo Neto, que chegou a fazer um poema em sua homenagem que está no volume Museu de tudo:
“Quem falar como ela falou
Levará a lente especial:
Não agranda e nem diminui,
Essa lente filtra o essencial.”
Bishop se encantou com as cascatas, borboletas, colibris, bromélias e montanhas de pedra, com as casas coloniais e suas cadeiras de balanço na varanda ensolarada. Isso não significa que tenha feito como aqueles românticos ingleses que iam para a Itália e assumiam um tom de exaltação sensual, como se estivessem num paraíso dos sentidos. Mas sua poesia sofreu a influência desse ambiente, sim, e com isso ganhou frescor e musicalidade, como se vê em poemas como Canção do tempo das chuvas, mais uma vez na versão de Paulo Henriques Britto:
“Numa obscura era de água
o riacho canta de dentro da caixa torácica
das samambaias gigantes;
por entre a mata grossa
o vapor sobe, sem esforço,
e vira para trás, e envolve
rocha e casa
numa nuvem só nossa.
À noite, no telhado,
gotas cegas escorrem,
e a coruja canta sua copla
nos prova
que sabe contar:
cinco vezes – sempre cinco –
bate o pé e decola
atrás das rãs gordas, que
coaxam de amor
em plena cópula.”
Com essa capacidade de filtrar o essencial, mesmo que diante de um encantamento visual e sonoro, Bishop não apenas enriqueceu sua poesia, mas também criou uma forma de descrição das belezas naturais brasileiras que destoa dos arroubos tradicionais, pois ainda conserva um tom de solidão e suavidade. A mata, afinal, também tem espinhos e enchentes. Com o passar do tempo, Lota tem depressões e Elizabeth cede ao alcoolismo. Em suas cartas, a poeta fala das belezas da paisagem e do romance, mas vai se queixando cada vez mais dos excessos de simpatia nem sempre confiáveis, da pobreza da Amazônia e dos morros do Rio, do modo como a fantasia alegre teima em esconder realidades dolorosas. Problemas como o que ela via no governo de Carlos Lacerda:
“Você não sabia? Deu no jornal:
pra resolver o problema social,
estão jogando os mendigos num canal.
E não são só pedintes os lançados
no rio da Guarda: idiotas, aleijados,
vagabundos, alcoólatras, drogados.
Se fazem isso com gente, os estúpidos,
com pernetas ou bípedes, sem escrúpulos,
Depois de 15 anos, a relação se deteriora, Elizabeth vive outro caso, Lota se desespera. Quando a americana vai embora, em 1967 a brasileira a segue. Frustrada, comete suicídio em Nova York. Dois anos antes, Bishop publicara seu terceiro livro de poemas, Questions of Travel, com dedicatória para Lota e, embaixo, um verso de Camões: “O dar-vos quanto tenho e quanto posso,/ Que quanto mais vos pago, mais vos devo.” De volta aos EUA, se apaixona de novo, por Alice Methfessel, a quem dedica seu livro Geography III (1976) e com quem vive até morrer, três anos depois, de um aneurisma cerebral. Seu último livro traz seu poema mais famoso, Uma arte:
“A arte de perder não é nenhum mistério
tantas coisas contém em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouco a cada dia. Aceite austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subsequente
da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. Um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
Mesmo perder você (a voz, o ar etéreo, que eu amo)
não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser um mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.”
No original, Bishop escreveu a perda “não é nenhum desastre”, em vez de “que não é nada sério”, opção que o tradutor adotou para poder rimar; e que dominar essa arte não é tão difícil. De qualquer modo, o mistério continua a ser a arte com que Bishop tantas vezes mapeou a geografia das saudades.
Revista da Cultura
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