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14 abril 2014

Dica Literária da Semana: Peppa vezes três

A ideia é fazerem um piquenique na floresta, mas de repente Peppa descobre umas pegadas no chão. Que animal será aquele?
Em A Peppa dá um passeio toda a família vai embarcar na aventura da descoberta. E o que será que Jorge, o irmão mais novo de Peppa, vai descobrir quando finalmente vencer o medo?
Em A Peppa vai à piscina, de braçadeiras nos braços, o tempo é de conquistas.
Corrida, salto em comprimento e estafetas são algumas das provas de A Peppa faz exercício. Para quem será a taça?  
Três novas histórias protagonizadas pela porquinha mais querida dos mais pequeninos. A partir dos 4 anos.

Neville Astley e Mark Baker 
Bertrand Editora
24 pp
5,50 euros (cada)


Sinopse
A Peppa e a família estão tão distraídos a seguir as pegadas de um animal que acabam por se perder! Como será que eles vão encontrar o caminho de volta ao carro e fazer o seu piquenique?
Sinopse
A Peppa e o Jorge vão nadar, mas o Jorge está com um bocadinho de medo. Será que a Mamã Porquinha e o Papá Porquinho vão conseguir convencê-lo a entrar na piscina?

12 abril 2014

Outras Estantes: Os Maias Revisitados- Parte 16

João da Ega: Memórias de um Átomo
Seis romancistas 'inventam' um início para o romance que a famosa personagem d'Os Maias desejava escrever e o sétimo imagina a sua estrutura.
6) Mário de Carvalho

"Desde a pristiníssima nebuloda priveva, num dóbar de poeiras amalgamadas em vagares da eternidade, à pena de aço, banal e fugaz do senhor João da Ega, isto foi um rufo. Se me fosse dado preferir, escolheria decerto a imponência, o seu tanto bocejante, daquele cenário imenso, rodando nas imensidões geladas, exprimindo solenemente a grandeza das eras, a este percurso tamanhinho que me levou ao estanqueiro do número doze da rua da Prata, entre caixas de charutos "Blomont" e resmas de papel azul de requerimento, escutando o trote sonolento dos flacres e os ecos das discussões dos galegos e varinas. Certo ancião venerando, num dos seus dias mais entediados, convocou Mefistófeles ao seu gabinete de estrelas e tonitroou- designando a gigantesca nuvem de poeiras de que eu fazia parte: "Vai, carrega uma porção desta matéria e compraz-te em fazer o mal, em conformidade com a função que te foi distribuída". E destarte arregimentado pelo lado do maligno, fui posicionado em tudo o que tem sido reaccionário e vil, devo confessá-lo, com certo gozo. Relatá-lo-ei, de forma positiva e verdadeira, como é próprio deste século de luz, mesmo quando se prefere as trevas. A minha coroa de glória foi ter sido materializado mesmo abaixo do olho esquerdo da serpente que seduziu a pobre Eva. Mas prefiro começar pelo fim, na esteira dos autores mais ousados que, levando ao extremo o preceito do velho Horácio, proclamam o primado das Ultimas Res. Há pouco, tendo exultado por pertencer ao aço do canhão que em revoadas sucessivas arrasou um  bairro de Paris e devastou os rebeldes da Comuna, vi-me entregue a uma fundição que através de calores atrozes transfigurou a nobre arma em corriqueiras chapas de metal, estas em penas baratas e reles (substitutas da elegante pena de pato) que rolaram em caixas, no Sud-expresso, para pasmarem na vitrina encardida do senhor Lopes da Rua da Prata. Aqui me encontro, pois, neste negregado momento, à secretária do senhor João da Ega, rabiscando estas linhas, enquanto ele pensa noutras coisas."  
Fonte: JL   

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22 fevereiro 2014

Outras Estantes: Os Maias Revisitados- Parte 15

João da Ega: Memórias de um Átomo
Seis romancistas 'inventam' um início para o romance que a famosa personagem d'Os Maias desejava escrever e o sétimo imagina a sua estrutura.
5) Teolinda Gersão

Dourados leitores de uma época distante, cujos olhos futuros percorrerão avidamente estas linhas, é por vós que me entrego, trêmulo de emoção e tomado de reverencial temor, à tarefa ingente de narrar as memórias de uma existência tão longa, acidentada e vária como a do próprio incomensurável Universo. É a vós que dedico esta obra, redigida a partir de um lugar rasteiro e mínimo, pelo bico de uma pena que avança, incerta e insegura, sobre a folha ainda virgem do papel. Não olheis, dourados leitores, para a minha humilde pequenez atómica, e valorizai antes a minha vontade de vos alcançar, nessa luz que à distância de milènios vos doura, nesse ponto do tempo em que estais a salvo da miséria, do asco, da inominável estultícia da época em que por desgraça me situo. (De nada valeria o esforço de levar a cabo a obra a que, aqui e agora, me comprometo, se fossem apenas de hoje os seus leitores. Falaria no deserto, para mentes fechadas e orelhas moucas. Já noutra época, que adiante narrarei porque dela guardo memórias indeléveis, não faltaram, pregando no deserto, os pregadores mais insignes. E o seu fracasso deixou-me, por mais de mil anos, desalentado e mudo).
Sei no entanto que por vós serei ouvido e entendido, conheceis outras leis e sociedades e tendes uma visão lúcida e justa: estais portanto preparados para fazer comigo esta viagem vertiginosa através do Ser. Invoco por isso a vossa presença a meu lado - desde o primeiro instante de espanto e turbulência em que, a partir do nada, tudo começou. A vós, e a nenhuma inexistente divindade, me confio. Não serei capaz deste empreendimento sem que a vossa companhia benfazeja me sirva de luzeiro e guia. Sede a estrela do norte, o poder inspirador, a força que me leva, a mim miserável átomo, a atravessar, no bico de uma pena, o vendaval do tempo. Protegei-me dos perigos desta tarefa desmedida e sobre-humana. Mas sobretudo protegei-me da mão que segura a pena, do braço  que segura a mão, do corpo que segura  o braço, do homem sentado à escrivaninha a quem pertencem o corpo, o braço, a mão esgrouviada e a pena: um desgraçado inútil e ridículo, de nariz adunco e de bigode, com um caco de vidro encaixado num olho, que sempre viveu da mesada da mãe e da generosidade dos amigos,  e usa todo o tipo de excessos e demagogias para chamar as atenções a qualquer preço, porque tem um ego do tamanho do mundo. Como aliás o seu nome indica, pois chama-se João do Ego (embora ele o disfarce, usando-o astuciosamente na forma feminina, João da Ega). Pois é sobretudo contra esse energúmeno, dourados leitores, que invoco, com fé inabalável, a vossa proteção: o sujeito, que sempre viveu à custa de outrem, quer agora viver à minha custa, identificar-se comigo e assinar com o seu nome estas Memórias inteiramente minhas. Salvai-me, suplico-vos, deste parasita, não permitais que ele escreva por mim o livro que agora eu inicio. Forçai-o riscar, se ele escrever isso, que é da autoria de João da Ega e uma espécie de biografia sua. Guiai a sua mão, fazei que ele siga e respeite o  que eu lhe ditar, da primeira à última linha. Tolerarei de bom grado que concedais ao inepto parasita a ilusão de ser autonómo e de ser autor, desde que o livro seja  sempre meu, porque sou eu que lho dito e desde já lhe ponho um nome, que deverá manter, pela eternidade adiante. As Memórias de um Átomo.          
Fonte: JL   


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27 janeiro 2014

Dica Literária da Semana: 1,2,3 Conta Lá Outra Vez !

