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23 setembro 2013

Dolo e desejo

No caso do triplo homicídio cometido há cerca de um ano, em Queluz, por um homem que bloqueou o elevador em que seguiam a cunhada, a sobrinha e um trabalhador da segurança privada, regando-os com gasolina e ateando-lhes fogo, a defesa terá alegado que o arguido só quis pregar um susto às vítimas, sem desejar a sua morte. O argumento será procedente?

Por: Fernanda Palma, Professora catedrática de Direito Penal


Apesar de jurídico, o conceito de dolo é cada vez mais utilizado pela comunicação social e até na linguagem comum. No Código Penal, o dolo é definido, em alternativa, como intenção, aceitação da inevitabilidade ou mera conformação com a possibilidade de praticar o crime. Estas modalidades correspondem, respetivamente, ao dolo direto, necessário e eventual.
A doutrina jurídica e os tribunais entendem, desde há muito tempo, que o dolo não se identifica com o "desejo". Quem desfere, por exemplo, um tiro na cabeça de alguém (sabendo que a sua arma está carregada) quer matar essa pessoa, independentemente do desejo. Pelo contrário, quem "deseja" matar outra pessoa através de magia não atua verdadeiramente com dolo.
Uma alegação, ainda que sincera, sobre o que o arguido desejou pode não corresponder à interpretação socialmente aceitável da sua conduta. Há esquemas comportamentais que todas as pessoas (pelo menos, as imputáveis) reconhecem como uma espécie de linguagem da ação. Se, por exemplo, tremermos numa situação de perigo, não será de alegria mas de medo.
Como dizia Wittgenstein, o modo como nós nos interpretamos está dependente de um jogo da linguagem social, no qual participamos obrigatoriamente. Só nesse pressuposto as normas incriminadoras (do homicídio, da violação, do sequestro, do roubo e de outras condutas lesivas de bens fundamentais) podem ter a pretensão de conformar as condutas das pessoas.
No teatro, o pensamento de um ator não modifica a compreensão do público sobre o sentido das ações que se desenrolam no palco. Do mesmo modo, o que sente o autor de um crime não muda o significado do que fez. Ao agir de certa maneira, as pessoas conhecem o seu papel. A impossibilidade de negar esse papel dá o critério da responsabilização por dolo.
Sem discutir o caso concreto, pode concluir-se que quem prende uma pessoa num espaço fechado e ateia um incêndio não pode deixar de querer matar essa pessoa. A única dúvida plausível diz respeito ao tipo de dolo com que o autor do crime terá agido. No mínimo, ele deve ter previsto a possibilidade de a vítima morrer, conformando-se com essa possibilidade.
Fonte: Correio da Manhã

