Mostrando postagens com marcador Literatura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Literatura. Mostrar todas as postagens

24 setembro 2016

A literatura e os estágios psicológicos da criança

Durante o seu desenvolvimento, a criança passa por estágios psicológicos que precisam ser observados e respeitados no momento da escola de livros para ela. Essas etapas não dependem exclusivamente de sua idade, mas de acordo com Coelho (2002) do seu nível de amadurecimento psíquico, afetivo e intelectual e seu nível de conhecimento e domínio do mecanismo da leitura. Neste sentido, é necessária a adequação dos livros às diversas etapas pelas quais a criança normalmente passa. Existem cinco categorias que norteiam as fases do desenvolvimento psicológico da criança: o pré-leitor, o leitor iniciante, o leitor-em-processo, o leitor fluente e o leitor crítico.
O pré-leitor: categoria que abrange duas fases.Primeira infância (dos 15/17 meses aos 3 anos) Nesta fase a criança começa a reconhecer o mundo ao seu redor através do contato afetivo e do tato. Por este motivo ela sente necessidade de pegar ou tocar tudo o que estiver ao seu alcance. Outro momento marcante nesta fase é a aquisição da linguagem, onde a criança passa a nomear tudo a sua volta. A partir da percepção da criança com o meio em que vive, é possível estimulá-la oferecendo-lhe brinquedos, álbuns, chocalhos musicais, entre outros. Assim, ela poderá manuseá-los e nomeá-los e com a ajuda de um adulto poderá relacioná-los propiciando situações simples de leitura.
Segunda infância (a partir dos 2/3 anos) É o início da fase egocêntrica. Está mais adaptada ao meio físico e aumenta sua capacidade e interesse pela comunicação verbal. Como interessa-se também por atividades lúdicas, o “brincar”com o livro será importante e significativo para ela.
Nesta fase, os livros adequados, de acordo com Abramovich (1997) devem apresentar um contexto familiar, com predomínio absoluto da imagem que deve sugerir uma situação. Não se deve apresentar texto escrito, já que é através da nomeação das coisas que a criança estabelecerá uma relação entre a realidade e o mundo dos livros.
Livros que propõem humor, expectativa ou mistério são indicados para o pré-leitor.
A técnica da repetição ou reiteração de elementos são segundo Coelho (2002, p.34) “favoráveis para manter a atenção e o interesse desse difícil leitor a ser conquistado”. O leitor iniciante (a partir dos 6/7 anos) Essa é a fase em que a criança começa a apropriar-se da decodificação dos símbolos gráficos, mas como ainda encontra-se no início do processo, o papel do adulto como “agente estimulador” é fundamental.
Os livros adequados nesta fase devem ter uma linguagem simples com começo, meio e fim. As imagens devem predominar sobre o texto. As personagens podem ser humanas, bichos, robôs, objetos, especificando sempre os traços de comportamento, como bom e mau, forte e fraco, feio e bonito. Histórias engraçadas, ou que o bem vença o mal atraem muito o leitor nesta fase. Indiferentemente de se utilizarem textos como contos de fadas ou do mundo cotidiano, de acordo com Coelho (ibid, p. 35) “eles devem estimular a imaginação, a inteligência, a afetividade, as emoções, o pensar, o querer, o sentir”.
O leitor-em-processo (a partir dos 8/9anos) A criança nesta fase já domina o mecanismo da leitura. Seu pensamento está mais desenvolvido, permitindo-lhe realizar operações mentais. Interessa-se pelo conhecimento de toda a natureza e pelos desafios que lhes são propostos. O leitor desta fase tem grande atração por textos em que haja humor e situações inesperadas ou satíricas. O realismo e o imaginário também agradam a este leitor. Os livros adequados a esta fase devem apresentar imagens e textos, estes, escritos em frases simples, de comunicação direta e objetiva. De acordo com Coelho (2002) deve conter início, meio e fim. O tema deve girar em torno de um conflito que deixará o texto mais emocionante e culminar com a solução do problema.
O leitor fluente (a partir dos 10/11 anos) O leitor fluente está em fase de consolidação dos mecanismos da leitura. Sua capacidade de concentração cresce e ele é capaz de compreender o mundo expresso no livro. Segundo Coelho (2002) é a partir dessa fase que a criança desenvolve o “pensamento hipotético dedutivo” e a capacidade de abstração. Este estágio, chamado de pré-adolescência, promove mudanças significativas no indivíduo. Há um sentimento de poder interior, de ver-se como um ser inteligente, reflexivo, capaz de resolver todos os seus problemas sozinhos. Aqui há uma espécie de retomada do egocentrismo infantil, pois assim como acontece com as crianças nesta fase, o pré-adolescente pode apresentar um certo desequilíbrio com o meio em que vive.