1, 2, 3, Conta Lá Outra Vez
Livro: 1,2,3 conta lá outra vez!
Autora: Danuta Wojciechowska (texto e ilustração)
Editora: Caminho
32 pp
12,90 euros


Sinopse
Vês como os números também servem para contar histórias? E falam todas as línguas! São universais: em qualquer parte do mundo, uma criança como tu, consegue ler o mesmo algarismo. Mas o que é mais fascinante é que podes utilizar os números para observar o mundo e compreender como as coisas são feitas. Os números estão escondidos em tudo, basta olhar com atenção. Existem nas plantas, flores e animais, mas também no teu corpo e na tua imaginação. Se aprenderes estes segredos podes usa-los para criar, planear e construir o mundo a tua volta.
"Os números governam o mundo", disse Platão. Acrescentou Galileu: "O livro da natureza foi escrito exclusivamente com figuras e símbolos matemáticos". Blavatsky deu mais uma 'ajuda': "A escada da Sabedoria tem os degraus feitos de números". 1,2,3 conta lá outra vez! pretende ensinar a contar em seis linguas-português, inglês, espanhol, francês, alemão e chinês. Porque como escreve a autora, que tal como em O que se vê no ABC, assina o texto e a ilustração,  os números "são universais: em qualquer parte do mundo, uma criança como tu, consegue ler o mesmo algarismo. Mas o que é mais fascinante é que podes utilizar os números para observar o mundo e compreender como as coisas são feitas. Os números estão escondidos em tudo, basta olhar com atençao".
Fonte: JL
Texto relacionado:
1,2,3, Danuta Wojciechowska

25 janeiro 2014

Outras Estantes: O(s) pensamento(s) único(s)

Texto de Jacinto Rêgo de Almeida

As crianças, os loucos e os muitos velhos podem expressar o que pensam com inteira liberdade, ou seja, o pensamento único. Mas o cantor e compositor de rock e escritor brasileiro João Luis Woerdenbag Filho, conhecido como Lobão, 55 anos, também conquistou esse estatuto.
Ocorre-me a este propósito que os embaixadores da Grã-Bretanha ao saírem de um posto têm a tradição de comunicar ao seu governo, em documento secreto, as suas impressões pessoais sobre o país que os acolheu. (Alguns dos mais famosos documentos transcritos no livro Parting Shots e segundo algumas informações essa tradição teria infelizmente sido interrompida ou cancelada tendo em vista a proteção das sensibilidades diplomáticas...).
Claro que enquanto estão em funções, hóspedes de governos estrangeiros, são treinados para não o fazerem como todos os altos funcionários internacionais ou diplomatas de carreira por esse mundo afora. Apenas um exemplo (parte de comunicação enviada em 1967 pelo embaixador Roger Pinsent ao Foreign Office, ao deixar o seu posto em Manágua): "Temo não haver dúvida de que o nicaraguense médio é um dos latino-americanos mais desonestos, inconfiáveis, violentos e beberrões. Sua versão da língua espanhola é a menos atraente que já ouvi."
Num país com pouca tradição de liberdade como Portugal (na nossa História, com exceção dos últimos anos, a repressão e a censura quase sempre estiveram presentes) não me ocorre nenhum exemplo respeitável destas práticas de liberdade. De forma geral estamos sempre a medir as palavras para expressar o "pensamento único", ou seja: a ausência de pensamento próprio.
Mas o brasileiro Lobão é um caso à parte, ele faz questão de não deixar pedra sobre pedra. É considerado um artista criativo, inteligente, polémico e , claro, provocador, e nada faz crer que afirme o que não sente. Recentemente, por ocasião da publicação do seu livro Manifesto do nada na terra do nunca, uma compilação de ideias do autor sobre o Brasil, "um país que não quer crescer", e sobre si próprio, e contra a corrente dominante a respeito do progresso no país, ele escreve e diz o que poucos se atreveriam a exprimir.
Sobre sua vida pessoal salienta que deixou de usar cocaína, maconha ou outras substâncias ilícitas ("apesar de ter uma genética ótima e sempre ter usado tudo de maneira bastante criativa") porque já não se conseguia concentrar para ler os clássicos e compor e tocar música. Rechaça a teoria do "bom selvagem" de Rousseau, e em relação à cultura brasileira considera que as ideias oriundas da Semana da Arte Moderna(1922) e do "Manifesto Antropofágico", de Oswald de Andrade (1840-1954), "índios de boutique com penacho Chanel na cabeça", não passam de nacionalismo barato e equivocado.
De positivo só houve a vontade de mudar e considera que a semana de 22 deu origem ao Concretismo, à Música Popular Brasileira, ao Cinema Novo e à Tropicália, tudo "uma porcaria muito grande", um atraso, ainda conetado com o Brasil atual, baseado nos cânones: preguiça, precariedade e mau caretismo. O brasileiro nunca foi tão malandro como agora, afirma, e "vive a divertir-se em ruas quebradas com passatempos de quinta categoria, músicas que só podem causar atrofia no cerebelo e, na política, os militantes são a coisa mais cafona e mais rasteira que há. Detesto aquela coisa de linguiça com cachaça, sandália de couro e barbicha... amamos a pobreza".
O bom regime político, afirma ainda, é "chamar todo o mundo para a prosperidade, ganhar o Nobel da Literatura, da Economia, mas ficamos a exportar bunda, axé, pagode, coisas de terceira categoria". Acha a música de protesto fora do seu tempo e não responde às provocações que recebe ("Quem é você para opinar? Um drogado, um roqueiro..."), nem às acusações da esquerda de ser "reacionário e roqueiro decadente".
Mas a metralhadora giratória do Lobão não fica por aí: "... a flacidez filosófica e a mediocridade nacionalista se espraiam hegemónicas. Todo o mundo almeja ser funcionário público, militante de partido, intelectual subvencionado pelo governo ou celebridade de televisão", diz. E critica Chico Buarque de Holanda, "um ícone da esquerda festiva, sempre a enaltecer os humildes, os pivetes, as prostitutas e os sem-terra". Rema com vigor contra a esquerda caviar, radicais chiques que vivem em grandes apartamentos de cobertura e veem-se a si próprios como moralmente superiores. Antigamente essa esquerda elogiava os racistas dos Panteras Negras e hoje defendem as invasões do Movimento sem Terra, os corruptos do PT e alguns ditadores sanguinários comunistas, afirma. Critica Cuba e considera Che Guevara um facínora e psicopata. Lobão não esconde o seu "passado negro" de militante do PT e ainda considera o multiculturalismo uma posição defendida pelo " segregacionismo arrogante".
Parece-me merecer alguma reflexão  o facto de algumas opiniões de Lobão em relação ao Brasil atual terem pontos de contacto com as comunicações ao Foreign Office do embaixador da Grã-Bretanha no Rio de Janeiro, entre 1958 e 1963, G. A. Walinger , e também as de John Russel, embaixador em Brasília, entre 1966 e 1969 (no período da ditadura militar) por ocasião das suas transferências para outros postos.
" Por que, então o Brasil ainda não é rico e próspero?", indaga o embaixador Russel no item nº 10 da sua comunicação após descrever as imensas riquezas naturais do país. "É que o país é governado de forma desastrosa. O Estado da Guanabara tem mais funcionários públicos do que New York; a Petrobrás, só em  S. Paulo, emprega um maior número de químicos do que a Shell no mundo inteiro; pode-se comprar qualquer coisa - de uma carta de condução a um juiz do Supremo Tribunal Federal...; o país tem apenas 18 mil milhas de estradas asfaltadas e em 1968 os brasileiros mataram 10 mil pessoas nas estradas -mais do que o total de soldados americanos mortos no Vietnam no mesmo ano", escreveu o embaixador. Reconhecendo porém que "a política de terra arrasada dos coronéis interrompeu o desenvolvimento espiritual de um país potencialmente brilhante".
Um texto que poderia ter sido escrito por Lobão, pensei.
Fonte: JL (Coluna- Crônica-jul/13)