23 junho 2013

Brasileiros no exterior apoiam manifestantes do Brasil

Em diversas cidades do mundo aconteceram protestos em solidariedade às manifestações que pedem mudanças no Brasil. Os atos são organizados por brasileiros que vivem no exterior e convocados pelo Facebook.
Em praticamente todos os cantos do mundo aconteceram, nestes últimos dias, manifestações em solidariedade aos protestos que acontecem no Brasil. Assim como no Brasil, os manifestantes no exterior – a maioria, brasileiros – defendem mudanças no país, incluindo um melhor combate à corrupção e mais investimentos em saúde e educação.
Na Alemanha, o maior protesto aconteceu neste sábado (22/06) na cidade de Colônia, a quarta maior do país e onde mora uma das maiores comunidades de brasileiros na Alemanha. A manifestação aconteceu em frente à Catedral da cidade renana e transcorreu sem incidentes.
Gabriela Zopolato, uma das organizadoras do ato, diz que o protesto reuniu brasileiros e estrangeiros interessados em demonstrar solidariedade aos manifestantes no Brasil.
"Queremos incentivar as pessoas a irem às ruas, a se manifestarem. Não nos posicionamos contra nenhum governo, mas entendemos que é o povo quem precisa fazer a política", afirmou a estudante de engenharia mecânica na Universidade de Duisburg-Essen.
Colônia teve a maior manifestação na Alemanha
Hamburgo
Na nesta terça-feira, protesto semelhante havia acontecido em Hamburgo, maior cidade do norte do país. Algumas dezenas de pessoas – aproximadamente 250, pelos cálculos dos organizadores – reuniram-se em frente à estação central de metrô da cidade.
Assim como os demais, o protesto de Hamburgo foi convocado pelo Facebook. A belo-horizontina Liz Cunha, de 22 anos, foi uma das organizadoras da manifestação. Há três anos e meio em Hamburgo, a mineira diz que teve a ideia após ler sobre a repercussão dos protestos em outras cidades da Europa. Ela afirmou estar "muito emocionada e muito orgulhosa" com os protestos em seu país natal.
A paulistana Lúcia Zanforlin Trede, de 30 anos, veio para a manifestação acompanhada dos pais e da filha pequena, de alguns meses. "Eu estou aqui para afirmar, para mostrar que o brasileiro quer mudar o Brasil, independentemente de morarmos lá ou aqui."
"Eu fico feliz por o povo brasileiro ter acordado, por estar se manifestando contra todas essas coisas que têm de mudar para o país ir para a frente", afirmou a engenheira química, que mora há nove anos em Hamburgo.
Primeiro protesto aconteceu em Berlim
Berlim
O primeiro protesto de brasileiros na Alemanha aconteceu em Berlim, no domingo passado. A passeata contou com a participação de mais de 250 pessoas, segundo a polícia, e criticou principalmente a violência policial em São Paulo e os gastos com a realização de grandes eventos esportivos no Brasil.
"Essa marcha é para mostrar para os alemães, para as pessoas que moram aqui e também para a mídia que está acontecendo algo no Brasil e que o país precisa ser olhado com atenção", disse Juliana Doraciotto, organizadora da manifestação em Berlim, à DW Brasil. A profissional de marketing se inspirou nos movimentos de apoio às manifestações turcas que estão sendo realizados na capital alemã.
Também em Bremen, Hannover e Frankfurt aconteceram protestos organizados por brasileiros no exterior.
Cidade da Praia
Cerca de 30 brasileiros saíram neste domingo às ruas na Cidade da Praia, em Cabo Verde, para se manifestarem pacificamente com cartazes e entoando o Hino Nacional, em apoio aos protestos que ocorrem nos diversos Estados brasileiros desde o início deste mês.
A manifestação foi organizada pelo Movimento Acorda Brasil em Cabo Verde, formado por um grupo de brasileiros residentes e que surgiu no Facebook. O objetivo é "dar uma força" aos compatriotas que estão organizando os protestos em várias cidades brasileiras.
Manifestações de solidariedade semelhantes aconteceram em várias cidades do mundo, entre elas Londres, Paris, Cidade do México, São Francisco, Boston, Dublin, Toronto, Buenos Aires, Lisboa, Porto e até na praça Taksim, na Turquia.

Fonte: Deutsche Welle
AS/dw/lusa

17 fevereiro 2013

Semana do Livro Nacional




Diante da constatação de que poucas editoras – dá para contar em uma mão – investem no lançamento de autores e obras de anônimos, uma ação impactante se faz necessária.
Mas, por que elas não investem? Lançar um novo autor exige um pesado investimento e o risco é muito alto em comparação com os livros de fora que já são um grande sucesso.
Falou-se muito sobre motivos. Que livros nacionais não vendem, que há pouca publicidade, que leitores tem preconceito de nacionais e não compram. Tudo bem. Mas, diante de tudo isso, o que pode ser feito?
Um grupo de autores, juntamente com blogueiros, editoras e livrarias, está organizando uma semana a fim de promover somente obras nacionais. Dessa forma, os leitores terão maior informação, acesso e conhecimento sobre as obras modernas que são lançadas em vários cantos do nosso Brasil.
A primeira edição da Semana do Livro Nacional ocorrerá entre 20 e 28 de julho deste ano e contará com eventos, publicidade, palestras, bate-papo com autor e muito mais. Os idealizadores pretendem realizá-la anualmente, cada vez com mais apoiadores.
Seja um leitor que tem o privilégio de se encontrar pessoalmente com autores e ter um livro autografado. Para tornar-se um apoiador acesse a página do projeto e se inscreva.