O leitor fluente é atraído por histórias que apresentem valores políticos e éticos, por heróis ou heroínas que lutam por um ideal. Identificam-se com textos que apresentam jovens em busca de espaço no meio em que vivem, seja no grupo, equipe, entre outros.É adequado oferecer a esse tipo de leitor histórias com linguagem mais elaborada. As imagens já não são indispensáveis, porém ainda são um elemento forte de atração. Interessam-se por mitos e lendas, policiais, romances e aventuras. Os gêneros narrativos que mais agradam são os contos, as crônicas e as novelas.
O leitor crítico (a partir dos 12/13 anos) Nesta fase é total o domínio da leitura e da linguagem escrita. Sua capacidade de reflexão aumenta, permitindo-lhe a intertextualização. Desenvolve gradativamente o pensamento reflexivo e a consciência crítica em relação ao mundo. Sentimentos como saber, fazer e poder são elementos que permeiam o adolescente. O convívio do leitor crítico com o texto literário, segundo Coelho (2002, p.40) “deve extrapolar a mera fruição de prazer ou emoção e deve provocá-lo para penetrar no mecanismo da leitura”.
O leitor crítico continua a interessar-se pelos tipos de leitura da fase anterior, porém, é necessário que ele se aproprie dos conceitos básicos da teoria literária. De acordo com Coelho (ibid, p.40) a literatura é considerada a arte da linguagem e como qualquer arte exige uma iniciação. Assim, há certos conhecimentos a respeito da literatura que não podem ser ignorados pelo leitor crítico.
Conclusão
Desenvolver o interesse e o hábito pela leitura é um processo constante, que começa muito cedo, em casa, aperfeiçoa-se na escola e continua pela vida inteira. Existem diversos fatores que influenciam o interesse pela leitura. O primeiro e talvez mais importante é determinado pela “atmosfera literária” que, segundo Bamberguerd (2000, p.71) a criança encontra em casa. A criança que houve histórias desde cedo, que tem contato direto com livros e que seja estimulada, terá um desenvolvimento favorável ao seu vocabulário, bem como a prontidão para a leitura.
De acordo com Bamberguerd (2000) a criança que lê com maior desenvoltura se interessa pela leitura e aprende mais facilmente, neste sentido, a criança interessada em aprender se transforma num leitor capaz. Sendo assim, pode-se dizer que a capacidade de ler está intimamente ligada a motivação. Infelizmente são poucos os pais que se dedicam efetivamente em estimular esta capacidade nos seus filhos. Outro fator que contribui positivamente em relação à leitura é a influência do professor. Nesta perspectiva, cabe ao professor desempenhar um importante papel: o de ensinar a criança a ler e a gostar de ler.
Professores que oferecem pequenas doses diárias de leitura agradável, sem forçar, mas com naturalidade, desenvolverão na criança um hábito que poderá acompanhá-la pela vida afora. Para desenvolver um programa de leitura equilibrado, que integre os conteúdos relacionados ao currículo escolar e ofereça uma certa variedade de livros de literatura como contos, fábulas e poesias, é preciso que o professor observe a idade cronológica da criança e principalmente o estágio de desenvolvimento de leitura em que ela se encontra. De acordo com Sandroni & Machado (1998, p.23) “o equilíbrio de um programa de leitura depende muito mais do bom senso e da habilidade do professor que de uma hipotética e inexistente classe homogênea”.
Assim, as condições necessárias ao desenvolvimento de hábitos positivos de leitura, incluem oportunidades para ler de todas as formas possíveis. Freqüentar livrarias, feiras de livros e bibliotecas são excelentes sugestões para tornar permanente o hábito de leitura.
Num mundo tão cheio de tecnologias em que se vive, onde todas as informações ou notícias, músicas, jogos, filmes, podem ser trocados por e-mails, cd’s e dvd’s o lugar do livro parece ter sido esquecido. Há muitos que pensem que o livro é coisa do passado, que na era da Internet, ele não tem muito sentido. Mas, quem conhece a importância da literatura na vida de uma pessoa, quem sabe o poder que tem uma história bem contada, quem sabe os benefícios que uma simples história pode proporcionar, com certeza haverá de dizer que não há tecnologia no mundo que substitua o prazer de tocar as páginas de um livro e encontrar nelas um mundo repleto de encantamento.
Se o professor acreditar que além de informar, instruir ou ensinar, o livro pode dar prazer, encontrará meios de mostrar isso à criança. E ela vai se interessar por ele, vai querer buscar no livro esta alegria e prazer. Tudo está em ter a chance de conhecer a grande magia que o livro proporciona. Enfim, a literatura infantil é um amplo campo de estudos que exige do professor conhecimento para saber adequar os livros às crianças, gerando um momento propício de prazer e estimulação para a leitura.
 