20 janeiro 2014

Dica Literária da Semana- O Meu Avô foi para o Céu de Mª Teresa Maia Gonzalez


Livro: O Meu Avô foi para o Céu
Autora: Maria Teresa Maia Gonzalez 
Editorial Presença
79 pp
7,50 euros

"Podias escrever uma história (...)Quando te lembrasses de alguma coisa sobre o avô(...) Vocês os dois foram sempre tão amigos... Escrever pode ajudar-nos a ver as coisas de uma maneira diferente (mais inteligente!) e até a percebermos melhor o que vamos sentindo. Acho que ia ser muito bom!"
Foi este o desafio que a avó de Paula lançou ao João Timóteo, ou antes, ao Tim, como toda a gente o chama, poucos dias após o "pior dia" da sua vida, o da morte do avô Jerónimo. O meu avó foi para o céu é um caderno de Tim (vemos no topo de cada página o desenho recortado que as argolas deixaram ficar...), rapaz esperto  e despachado, quase a fazer 9 anos, que conta memórias, lembra episódios marcantes como o primeiro dia que o avô o deixou entrar na sua oficina e ajudá-lo nos trabalhos manuais (desde que não mexesse em nada sem pedir), ou ainda aquele dia em que o avô lhe disse que quando soube que ia ter um neto se sentiu completamente maravilhado...E Tim acreditou, claro, porque se havia pessoa com jeito para ser avô era o avô Jerónimo!
Nesta (pequena grande) obra também se fala da doença, uma leucemia fatal, dos tratamentos, do internamento no hospital, dos tubos, dos soros, dos medicamentos...Tudo no tom certo, sem excessos, sem explicações absurdas, apenas factos honestos, reais. A voz da autora- tantos livros depois de marcos na literatura juvenil como A Lua de Joana - na sua mais recente obra, continua intacta, tal como a sua capacidade de explicar os temas mais difíceis, longe de ser paternalista. A leitura poderá ser uma ajuda aos mais novos para lidarem com a perda, muitas vezes, a primeira verdadeiramente significativa e marcante das suas vidas.  (FCR)
Fonte: JL

Texto relacionado

04 janeiro 2014

Outras Estantes: Os Maias Revisitados - Parte 14

João da Ega: Memórias de um Átomo
Seis romancistas 'inventam' um início para o romance que a famosa personagem d'Os Maias desejava escrever e o sétimo imagina a sua estrutura.
4) Fernando Venâncio

Na mão fechada do Eterno, encolhido, cheio de sonhos trepidantes, o Universo dormia. Era uma cavidade macia, tépida, essa que aconchegava os elementos, singelos uns, nobres outros, com que Ele iria construir mundos. No mais escuro e insondável da caverna, jazia eu. Não nos diria impacientes, a mim e meus irmãos, já que uma eternidade produz certa acalmia, e até enfado. Mas estávamos expectantes, e de algum modo curiosos. Foi quando, sem um aviso, sem um prenúncio, lenta mas resoluta, se abriu a mão do Eterno.
Senti-me voando espaço fora. Ia solto e bafejado de promessas. Foi-me tomando aquele entusiasmo que, percebi depois, é o dos pioneiros de qualquer coisa. Digo qualquer coisa, e digo bem. Eu era jovem, menino ainda, podia tornar-me, pensei, o que bem entendesse, na Terra ou no Céu.
Calhou-me a Terra. Assim dispôs o Eterno, com quem nunca privei, é certo, mas de quem, em momentos de langor, recordo o resguardo e a quentura. Andei a tarde desse primeiro dia balouçando entre a onda e a areia, nos confins dum mundo ainda infértil. A minha primeira noite, modo de dizer, pois nem sol nem estrelas havia então, passei-a eu nesse vaivém despreocupado e embalador.
Foi de pouca dura. Cedo senti que me agarravam e conduziam por apertos sombrios e húmidos. Eram as raízes duma plantazinha que, atrevida, robusta, não tardou a subir ao ar livre, onde agora avançava, radiante e animoso, o Sol.

Fonte: JL   


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Outras Estantes: Os Maias Revisitados - Parte 13 

31 dezembro 2013

Dica Literária da Semana- Destino: Sul


Livro: Destino: Sul
Autor: Mateus Brandão
Editor: Parsifal
224 pp
14 euros (jul/13)


20 países
3 continentes
25.000 quilometros
"Não viajo para enfrentar adversidades- as que surgirem não serão mais do que parte integrante deste sentimento de viagem ( o imprevisto)-, nem vou para ultrapassar medos ou fugir do que quer que seja", assegura Mateus Brandão. "Vou para encontrar". É o que tem feito nos últimos anos, das linhas de comboio portuguesas aos interrails europeus. Em 2011, decidiu dar uma outra dimensão ao seu estilo (será filosofia?) de vida, num projeto ambicioso: unir o extremo setentrional da Europa ao ponto mais austral de África. Ou seja, do norte mais norte da Noruega ao sul mais sul da África do Sul. Partiu em agosto e chegou ao destino sete meses depois, com muitas histórias e aventuras para contar. E elas aí estão, reunidas em livro, que tem como título o espírito da sua viagem: Destino: Sul. Foram 25 mil quilometros e 20 países, incluindo Ucrânia, Bulgária, Turquia, Israel, Jordânia, Egito, Sudão, Etiópia, Quénia, Tanzânia e Namíbia. No fim, uma certeza: "Viajar é um vício". A próxima já está marcada: o Trans Europ Express, até Moscovo