Twitter: @SemanaDoLivroBr

Mais um movimento nacional, vamos lá? Já tem o meu apoio.
Alguns blogs que apoiam:

Academia Alquimia | Alegria de Viver e Amar o que é Bom | Apaixonada por Livros | As Palavras Fugiram | Attraverso le Pagine | Clube Jovens Escritores | Doce Encanto | Drafts da Nica | Éden Saga | Fulana Leitora | Hangover at 16 | Irmandade Literária | Leitor Cabuloso | Ler e Pensar | Let It Shine | Livro, Filme e Cia. | Literatura de Cabeça | Literatura Br | Mell Books | Meus Livros, Meu Mundo | Murmúrio Pessoais | Mania de Ler | Nathi e seus Livros | Over Shock | Pausa para um café | Prazer, me Chamo Livro | Quarto de Garota | Sangue com Amor | Sweet Pimenta | Viaje na Leitura | 

20 de Julho
Ribeirão Preto
- Bate-Papo com autores no Clube do Livro da Livraria Paraler

27 de Julho

Rio de Janeiro
- Palestra com Janaina Rico sobre "Eu Leio Brasil" e Bate-Papo com Autores

São Paulo
- Palestra com Selène D'Aquitaine sobre "Literatura Nacional" no auditório da Livraria Martins Fontes da Av. Paulista e Bate-Papo com Autores no auditório da Livraria Martins Fontes da Av. Paulista

Eu leio Brasil. E você?


Eu leio Brasil


A literatura nacional pede socorro.
O que está acontecendo é que as obras brasileiras não estão recebendo o trato que merecem. Basta entrar em qualquer livraria para perceber a diferença de tratamento. Em destaque, apenas as obras que vêm de fora. Nas listas dos mais vendidos, nomes estrangeiros pipocam e somente de vez em quando surge uma Paula ou um Eduardo para diversificar.
Os marketings das grandes editoras apontam todos os seus canhões para 50 tons de estrangeirismo, enquanto o verde e amarelo fica ofuscado sob o cinza.
Ora, não podemos esquecer que para cá já vêm os best-sellers, testados e retestados no exterior, que já passaram por uma pesada campanha de publicidade.
Mas os daqui ficam relegados a segundo plano, sem que os leitores sequer tenham o direito de escolher se vão comprar ou não. A dinâmica é clara: o consumidor comum entra em uma livraria procurando uma capa que lhe chame atenção, ou uma história que se destaque no meio das outras. Impossível que um livro escondido no meio da prateleira ganhe a parada. Isso, quando pelo menos fica em um canto escondido na livraria, pois na maioria das vezes os títulos nacionais nem chegam às estantes das grandes redes.
Por isso, criei este manifesto. Longe de mim pedir para que as pessoas só leiam os nacionais. Adoro Marians, Sophias e Stephanies e quero muito continuar a lê-las. Mas quero chegar no shopping e ter o direito de escolha entre elas e as Vanessas, Lucianes, Leilas e Carinas. Ah, e Janainas também!
*Precisamos reunir 10.000 assinaturas para mandar este manifesto para a mídia. Vamos fazer o nosso barulho!


Vi esta postagem no blog Livros e Marshmallows e aderi correndo. E vocês?