Parte do Trabalho científico apresentado à Universidade Estadual Vale do Acaraú - UVA, como requisito parcial para a obtenção do Título de graduada em Licenciatura Específica em Português.
ELINE FERNANDES DE CASTRO
Publicado em Portal R7 - Brasil Escola

 
E vocês foram incentivados desde da infância e incentivam seus filhos a prática da leitura?

10 setembro 2016

Qual era o livro mais vendido no ano em que você nasceu?

Texto de Pamela Carbonari - Superinteressante

Compilamos os maiores best-sellers de ficção: para selecionar os hits literários no Brasil recorremos à lista dos mais vendidos da revista Veja. Também utilizamos a lista do The New York Times para encontrar as obras mais compradas pelos americanos nas últimas quatro décadas. Boa leitura!
1975

Brasil – Gabriela, Cravo e Canela, Jorge Amado

Estados Unidos – A Saga do Colorado, James Michener

1976

Brasil – Araceli, Meu Amor, de José Louzeiro

Estados Unidos – Triniy, Leon Uris

1977

Brasil –

Estados Unidos – Pássaros Feridos, Colleen McCullough

1978

Brasil- Conversa na Catedral, Mario Vargas Llosa

Estados Unidos – A Herdeira, Sidney Sheldon

1979

Brasil – Farda, Fardão, Camisola de Dormir, Jorge Amado

Estados Unidos – O círculo Matarese, Robert Ludlum

1980

Brasil- A Falta que Ela me Faz, Fernando Sabino

Estados Unidos- A identidade Bourne, Robert Ludlum

1981

Brasil- Crônicas de uma morte anunciada, Gabriel García Márquez

Estados Unidos- Os Rebeldes, James Michener

1982

Brasil – O Analista de Bagé, Luis Fernando Veríssimo

Estados Unidos – O Mosaico de Parsifal, Robert Ludlum

1983

Brasil – A Velhinha de Taubaté, Luis Fernando Veríssimo

Estados Unidos – A Garota do Tambor, John Le Carré

1984

Brasil – Tocaia Grande, Jorge Amado

Estados Unidos – Operação Aquitânia, Robert Ludlum

1985

Brasil – A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera

Estados Unidos – Tripulação de Esqueletos, Stephen King

1986

Brasil – A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera

Estados Unidos – A Coisa, Stephen King

1987

Brasil – As Brumas de Avalon, Marion Zimmer Bradley

Estados Unidos – O Preço do Amor, Danielle Steel

1988

Brasil – As Brumas de Avalon, Marion Zimmer Bradley

Estados Unidos – O Cardeal do Kremlin, Tom Clancy

1989

Brasil – As Areias do Tempo, Sidney Sheldon

Estados Unidos – A casa da Rússia, John Le Carré

1990

Brasil – Diário de um Mago, Paulo Coelho
Estados Unidos – O Ônus da Prova, Scott Turow

1991

Brasil – O Alquimista, Paulo Coelho
Estados Unidos – Scarlett, Alexandra Ripley

1992

Brasil – O Alquimista, Paulo Coelho
Estados Unidos- O Dossiê pelicano, John Grisham

1993

Brasil – Noite sobre as Águas, Ken Follett
Estados Unidos – As Pontes de Madison, Robert James Waller

1994

Brasil – Brida, Paulo Coelho
Estados Unidos – A Profecia Celestina, James Redfield

1995

Brasil – Comédias da Vida Privada, Luis Fernando Veríssimo

Estados Unidos – A Profecia Celestine, James Redfield

1996

Brasil – O Mundo de Sofia, Jostein Gaarder

Estados Unidos – Segredos do Poder, Joe Klein

1997

Brasil – O Mundo de Sofia, Jostein Gaarder

Estados Unidos – A Montanha Gelada, Charles Frazier

1998

Brasil – O Livro das Virtudes para Crianças, William j. bennett

Estados Unidos – O Advogado, John Grisham

1999

Brasil – O Homem que Matou Getúlio Vargas, Jô Soares

Estados Unidos – O Testamento, John Grisham

2000

Brasil – Harry Potter e a Pedra Filosofal, J.K Rowling
Estados Unidos – A Confraria, John Grisham

2001

Brasil – Harry Potter e a Pedra Filosofal, J.K. Rowling

Estados Unidos – O diário de Suzana para Nicolas, James Patterson
2002

Brasil – Harry Potter e a Câmara Secreta, J.K. Rowling
Estados Unidos – The Lovely Bones, Alice Sebold