28 dezembro 2013

Outras Estantes: Bárbara Guimarães


Livro: Páginas do Páginas Soltas
Autora: Bárbara Guimarães
Editora: Guerra & Paz
264 pp
14,99 euros

"Quatro anos- todos os dias no ar, com a simples ideia de abrir portas, janelas, com grandes escritores, artistas, políticos, arquitetos, músicos... uns mais conhecidos, outros ainda desconhecidos. Todos a viver esta aventura. E eu, em contínuo, a ler os livros e as vidas de quem ia fazendo parte do programa". Assim, foi o Página Soltas, programa sobre livros que Bárbara Guimarães manteve durante 684 emissões de 12 minutos. "Um turbilhão vadio de prazeres", como diz, e que volta a partilhar com os espectadores. Mas agora em livro. A convite do editor da Guerra & Paz, Manuel Fonseca, e com a ajuda de Jorge Pereirinha Pires, que transcreveu as entrevistas, a jornalista selecionou 30 personalidades que passaram pelo seu programa. O resultado é uma antologia de entrevistas íntimas, a que só falta a linguagem não-verbal (os olhares, os gestos, a convicção, a timidez) de quem revela um pouco de sua vida. Ana Hatherly, Artur Cruzeiro Seixas, Bernardo Sassetti, Eduardo Prado Coelho, Eduardo Souto Moura, Fernando Lopes,  Joaquim Benite, José Saramago, Maria Teresa Horta e Pedro Tamen são alguns dos convidados presentes neste livro.
Fonte: JL

Veja também:

DeRose no Páginas Soltas em Portugal

21 dezembro 2013

Outras Estantes: A malta e eu de Michel Gondry

Cartaz do Filme



Por: Manuel Halpern

Desde que Larry Clark filmou Kids, em 1995, que os adultos puseram as mãos na cabeça e exclamaram: "Meu Deus, o que é feito dos nossos filhos?". O tratamento de choque foi dado e repetido. E a questão voltou a levantar-se tão bem em Paranoid Park(2007) e Elefante (2003), de Gus Van Sant, como em 17 raparigas (2011), de Delphine Coulin e Muriel Coulin, que mostra uma escola onde várias estudantes decidem engravidar. A conclusão é sempre a mesma: temos motivos para entrar em pânico. A adolescência é o período onde se tomam as grandes decisões que poderão ser fatais para o resto da vida. O mundo dos perigos desconhecidos, que os pais comodamente resolvem com um " é da idade, depois passa.

Enquanto objeto cinematográfico, a adolescência é um universo fascinante desde, pelo menos, Rebelde sem Causa (1955), de Nicholas Ray, exatamente devido a essa ligação com o risco e a forma de estar extrema, no lusco-fusco entre a infância e a idade adulta. A propensão infantil para o egoísmo aliada à vertigem pela imitação dos adultos, com um gosto pelo excesso, torna a adolescência apelativa mas extremamente difícil de tratar. Mais difícil ainda do que a infância ou a velhice. Os adolescentes são incompreendidos e incompreensíveis.
Michel Gondry é um realizador francês radicado nos Estados Unidos, habituado a fazer telediscos, incluindo de alguns rappers, e autor de um filme de culto, O Despertar da Mente (2004), que vinga pelo experimentalismo na história contada. Gondry encontrou uma estratégia para entrar de forma mais profunda neste tema difícil. Devolveu o ângulo aos alunos de uma escola, numa prática habitual para documentários ou repérage de argumento, chegando ao ponto de lhes entregar o desenvolvimento e interpretação do próprio filme, sendo esta história a conclusão de um projeto numa colónia de férias dos arredores de Nova Iorque. Não é um documentário, nem sequer um docudrama, é um filme em que não-atores fazem de si próprios. De resto, como tem sido prática em algum do mais notável cinema português, de Pedro Costa a Miguel Gomes, passando por João Salaviza e Basil da Cunha, para não falar de Gambozinos, de João Nicolau, que foi feito precisamente em interação com uma colónia de férias na Verdizela.
Michel Gondry fecha a ação no autocarro que atravessa o Bronx (zona de Nova Iorque tão bem retratada por Spike Lee), no último dia de aulas. Não se trata das típicas carrinhas da escola, amarelas com quatro rodas apenas, mas um transporte público regular, da Carris lá do sítio, de que os jovens se apropriam sem resistência, tendo o único e relativo contraponto na motorista. Quando sobem a escada do autocarro, a maioria dos outros passageiros desce, evitando o confronto. Mas a desgraçada sorte de quem apanhou um bando de adolescentes na viagem nem chega a ser tema, resolve-se e assume-se nos primeiros minutos. O estado de absoluta e exagerada insubordinação torna-se secundário, para dar espaço às relações dentro do grupo, construídas à base de jogos de humilhação, em que o bullying é bastante mais popular do que o baseball. Gondry procura chegar ao âmago, e descobrir a adolescência nos seus afetos e contradições. Não se preocupando tanto com o experimentalismo social - um big brother dentro do autocarro -, descartando-se do pseudorrealismo das cenas (o que talvez seja pena) e evitando impor regras demasiado rígidas (não é um mero exercício de estilo, há cenas fora do autocarro).
A descoberta essencial neste retrato de Gondry está resumida no título. Apesar das enormes diferenças de personalidade e de níveis de maturidade, há uma característica carregada ao fundo no espírito adolescente. Precisamente a diferença entre o eu grupal e individual, exemplificada de forma evidente na personagem de Michael. O indivíduo bestializa-se no grupo e desconstrói-se fora dele. A identidade anda algures pelo caminho.
Fonte: JL


A Malta e Eu

Título original:
The We and the I
De:
Michel Gondry
Com:
Michael Brodie, Teresa Lynn, Raymond Delgado
Género:
Drama
Classificação:
M/12
Outros dados:
EUA/FRA/Afeganistão, 2012, Cores, 103 min.