04 fevereiro 2013

Marquês de Sade proibido na Coreia do Sul


19/09/2012 - 15h00

Conheça o livro de marquês de Sade proibido na Coreia do Sul

da Livraria da Folha
Comissão Coreana de Ética Editorial proibiu a venda e ordenou a destruição dos exemplares de "Os 120 Dias de Sodoma", escrito por marques de Sade no século 18 e publicado recentemente na Coreia do Sul.
Divulgação
Romance erótico que inspirou o filme "Salò", de Pier Paolo Pasolini
Romance erótico que inspirou o filme "Salò", de Pier Paolo Pasolini
O clássico apresenta linguagem mais obscena e descrições de atos sexuais mais polêmicos que os presentes na trilogia erótica"Cinquenta Tons de Cinza", atual best-seller do gênero, da britânica E. L. James.
"Os 120 Dias de Sodoma" foi muito estimado pelo marquês. Considerado a sua obra-prima, o texto foi dado como perdido e publicado apenas no início do século 20. O romance inspirou "Salò" (1975), filme de Pier Paolo Pasolini (1922-1975).
Donatien Alphonse-François, o marquês de Sade (1740-1814), filósofo e ateu convicto, passou boa parte da vida aprisionado, foi processado por prostitutas, perseguido por suas ideias libertinas e abominado por monarquistas e republicanos. Morreu no sanatório de Charenton, na França.
Abaixo, leia um trecho do livro escrito pelo poeta Contador Borges.
*
O romance que o leitor tem em mãos foi objeto de especial estima por parte do marquês de Sade. Tendo dado por perdido o rolo em que o escrevera, ao ser retirado às pressas da Bastilha, às vésperas da Revolução, o autor morreu sem saber que o manuscrito seria mais tarde recuperado, e, finalmente, publicado no início do século XX. A trágica circunstância desse desaparecimento o levou a verter "lágrimas de sangue" conforme suas próprias palavras.
Por esse apreço do criador pela criatura, pode-se deduzir o quanto dele está aqui impresso com todas as letras, no limite do fôlego. Maurice Heine, um dos grandes divulgadores da obra sadiana, chegou a afirmar que Sade tentou remediar essa perda em todos os seus escritos posteriores. Ou seja: os despudorados fantasmas de 120 dias de Sodoma rondaram-lhe a mente e a pena até o fim de sua vida.
Mas é com o próprio livro, esse "Decamerão" libertino, que o leitor vai se defrontar plenamente nessa nova versão brasileira, rigorosa e afinada com a escrita vertiginosa de seu autor. Um livro incomum, sem dúvida, de leitura perturbadora para muitos, cuja chave mestra talvez seja o humor. A bem da verdade, um humor negro, algo sombrio, genuinamente perverso, e, no limite, absurdo.
Todavia, quem vencer as primeiras páginas e dobrar o cabo da tormenta ou desesperança de sua literatura, uma das mais radicais jamais escritas, irá por certo concordar com Georges Bataille. Para ele, o ato de ler Sade - ou melhor, o ato de o reler copiosamente, a fundo, sem preconceitos -, não se faz sem adoçar seu pensamento. Isso não quer dizer que o efeito de sua obra se esvazia com a leitura. Muito pelo contrário. É aí que ela pega. Eis como dourar a pílula, por mais grossa (e aqui escatológica) que seja, para colher as pérolas barrocas que ele dispõe ao leitor de olhos livres e razão de longo alcance.
Afinal, é em nome da racionalidade que esse virtuose do pensamento materialista do século XVIII destila à exaustão sua consumada virulência. E o faz em requintado estilo, sempre em nome do ateísmo, em frontal combate a Deus e à religião, mediante o solapamento de todas as instituições humanas, para o bem e para o mal.
Assim sendo, este leitor, não necessariamente sadiano, mas agora um tanto escolado nas idiossincrasias de seus castelos e alcovas, poderá então flagrar o homem. Verá então o humano em potência, para além do horror e do grotesco, para além do apelo inelutavelmente abjeto com que esta obra singular se despe e se reveste. Verá o homem no extremo de si mesmo.
Ora, para que serve a literatura senão para aproximar nossas lentes do impossível, onde possamos vislumbrar e sondar as infinitas potencialidades humanas? Assim poderemos, quem sabe, avaliar melhor o lobo do homem, uma alcateia inteira que seja, este homem por dentro e por fora levado ao paroxismo nas relações com seus pares e ímpares, este outro que lhe serve de ouro e despojo.
Chegaremos possivelmente ao fundo de nós mesmos, vale dizer, já não seremos os mesmos. Talvez assim possamos nos encarar mais de perto, sem terror, nem escândalo, e até sorrir com as extravagâncias, os absurdos e o impossível que chamamos de humano, para não dizer terrível. Ou, em uma aproximação com Nietzsche: o que se desvela nesses 120 dias de Sodoma é o demasiado humano.