14 dezembro 2013

Outras Estantes: Os Maias Revisitados - Parte 13

João da Ega: Memórias de um Átomo
Seis romancistas 'inventam' um início para o romance que a famosa personagem d'Os Maias desejava escrever e o sétimo imagina a sua estrutura.
3) Nuno Camarneiro

Dirão alguns que não és ser, que um atómo não pensa, não vive e é coisa que não lembra. Que sempre foste e sempre serás uma parte que mexe ao ser mexida, sem alma ou intenção.
E, no entanto, esses que falam são eles também grãos de coisa tanta e maior. E o sistema solar, e a galáxia, e o cosmos, e Deus, que não existindo sempre teve imensas opiniões. Que dirão de nós tantos infinitos?
Vivemos importados com as nossas infâncias e mortes e somos afinal tão voantes, um segundo de estrelas, uma mancha na superfície de um planeta, que ora está e ora se some. E vamos compondo os nossos livros, e relatando as nossas memórias com a minúcia dos tontos - foi no dia 24 de fevereiro de 1866, jamais o poderei esquecer. Mas esquecem todos os outros, e os próprios leitores chegam ao fim da página a bocejar-nos os dias inolvidáveis, espreitando o jantar se já está pronto, olhando para um relógio que mede o que já não nos pertence.
E tu estavas e estás e vais estar ainda muito mais. Tu viste reis e imperadores e os seus avós bárbaros, assististe à nossa queda das árvores, ao mar que nos pariu, à sorte que nos deu nome. E continuas aqui, parte muda do meu aparo, resignado com só ser sem nada perguntar. E se a indiferança ou a sageza te libertam das vaidades, cá estou eu, João da Ega, homem de todos os costados, petulante, vão e airado, pronto a trair-te a anonimidade eterna por uma glória que ninguém há de recordar.
Fonte: JL   


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16 novembro 2013

Outras Estantes: Sónia Cravo - A vida dos outros

Por Carolina Freitas.
Primeiro, surge-lhe uma ideia, vaga, daquilo que quer explorar através da escrita. Depois, as personagens. E, como elas, tudo o resto: o tom, o ritmo, a história. O livro. Para Sónia Cravo, 36 anos, são as personagens, e os seus universos psicológicos, o motor da escrita. Assim aconteceu com o seu romance de estreia, Na Senda da Memória (Esfera do Caos, 2011), e com Deste Lado do Mar Vermelho, o segundo livro, que acaba de lançar. Uma história de amor e morte, para mergulhar nos abismos da alma humana.
Qual o foi o ponto de partida para Deste lado do mar vermelho?
A ideia inicial era colocar um grupo de jovens numa espécie de sociabilização tardia. Assim surgiram Jaime, Emídio e Clarisse, três jovens criados em cativeiro. Queria que viessem de um mundo 'despido'. Interessava-me fazer uma comparação implícita entre as regras que os mantiveram naquele 'casulo' e todas as outras que suportam a vida social tal como a conhecemos. E perceber, depois, como iriam reagir perante a sociedade, como iria funcionar esse processo de libertação, e,  por outro lado, de que forma iriam, ou não, alterar a rotina ou despertar algum tipo de consciência nas pessoas que encontrariam.

A história dos três jovens cruza-se com a da sua família de acolhimento: Custódio, Lia e um cão chamado Pide.
O Custódio, inicialmente, era para ser uma personagem secundária, mas abraçou-me de tal maneira que passou a ser uma das principais. É alguém que anda a moer uma dor imensa, causada pela morte da mulher e do filho. Mexe-se em espaços muito pequenos, fechados. Quando uma pessoa está a distrocer dores e convive e se move em espaços abertos, elas vão-se dissolvendo de alguma forma. Agora, quando se fecha e se vira para dentro, a libertação custa mais. O Custódio é a imagem de uma pessoa virada para dentro, para espaços pequenos - desde o seu escritório às folhas onde escreve poesia, de papel quadriculado (esta escolha não foi inocente...). A questão passa por perceber até que ponto estes jovens têm força para trazê-lo de volta.
À semelhança do primeiro romance, explora o universo psicológico das personagens. É o que mais lhe interessa?
Já tive mais certezas em relação à escrita do que agora. À medida que amadurecemos, vamos perdendo aquilo que inicialmente tínhamos como certo. Mas essa certeza tenho, a de que gosto de explorar o universo psicológico das personagens. Não precisamos de localizar a história no tempo e no espaço (não sou muito fã do romance histórico, por exemplo...). Com este livro, percebi uma coisa muito curiosa: quando comecei a escrevè-lo, só tinha aquela ideia de arranque; entretanto, fui construindo as personagens - aí, sim, perdi bastante tempo; e, a partir daí, foram elas que passaram a assumir o comando da história. Cada fala, cada ação. Foram as personagens que desenharam a história.
Neste segundo livro, a escrita parece ser mais 'contida'.
Sim, comecei a sentir necessidade de aprofundar essa economia semântica (cortar os adjetivos, criar mais imagens, etc.). O caminho da literatura é muito longo... E a noção de perfeição começa, de alguma forma, assombrar-nos e depois o processo é esse: perseguir um certo ideal de beleza ao nível da escrita, da história....Talvez este seja um passo em frente nessa busca.
Fonte:JL

Deste Lado do Mar Vermelho
Deste Lado do Mar Vermelho
Sónia Cravo
Estampa
Maio 2013
120 pp
12,99 euros

Três jovens criados em cativeiro. Uma família de acolhimento também ela com muitas cicatrizes: Custódio, que vive uma espécie de loucura silenciosa, e uma mulher faminta de afectos. Um cão chamado Pide e uma verdade que melhor será nunca chegarem a conhecer. São estes os ingredientes desta empolgante história onde amor e morte se cruzam, quais eternos favoritos dos romances de grande densidade humana.


Na Senda da Memória...
Na Senda da Memória
Sónia Cravo
Esfera do Caos
Setembro 2011
14,90 euros

Muito provavelmente, uma das revelações do ano no domínio da literatura em língua portuguesa. Literatura, entenda-se, naquele sentido clássico e robusto que nos remete para a arte de bem escrever…«Sónia Cravo surge agora com uma narrativa surpreendente a todos os títulos: original quer a nível do tema central e dos motivos que lhe dão consistência e com­plexidade, quer a nível da sua riqueza vocabular, tão inusual que deixa quem lê suspenso entre o arcaísmo e o neo­lo­gismo, entre o achado escritural e o acaso tipográfico (tão joyceano), fazendo a frase explo­dir perante os nossos olhos suspensos. E isto acontece quase continuamente, num ritmo que não deixa sossegar o mais prevenido dos leitores. (…) Mateus, o narrador de toda esta estória de que é personagem nuclear, começa por nos surgir como alguém que não vê senão sexo em cada mulher que o rodeia, e disso faz obsessão central do seu dia-a-dia; mas que, por um acaso que a seu tempo o leitor des­cobrirá, vê-se obrigado, entre dois assassinatos que bali­zam os acontecimentos, a enve­redar por caminhos e a viver situações de todo inusitadas, num terror constante em que «o silêncio multiplica ideias» que o vão dilacerando. (…) Eis um texto que, a todos os níveis, surpreenderá o leitor. E como uma boa estória (um bom romance aberto) é aquela que, no fim, nos confronta com múltiplos possíveis horizontes, assim acon­tece aqui: «E no silêncio ouço-me, há uma voz que sussurra: espera, espera só mais um pouco.» Espera: paciência e esperança. Que futuro estará reservado a Mateus?
José Ferraz Diogo, Excerto das Palavras de abertura

Fonte: pesquisa.fnac.pt/ia331018/Sonia-Cravo‎





09 novembro 2013

Outras Estantes: Os Maias Revisitados - Parte 12

João da Ega: Memórias de um Átomo
Seis romancistas 'inventam' um início para o romance que a famosa personagem d'Os Maias desejava escrever e o sétimo imagina a sua estrutura.
2) Miguel Real 

No princípio criou Deus os céus e a terra. E Deus fez-me como ser luminoso. De mim nasceu o primeiro luzeiro e brilhou a primeira luz.
Rompi as trevas que havia e viu-se, entre o abismo hiante das profundezas do Nada, a face de Deus pairando sobre as águas.
E disse Deus, haja luz. E houve luz. Por todos os céus estrelares penetraram as minhas vibrações incandescentes, aclarando os mais ínfimos vórtices de matéria. E luz houve, organizando o caos e banhando de claridade as trevas mais fundas do fundo sem fundo do universo. E com a luz, houve o Tempo, que desde então não cessou de se movimentar, consumindo-me a força vital. São os meus dois filhos, que me esgotarão a vida - o Tempo e o Movimento -, que patriarca um só tenho: Deus, meu Senhor e Criador. Eu, templo de matéria, seu escravo.
Chamou-me Deus à expansão da vida. Da luz nasce o calor, do calor a vida e a vida inundou a terra vazia e sem forma. Separou Deus o céu alvo e a terra escura e, como um berlinde nas mãos de uma criança, acionou a redonda terra, fazendo-a girar infinitamente até o longínquo limite dos tempos e das eras. Fui eu a primeira partícula a beijar de luz a sagrada terra, antes mesmo de esta para todo o sempre ser beijada pelo magnificente sol. Ao esplendor do sol chamou Deus dia e noite ao fulgor prateado da lua. E criou Deus os viventes do dia e os viventes da noite.
Eu, atraído pela potência do astro-rei, pairava a uma velocidade absoluta entre a terra e o sol, criando, na escuridão do vasto espaço gelado e imóvel, uma fímbria de luminosidade que atraiu o santo olhar divino. Por misericórdia, Deus libertou-me da minha prisão gravitacional. Senti-me projetado para a terra, arremessado para o centro da pupila de Adão, que, puro e virginal, lançava o primeiro olhar de desejo para as carnes roliças e ardentes de Eva.
Fonte: JL   


Post relacionado:
Outras Estantes: Os Maias Revisitados - Parte 11 

02 novembro 2013

Outras Estantes: Um romance burlesco


Pedro Sena-Lino
Despaís. Como suicidar um país
Porto Editora
336 pp
15,50 euros

Por Miguel Real
(Os Dias da Prosa)-JL

Romance de intervenção, um dos raríssimos romances burlescos portugueses publicados este século, Despaís. Como suicidar um país, de Pedro Sena-Lino, evidencia-se como uma narrativa de revolta contra o sentido político das instituições sociais atualmente reinantes em Portugal e de denúncia contra as elites que as têm dominado, nomeadamente o Estado, provocando intencionalmente o afundamento político, económico e, sobretudo, civilizacional do país, levando-o ao "suicídio" (um referendo popular sobre a extinção de Portugal promovido pela "Plataforma Viriato", de extrema-direita)
Pedro Sena-Lino (PSL), conhecido crítico literário e professor de escrita criativa, pertencente a uma nova geração de emigrantes culturais involuntários, publicou, no campo do romance, 333 (2009). Este seu primeiro romance impressionou seja, como autor, pela erudição histórico-literária e bibliófila de alto nível, seja, ao nível da estrutura de composição, pela capacidade narrativa de criação de múltiplas breves histórias sem perda da unidade estética do texto. Foi um belíssimo romance de estreia.
Despaís. Como suicidar um país possui um estatuto radicalmente diferente. Radicado no ano de 2023, consiste num texto de intervenção social e política destinado a dar voz romanesca a uma nova geração ( a geração dos "precários") e a fazer "despertar" a consciência de revolta da maioria dos leitores, levando-os a uma espécie de insurreição popular. É um texto com explícito e evidente destinatário: o leitor humanista, letrado, com conhecimentos históricos, que assiste hoje, impotente, desprovido de mecanismos instituicionais para fazer valer o seu protesto, à humilhação e ao aviltamento de Portugal operados por uma elite classificada no romance como "neoliberal", elite que, a um nível mais profundo, se encontra apostada em retirar todas as benesses que tinham feito dos portugueses um povo com uma qualidade de vida europeia - justamente, uma das medidas económicas de que a elite política se serve para compensar o défice do Estado consiste no pagamento direto do ensino básico pelos país, anulando o ensino gratuito em Portugal.
Qual o instrumento literário que o autor usa para denunciar e desmascarar a pretensa elite aviltadora da história e dos valores tradicionais de Portugal?
Em primeiro lugar, a sátira, caricaturando e ridicularizando as suas personagens representativas. Assim são trabalhadas as personagens do primeiro-ministro, Sebastião Afonso, o "Capitão Franguinhas", um homossexual fellinesco traumatizado pela história ilustre da família e por uma antiga relação carnal em Berlim com um enigmático Hans, os ministros, os assessores, as secretárias de Estado, as secretárias pessoais, a personagem do "gestor", com a absolutização do jargão económico, como se a anãlise do todo da sociedade se reduzisse a esta ciência, a da "velha", exemplo de mulher idosa e pobre, "Afonso", exemplo de menino exitencialmente desorientado pela mudança brusca de comportamento do país (de gastos ostentatórios para escassez absoluta, expulsos de casa por impossilidade de pagamento da prestação mensal ao banco).
Em segundo lugar, aperfeiçoando o elemento satírico, PSL, em inúmeras situações e sobretudo na caracterização do ministro das Finanças, Judas da Silva, apaniguado do "Quadrado" (substituro da troika com a entrada da FICO, Associação Internacional de Empresas Financeiras), arrasta o texto para o elemento burlesco.
Judas da Silva é, de facto, uma verdadeira personagem burlesca, centro de um autêntico carnaval de efeitos grotescos, cujas consequências se evidenciam pela sua natureza extremada, a começar pela intenção monstruosa e disforme que move a personagem ao longo de todo o texto: levar à falência a maioria dos cidadãos, forçá-los a endividarem-se à FICO, que lhes fica com as casas para destruir prédios, já que só está interessada nos terrenos, vendidos posteriormente a sociedades financeiras internacionais para fins turísticos e de divertimento. Assim são vendidos o Sul e o Centro de Portugal, país que fica reduzido ao Norte, destinado pela FICO a ser dirigido pelo "traidor" Judas da Silva como prémio pela sua ação destruidora, gorada no entanto pela intervenção do presidente da Assembleia da República e pelo Presidente da República, dois políticos humanistas, e pelas tropas espanholas.
Uma personagem burlesca exige situações burlescas. E é assim que dois terços de Portugal é vendido, que se estuda a venda dos Mosteiro dos Jerónimos a uma empresa asiática, que se promove um referendo sobre o fim de Portugal, cuja população resistente, comandada pelo jornalista Bartolomeu Henriques, embarca nas "Crisias" e regressa ao mar: prefere a expectante incerteza do mar à total incerteza da vida em Portugal, país governado por elites autistas e interesseiras.
Texto a necessitar de uma última revisão estilística (percebe-se que foi escrito sob o fogo da paixão da revolta e o fulgor da atualidade), é, no entanto, um ótimo exemplo da intervenção empenhada do artista na cidade, fazendo valer o seu protesto e a sua indignação, não por meios convencionais, como os restantes cidadãos, mas em forma de texto narrativo, usando como instrumento, neste caso, um estilo satírico e burlesco. Outra coisa não fizeram Gil Vicente, o Eça d'A Relíquia, o Camilo d' A Queda de um Anjo, o Saramago de Ensaio sobre a Lucidez, o Lobo Antunes d' As Naus, o Rui Zink d' A Instalação do Medo e tantos outros.