03 fevereiro 2013

Títulos considerados indignos de leitura. Será?


21/01/2013 - 20h30

Conheça títulos considerados indignos de leitura por autoridades

da Livraria da Folha
Ditadores e fanáticos religiosos são os inimigos históricos dos livros. Queimar exemplares em praça pública, tentar bani-los ou condenar um autor à morte não é lá grande novidade. Estranho é quando um Estado democrático passa a coibir a sua comercialização. Parece que Luiz Felipe Pondé tem razão: "politicamente correto é censura fascista".
Divulgação
No Brasil, mais de 900 mil livros foram comercializados em 80 dias
Trilogia erótica entra para a lista de "proibidões da literatura"
apreensão de livros eróticos em Macaé (RJ) foi a mais recente de uma série. Lá, a Justiça do Rio de Janeiro do município, com ordem expedida pelo juiz Raphael Baddini de Queiroz Campos, retirou títulos considerados obscenos de duas livrarias.
O episódio, que ocorreu na segunda-feira passada (14), retirou e lacrou 64 exemplares. "Cinquenta Tons de Cinza""Algemas de Seda""50 Versões de Amor e Prazer" e "A Dama da Internet" estão entre os mais recentes "proibidões da literatura".
Em breve, andar pelas ruas com um livro de Dalton Trevisan ou deNelson Rodrigues pode acabar na delegacia.
No final de novembro do ano passado, a deputada distrital Celina Leão (PSD) encaminhou o pedido de suspensão da venda de "O Livro Maldito" à Procuradoria-Geral da República. A edição foi publicada no Brasil em 2011.
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Autor promete contar tudo o que você precisa saber se não for uma mané
Autor se fundamenta no nonsense para criar a cartilha do crime
Escrito pelo publicitário norte-americano Christopher Lee Barish, o texto é inspirado em "Grand Theft Auto" (GTA), um game no qual o protagonista se envolve em diversas atividades criminosas. Barish explica como produzir um filme pornô, abrir cofres, fazer ligação direta em carros e assaltar bancos.
Fora do Brasil, a Comissão Coreana de Ética Editorial proibiu a venda e ordenou a destruição dos exemplares de "Os 120 Dias de Sodoma", escrito por marques de Sade no século 18 e publicado recentemente na Coreia do Sul.
O clássico apresenta linguagem mais obscena e descrições de atos sexuais mais polêmicos que os presentes na trilogia erótica"Cinquenta Tons de Cinza". Considerado a obra-prima do marquês, o texto foi dado como perdido e publicado apenas no início do século 20. O romance inspirou "Salò" (1975), filme de Pier Paolo Pasolini (1922-1975).

Fonte: Folha de São Paulo
O Livro Maldito
Em "O Livro Maldito", Christopher Lee Barish ensina o passo a passo da maldade. Em curtos capítulos muitíssimo bem-humorados, o autor dá um passa fora no politicamente correto para instruir com perícia como proceder de maneira a sair ileso das mais variadas falcatruas --desde mentir ao polígrafo a ter a sua própria plantação de maconha.
Inspirado no game de sucesso Grand Theft Auto (GTA), o livro se baseia no nonsense para levar a frente o projeto de uma cartilha de ilicitudes, todas elas ilustradas por Christian Kunze para que ninguém confunda as temidas técnicas de maldade.
Publicado no Brasil pela editora Best Seller em 2011, a venda de "O Livro Maldito" pode ser proibida no Brasil.
Deputados em Brasília querem esse "manual do crime", que ainda é vendido livremente, fora das prateleiras. A deputada distrital Celina Leão (PSD) encaminhou o pedido de suspensão da venda à Procuradoria-Geral da República.