Texto relacionado: 
Como suicidar um país

29 outubro 2013

Dica Literária da Semana- O Livro Negro de Hilary Mantel

Se você não tem, compre.
Se você já comprou, leia.
Se você já leu, resenhe.
Se você já resenhou, releia.




O livro Negro
Hilary Mantel
Tradução de Miguel Freitas da Costa
Civilização
440 pp
Temática: Literatura, Romance
17,50 euros


Com O Livro Negro, Hilary Mantel entrou na restrita elite dos escritores de língua inglesa que ganharam duas vezes o prestigiado Man Booker Prize. O feito afigurou-se ainda maior do que o alcançado pelos seus pares (Peter Carey, em 1988 e 2001, e J. M. Coetzee, em 1983 e 1999), porque o foi em dois livros consecutivos. Na verdade, O Livro Negro (Bring Up The Bodies em inglês) é a continuação de Wolf Hall e o relato de uma época extraordinária: a Inglaterra de Henrique VIII. A ação centra-se em Thomas Cromwell, primeiro-ministro do rei, e a sua fulgurosa ascensão.É ele que terá de resolver os problemas causados pelo coração bamboleante do monarca, agora apaixonado por Jane Seymour. "A gerir a política da corte, Cromwell tem de encontrar uma solução que satisfaça Henrique VIII, salvaguarde a nação e assegure a sua própria carreira", como se lê na contracapa. História que parece ficção, ficção que se confunde com a História, numa prosa que consegue penetrar os segredos que a passagem do tempo oculta mas que a imaginação de Mantel ilumina.
Fonte: JL 
Leia mais:
O Livro Negro (Primeiras páginas)


Veja também: 
Wolf Hall  
Video: 

Wolf Hall, Hilary Mantel - Civilização Editora


26 outubro 2013

Outras Estantes: Oa Maias Revisitados - Parte 11

João da Ega: Memórias de um Átomo
Seis romancistas 'inventam' um início para o romance que a famosa personagem d'Os Maias desejava escrever e o sétimo imagina a sua estrutura.
1) Manuel Jorge Marmelo 

Eis que posso beneficiar, enfim, de algum sossego após as mil atribulações em que desde o início dos tempos me tenho visto confundido, eternamente em bolandas (1).
A existência de um átomo não é coisa amena nem descontraída, bem pelo contrário, condenado, como é da nossa condição, a participar em contínuo na grande azáfama (4) da reinvenção das matérias mais vulgares do mundo. Entre ser grão de pó e luz das estrelas, já perdi já a noção de quantas substâncias incorporei no decurso do grande tropel do universo, mas não a sua recordação, pois que desde o momento inicial tenho impresso no mais íntimo do núcleo a memória de tudo o que hei de ser até o momento em que tudo se extinga e volva a ser nada. O mais complexo é contá-lo e incluir nisto alguma ordem inteligível. Um átomo não conhece o tempo: existe desde sempre e para sempre - como se, numa comédia, se condensasse o curso da história num único e íntimo instante, numa palavra mínima que resumisse tudo. Hu.
Na fração do ininterrupto em que transitoriamente estacionei, insignificante parcela absoluta no corpo de um escritor de novelas, forcejarei, em todo o caso, por dar sentido e continuidade ao que é amálgama (2) e caos. Redigirei as minhas memórias como se, com voz grave de contador de casos, as narrasse a partir do futuro, de um lapso do espaço-tempo que não existe e é apenas amálgama e quantum (3), eternidade.
Era uma vez, pois, o início do mundo.
(Fonte: JL)

Vocabulário: 
1) Bolandas: s. f. pl. || baldões, tombos. [Usa-se na locução andar em bolandas.] F. talvez do cast. Volandas

2) Amálgama:. Fig. Mistura de coisas ou pessoas de natureza diferente, formando um todo: "Homens de todas as cores, amálgamas de diversas raças..." (Euclides da Cunha, Os sertões.)

3) Quantum: sm. 1. Fís. A menor quantidade, indivisível, de energia eletromagnética.

4) Azáfama: sf.1. Grande pressa e dedicação na execução de um trabalho, de uma tarefa etc.: "(...) um menino que entrava e saía sem descanso, numa azáfama dos diabos (...)" (Adolfo Caminha, A normalista))

(Fonte: http://aulete.uol.com.br)


Complemento: 

João da Ega

Amigo e confidente de Carlos da Maia e filho de uma viúva rica e beata, de Celorico de Basto.

Caracterização física:

Ega usava “um vidro entalado no olho”, tinha “ nariz adunco, pescoço esganiçado, punhos tísicos, pernas de cegonha” – retrato idêntico ao de Eça.

João da Ega é a projecção literária de Eça de Queirós.

Personagem contraditória – por um lado, romântico e sentimental, por outro, progressista e crítico sarcástico do Portugal do Constitucionalismo.


  • Diletante, concebe grandes projectos literários que nunca chega a realizar


(Fonte: http://osmaiasemanalise.wikispaces.com/Personagens+Secund%C3%A1rias)


Post relacionado:
Outras Estantes: Os Maias Revisitados - Parte 10 

21 outubro 2013

Dica Literária da Semana: Frank - O Andarilho de Sérgio Ribas

Se você não tem, compre.
Se você já comprou, leia.
Se você já leu, resenhe.
Se você já resenhou, releia.