16 setembro 2012

Outras Estantes - O filme que está a incendiar o Médio Oriente


Protestos violentos
10:08 Quinta, 13 de Setembro de 2012

Obama apelou aos Presidentes da Líbia e Egito para garantirem a segurança dos diplomatas, alvos da ira de manifestantes contra um vídeo polémico sobre o profeta Maomé.

O Presidente norte-americano, Barack Obama, telefonou aos homólogos da Líbia e Egito para lhes pedir que continuem a trabalhar com os Estados Unidos para garantir a segurança dos seus diplomatas nesses países, informou a Casa Branca.
Obama agradeceu ao Presidente líbio, Mohamed Magariaf, as condolências que expressou pela morte do embaixador norte-americano na Líbia e de outros três diplomatas dos EUA, na terça-feira, durante um ataque contra o consulado norte-americano em Benghazi.
A Casa Branca indicou que os Presidentes líbio e egípcio acordaram em cooperar com os EUA para que os responsáveis pelos incidentes ocorridos esta semana em Benghazi e no Cairo sejam levados à justiça.

Filme não pretende insultar muçulmanos
O filme sobre o profeta Maomé que originou violentos protestos no Médio Oriente pelo retrato que faz da fé islâmica não pretende insultar os muçulmanos, disse na quarta-feira um controverso pastor cristão norte-americano que apoia o vídeo.
Terry Jones, que também esteve na base de violentos protestos no passado ao queimar o Corão, reiterou que as mortes do embaixador norte-americano na Líbia e de três outros diplomatas dos EUA num ataque em Benghazi não foram resultado do filme.
"Fomos contactados pelo produtor do filme 'Inocência dos Muçulmanos' para o ajudar a distribuir", disse Jones em comunicado, referindo-se ao filme de 14 minutos sobre o profeta Maomé que está disponível na Internet.

Fonte: Visão

12 setembro 2012

Outras Estantes -A segunda vida de Gabriela

Telenovela na SIC
Rosa Ruela (Texto publicado na VISÃO 1018, de 6 de Setembro)

10 de Setembro de 2012
 Estreou, esta noite, na SIC, a nova versão da primeira telenovela a passar na televisão portuguesa, em 1977.

Jorge Amado ia gostar, sim. Não entraria em comparações - o que pode uma Juliana Paes contra a mítica Sónia Braga? - nem alinharia nas críticas que desdenham da nova versão, apondo-lhe o rótulo de soft porn. "Ele era maroto mesmo", já disse numa entrevista a um programa de TV brasileiro o ator Ary Fontoura, coronel em ambas as séries. Quem escreve estas linhas também recorda o seu olho brilhante quando, aos 70 anos, chegava a Lisboa e soltava o cumprimento: "Minha filha, você está..." Paloma e João podem torcer o nariz lá na Baía, mas apetece escrever que o pai, Jorge Amado, ia gostar de ver a sua Gabriela de novo na TV. O mesmo terão pensado na Rede Globo ou o remake da novela baseada no seu romance Gabriela, Cravo e Canela, publicado, pela primeira vez, em 1958, não acabaria agendado precisamente para o ano do centenário do nascimento do escritor brasileiro.
Uma delícia. Um senhor.
"A visão de mundo [de Jorge Amado] fala da opressão e é um autor que colocou a liberação sexual em primeiro plano", nota agora o argumentista da versão de 2012, Walcyr Cardoso, no dossiê de imprensa. "[A novela Gabriela] representa a liberdade sexual em um momento que isso passa a ser discutido no mundo inteiro."
A verdade é que a sua obra foi sempre tão cinematográfica e atual, apesar de o romance se desenrolar em 1925, que logo em 1961 a TV Tupi avançou com uma primeira série de 70 episódios. Realizada por Maurício Sherman, tinha como protagonista a atriz Jeanette Vollu, escolhida por uma comissão que incluía o escritor e a sua mulher, Zélia Gattai. A adaptação não ficaria na memória dos telespetadores brasileiros e Jorge Amado não voltaria a arriscar mais conselhos. A obra ganharia prémios, teria dezenas de edições, seria enredo de samba e história de quadrinhos. "Deus seja servido", concederia o escritor. Mas o mais próximo de uma opinião sua faria manchete numa entrevista ao Diário de Lisboa, sobre o papel interpretado por Fulvio Stefanini: "O seu Tonico é melhor do que o meu."

FOLHETIM DE CAFÉ
Em 1975, quando a Globo quis comemorar os dez anos de existência com uma segunda tentativa de Gabriela, Amado delegaria a incomodidade de acompanhar a adaptação no seu irmão James - também um grande escritor -, que tinha a vantagem de estar distanciado da obra. E uma paciência infinita.
Numa leitura livre de Walter George Durst, a novela teria quase o dobro dos episódios e estabeleceria recordes de audiência, do início ao final. Seriam seis meses em que milhões de brasileiros ficariam grudados aos seus televisores a partir das 10 da noite, sem conseguirem descolar da história da ingénua moça do sertão cujo comportamento chocava com as regras da sociedade conservadora de Ilhéus, uma cidade no Sul da Baía onde os coronéis mais os seus jagunços reinavam e as senhoras "bem" calavam.
Dois anos depois, em maio de 1977, o folhetim que relatava a transformação de uma sociedade patriarcal conservadora estreava-se na RTP - o único canal e a preto e branco -, marcando o início do negócio da exportação da Globo. Pela primeira vez, ouvia-se português do Brasil ao serão - e quem começou por estranhar e criticar acabou admitindo que era uma língua rica e gostosa, com a vantagem de agradar aos muitos cidadãos analfabetos.
Num instante estava tudo a cumprimentar-se com um "oi!" A narrativa por episódios prendia os telespetadores de segunda a sexta-feira, à hora do jantar (em Portugal, a telenovela arrancava às 8 e meia da noite). As personagens eram tão interessantes que ganhavam vida na manhã seguinte, nas conversas ao pequeno-almoço. Os cafés revelavam-se, aliás, os locais mais costumeiros para se assistir ao desenrolar da história, lembra Isabel Ferin Cunha, professora na Universidade de Coimbra, dedicada à análise dos media no espaço lusófono, e autora do estudo Revolução da Gabriela: o ano de 1977 em Portugal (publicado, juntamente com outros, em Memórias da Telenovela - Programas e Recepção, Livros Horizonte, €18).

POLITIZADA, LÁ E CÁ
Numa altura em que o FMI intervinha, pela primeira vez, em Portugal, a pedido do então primeiro-ministro, Mário Soares, havia apenas cerca de 150 aparelhos de televisão por mil habitantes. Como o hábito de ir ao café era, sobretudo, coisa de homens, seriam eles os espectadores mais assíduos e de todos os quadrantes - tendência que poderá regressar por obra e graça das ousadias da personagem de Juliana Paes...
"[Só a Gabriela] realiza o milagre de juntar toda a gente, à mesma hora (incluindo os que consideram o PS o partido mais esquerdista deste mundo e do outro), em frente do televisor e, pelos vistos, por mais que isso nos espante, com sentimentos semelhantes...", notava o escritor e pintor Mário Dionísio, numa crónica publicada no semanário O Jornal, em agosto de 1977.
O concurso A Visita da Cornélia, o outro êxito desse verão, seria rapidamente politizado, mas nada comparável à análise que os repórteres do mesmo jornal farão, dedicando, em outubro, quase quatro páginas à "Gabrielomania instalada em Portugal". Além de auscultarem cidadãos comuns, transcrevem opiniões de políticos de diferentes quadrantes. Enquanto o capitão de Abril Otelo Saraiva de Carvalho dizia que a figura do coronel Ramiro Bastos era parecida com a de Spínola, o socialista Salgado Zenha afirmava que a sociedade de Gabriela tinha muito a ver com a portuguesa por essa província fora - encontrando paralelismos com a relação pais-filhos ou as lutas políticas regionais a nível dos jogos de influência pessoais.
Mais terrena, uma professora da antiga primária referia um "efeito negativo" do folhetim na sua escola: os meninos andavam todos aos beijinhos como o Nacib. "O que seria natural se não fosse estimulado por fatores alheios..." Muito atual - e agora tentamos o salto para 2012 - é o comentário de Tomás, na altura um estudante-trabalhador com 21 anos: "Continua a haver coronéis, sobretudo naquilo que respeita ao aspeto económico."