Livro: Frank - O Andarilho

Autor: Sérgio Ribas
Editor: Glaciar
Lançamento: Março/13
Nº de páginas: 96
Tema: Ficção
Preço: 11,95 euros

Frank e Karl falam. A peça acabou e o show continua. Antes? Depois? Entretanto? Frank e Karl falam. Sobre tudo e sobre nada, mas conscientes que cada termo deve ser entendido na sua total propriedade, que até o que pode parecer vazio está cheio de possíveis reflexões. Há uma carta de amor. Antes? Depois? E há Frank e Karl perguntando ao leitor quem são. Caber-lhe-á descobrir. Sérgio Ribas responder-lhe-á. Ou não.
Estudou engenharia e é construtor civil, com uma carreira muito bem-sucedida. Mas Sérgio Ribas surgiu na literatura brasileira como uma novidade. O personagem principal dos seus três livros conquistou os leitores, sobretudo pelas conversas hilariantes e divertidas que mantém com o seu conselheiro. Como diz o autor, "Frank e Karl falam. Sobre tudo e sobre nada, mas conscientes que cada termo deve ser entendido na sua total propriedade, que até cheio de possíveis reflexões". Noutra apresentação, Sérgio Ribas diz: "Num jogo interessante e divertido, misturando sonho e realidade num mundo ora real ora irreal, Frank, nosso personagem, que representa um pouco de cada um, e seu inseparável conselheiro, Karl, vivem e discutem as características típicas das pessoas, as pitorescas, as divertidas, e também as doentias, dentre tantas outras, neste livro que se propõe fundamentalmente a ser divertido e agradável aos queridos leitores, bem como profundo e intrigante, buscando provocar reflexões interessantes."  Frank O Andarilho, o primeiro título do autor a ser publicado em Portugal, é o terceiro da série, que arrancou com Frank e Frank no Grande Palco.
Fonte: JL

  Livro Frank no grande palco - 2006 da editora Alínea e Átomo                                               Livro Frank - O Andarilho da editora Alínea e Átomo
Editora Alínea e Átomo




19 outubro 2013

Outras Estantes: Cinema de bolso

Depois de Rapace (2006), de João Nicolau, um filme português voltou a ganhar a competição internacional do Curtas de Vila do Conde. Carosello, de Jorge Quintela, é um filme de bolso, como lhe chama o próprio realizador, feito com a câmara fixa (com dois planos sobrepostos) e uma narração em voz off. O realizador de 21 anos  também apresentou Ausstieg, na Competição Experimental do Curtas.
Uma nova geração de curtas
A grande surpresa de Vila do Conde não foi o facto do grande prêmio ter sido atribuído a um filme português. Tal já havia acontecido, em 2006, com Rapace, o primeiro filme de João Nicolau. A grande surpresa foi este prémio ter sido atribuído a Jorge Quintela, um realizador principiante, de apenas 21 anos, com um filme de bolso, Carosello, de produção minimalista.Como havia feito no passado com Sandro Aguilar, Miguel Gomes, João Nicolau, António Ferreira, Rodrigo Areias ou, mais recentemente, Basil da Cunha, o Curtas inscreve o nome de Jorge Quintela num palmares dourado, dando visibilidade a uma nova geração, já distante daquela que deu nas vistas no final da década de 90, princípio dos anos 2000, e também com diferentes argumentos. Carosello é minimalista na sua forma. Só há um plano de câmara. À imagem de um carrossel italiano sobrepõe-se a de um homem a falar. Em voz off o seu discurso entre a nostalgia e o humor. Nada mais foi preciso para convencer o júri. Na competição nacional, curiosamente, destacou-se a estreia na realização de Telmo Churro, com Rei inútil. O realizador já há muito que trabalha no cinema, sobretudo na equipa da produtora O Som e a Fúria. Uma estreia feliz, com um humor peculiar, no retrato de um jovem e no seu universo, em que o onírico, por vezes, ganha um peso real. Este palmarés surpreendente deixou de fora alguns dos favoritos como Gambozinos, de João Nicolau (ganhou honrosa no Curtinhas), O Corpo de Afonso( aviso importante, contém cena imprópria para menores), de João Pedro Rodrigues, ou Tabatô, de João Viana.
Na competição internacional, o prémio de ficção foi para uma das grandes cinematografias europeias que precisa de ajuda, devido ao desinvestimento do estado na cultura: a Hungria. Chuva Suave é uma produção húngaro-belga, com realização de Denes Nagy, que num contexto rural (mas sem a arte de Bela Tarr) desvenda a história de um órfão que se apaixona por uma rapariga, mas que tem que descobrir os códigos dos jogos do amor. O prémio de documentário ficou em Espanha, com Bom Dia Resistência, de Adrian Orr. Uma ideia simples e eficaz, conta apenas uma manhã de um pai de três filhos nos arredores de Madrid. Na animação, sem grandes surpresas, foi premiada a imaginação de Gloria Victoria, a conclusão da trilogia de Theodore Ushev, iniciada com Tower Bawher e Drux Flux. Também sem grandes surpresas, o prêmio experimental foi para Cut, de Cristophe Girardet e Mathias Muller, presenças assíduas no Curtas.


 Entrevista:

 Já tinha sido selecionado para Vila do Conde com o filme O Amor é a Solução para a Falta de Argumento, mas acaba por vingar com Carrosello, uma ideia bastante mais simples, quase minimal.Surpreendido?
Carossello e Ausstieg são filmes de bolso, trabalhados com o argumentista Pedro Bastos, que obedecem a premissas. Há um trabalho com a imagem e a palavra. Estabelece-se como regras o uso de um só plano e a narração através de uma personagem. Os filmes partem de uma imagem registada sem a pretensão de transformar em filme. Só ao rever as imagens captadas surge a necessidade de construir uma narrativa.

O conceito de filme de bolso tem que ver apenas com a produção ou também com a forma como os filmes são recebidos? São filmes a pensar em telemóveis e tablets? 
Não necessariamente. O conceito originário de filme de bolso é do meu amigo Paulo Abreu, que tem há alguns anos umas séries chamadas pocket movies, numa lógica de produção reduzida, mas sem as mesmas premissas. A ideia tem a ver com a contenção na estrutura de produção e não com o seu visionamento. O filme foi feito a pensar na sala de cinema.

Temos falado em cinema experimental, mas contudo o seu filme não é abstrato, há uma personagem concreta que nos fala da sua vida... 
A narrativa não é de todo experimental. Até é bastante linear. A experiência está no processo e no artefacto. Mas a barreira entre a ficção convencional e o experimental, em geral, é cada vez mais ténue, vai-se quebrando.

Optou por estes filmes de bolso por uma questão estética ou por necessidade financeira, devido à falta de financiamento?
É um conjunto de fatores. Comecei a fazer estes filmes de bolso em 2010, porque era a única forma de satisfazer o meu desejo de realizar, na ausência de uma estrutura que me apoiasse. Mais tarde acabei por contar com o Bando à Parte e o Rodrigo Areias. E a verdade é que essa estrutura existe porque já foi financiada.

Por que motivo o filme é falado em italiano?
A imagem do carrossel foi filmada na Praça da República, em Florença. Só mais tarde, ao ver esse plano, tive a ideia de filmar uma narrativa. O Ausstieg foi filmado em Berlim e é falado em alemão. Um dos desafios destes filmes de bolso é tentar construir uma personagem dando uma visão sobre a cultura do país em causa.

Que perspetivas se abrem com este prémio? 
Dado o seu caráter experimental, surpreendeu-me logo á partida que o filme fosse selecionado para a Competição Nacional. Por isso, o prémio foi uma grande surpresa. Vai permitir que este e os próximos filmes tenham mais visibilidade. O meu próximo projeto não é um filme de bolso, mas uma curta-metragem, com os meios normais de produção, que recebeu apoio do ICA em 2011.

Destaque : A barreira entre a ficção convencional e o experimental, em geral, é cada vez mais ténue, vai-se quebrando. 

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