AI, JULIANA...
A par da libertação sexual e do combate ao coronelismo, a emancipação feminina é outra das temáticas centrais do romance que todas as versões têm transposto para o ecrã - o que explica o êxito e, uma vez mais, a atualidade da obra de Jorge Amado. Não é por acaso que Malvina, a rapariguinha do cabelo de pontas arrebitadas, gera tanto sururu. Ela nasceu para provocar polémica. A atriz que lhe dá voz tinha de ser tão convincente que o realizador, Daniel Filho, testou-a no casting até vê-la explodir. Tanto criticou o seu sotaque ao ouvi-la dizer Veuve Clicquot (marca de champanhe francês) que Elizabeth Savala acabou gritando, furiosa, que estava mais interessada em representar bem do que em receber uma aula de francês.
Quase 40 anos depois, esgotado o tema da libertação sexual da mulher e não havendo censura nem caciquismo declarado para ganhar público, é para o Bataclã de Maria Machadão, onde "seu" Nacib se encontra com a Zarolha antes de conhecer Gabriela, que estão voltadas as atenções. Enquanto em 1975 (1977 em Portugal) as audiências aumentavam sempre que surgiam cenas como a de Gabriela a subir a um telhado para resgatar um papagaio de papel (Ilhéus parava para ver a sua calcinha, Brasil e Portugal também), agora são as cenas passadas naquele bordel que mais fidelizam.
O povo confessa em surdina que faz zapping para ver Juliana Paes nua e, se possível, enrolada com o seu "moço bonito", Nacib. A primeira noite de paixão dos dois seguiu direta para o YouTube, mas não vale a pena correr a clicar agora - o conteúdo foi considerado demasiado explícito para as regras do site de partilha de vídeos. Isabel Ferin Cunha, que assistiu a alguns episódios, nas últimas semanas, numa passagem pelo Brasil, não tem dúvidas: "Se a outra [versão] era sensualizada, esta é erotizada. Tem mais cenas explícitas de sexo."

O PAÍS VAI PARAR?
E tem mesmo. Logo no primeiro episódio, o corpo meio despido de Juliana Paes é explorado em grandes planos, a pretexto de um charco em plena seca, no sertão; por essa altura, no Bataclã, insinua-se que a Zarolha faz sexo oral a Nacib. "Oh, xente! Precisa não...", apetece escrever.
Trinta e cinco anos depois de Gabriela ter provocado o início de Portugal como país televisivo, Isabel Ferin Cunha está a realizar, com investigadores brasileiros, um estudo que envolve pessoas com 25 anos em 1975/77, para avaliar as diferenças dos impactos da novela original e do remake. Diz-se que, nessa época, o País parava. Mário Soares e Álvaro Cunhal eram dois dos políticos que não perdiam um episódio, e correu a lenda, já desmentida por Manuel Alegre, de que, no Parlamento, se aligeiravam as ordens de trabalhos para os deputados regressarem a casa a tempo da transmissão.
Para tanto seria agora preciso muito mais do que nudez e sexo explícito. No Brasil, a novela teima em não estourar, talvez porque o tempo já não é de ditadura nem de censura e a liberdade sexual deixou de ser novidade. Por cá, o crítico de televisão Eduardo Cintra Torres nota que Gabriela é mítica e faz parte da memória coletiva do País, mesmo para quem não a viu nos anos 1970. Além do público que gosta de novelas, Cintra Torres acredita que o remake suscitará a curiosidade daqueles que acompanharam o original. Ele próprio, que aos 20 anos não perdeu um episódio, estará na cadeira da frente, na próxima segunda-feira, 10.


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