2003

Brasil – Onze Minutos, Paulo Coelho

Estados Unidos – O Código da Vinci, Dan Brown
2004

Brasil – Budapeste, Chico Buarque

Estados Unidos – O Código da Vinci, Dan Brown
2005

Brasil – Fortaleza Digital, Dan Brown

Estados Unidos – O Corretor, John Grisham

2006

Brasil – Quando Nietzsche Chorou, Irvin D. Yalom

Estados Unidos – For One More Day, Mitch Albom

2007

Brasil – A Cidade do Sol, Khaled Hosseini

Estados Unidos – A Cidade Do Sol, Khaled Hosseini

2008

Brasil – A Menina que Roubava Livros, Markus Zusak
Estados Unidos – O Recurso, por John Grisham

2009

Brasil – A Cabana, William Young
Estados Unidos – O Símbolo Perdido, Dan Brown
2010

Brasil – A Cabana, William P. Young
Estados Unidos – A Rainha do Castelo de Ar, Stieg Larsson

2011

Brasil – A Guerra dos Tronos, George R. R. Martin

Estados Unidos – A Resposta, Kathryn Stockett

2012

Brasil – A Escolha, de Nicholas Sparks
Estados Unidos – Cinquenta Tons de Cinza, E. L. James
2013

Brasil – Inferno, Dan Brown

Estados Unidos – Um Porto Seguro, Nicholas Sparks
2014

Brasil – A Culpa é das Estrelas, John Green
Estados Unidos – O Pintassilgo, Donna Tartt

2015

Brasil – O Pequeno Príncipe, Antoine de Saint-Exupéry
Estados Unidos – A Garota no Trem, Paula Hawkins

Apesar de não ter os do ano que nasci(1960), acredito que na época não houvesse essa pesquisa, já li 6 livros. Os livros em negrito foram os que já li.

Os que tenho na estante:
  1. Diário de um Mago, Paulo Coelho
  2. Noite sobre as Águas, Ken Follett
  3.  Brida, Paulo Coelho
  4. O diário de Suzana para Nicolas, James Patterson
  5. O Código da Vinci, Dan Brown
  6. Fortaleza Digital, Dan Brown
  7. A Cabana, William Young
  8. O Símbolo Perdido, Dan Brown
  9. A Escolha, de Nicholas Sparks
  10. Cinquenta Tons de Cinza, E. L. James
  11.  Inferno, Dan Brown
  12.  Um Porto Seguro, Nicholas Sparks
  13. A Culpa é das Estrelas, John Green
Bom. tenho mais livros para ler do que lidos. Apenas três dessa lista estão na minha lista de leituras para este ano. 

E vocês já leram alguns desses livros da lista ou não tem interesse em lê-los?









17 fevereiro 2013

Eu leio Brasil. E você?


Eu leio Brasil


A literatura nacional pede socorro.
O que está acontecendo é que as obras brasileiras não estão recebendo o trato que merecem. Basta entrar em qualquer livraria para perceber a diferença de tratamento. Em destaque, apenas as obras que vêm de fora. Nas listas dos mais vendidos, nomes estrangeiros pipocam e somente de vez em quando surge uma Paula ou um Eduardo para diversificar.
Os marketings das grandes editoras apontam todos os seus canhões para 50 tons de estrangeirismo, enquanto o verde e amarelo fica ofuscado sob o cinza.
Ora, não podemos esquecer que para cá já vêm os best-sellers, testados e retestados no exterior, que já passaram por uma pesada campanha de publicidade.
Mas os daqui ficam relegados a segundo plano, sem que os leitores sequer tenham o direito de escolher se vão comprar ou não. A dinâmica é clara: o consumidor comum entra em uma livraria procurando uma capa que lhe chame atenção, ou uma história que se destaque no meio das outras. Impossível que um livro escondido no meio da prateleira ganhe a parada. Isso, quando pelo menos fica em um canto escondido na livraria, pois na maioria das vezes os títulos nacionais nem chegam às estantes das grandes redes.
Por isso, criei este manifesto. Longe de mim pedir para que as pessoas só leiam os nacionais. Adoro Marians, Sophias e Stephanies e quero muito continuar a lê-las. Mas quero chegar no shopping e ter o direito de escolha entre elas e as Vanessas, Lucianes, Leilas e Carinas. Ah, e Janainas também!
*Precisamos reunir 10.000 assinaturas para mandar este manifesto para a mídia. Vamos fazer o nosso barulho!


Vi esta postagem no blog Livros e Marshmallows e aderi correndo. E vocês?

06 agosto 2012

O bem amado Jorge


Este ano estamos comemorando o centenário de Jorge Amado. Teremos algumas comemorações durante o ano. Para não passar em branco, colocarei aqui um artigo que li sobre ele.

O bem amado Jorge
Por Manoela Ferrari
(Jornal das Letras)

O ano de centenário de Jorge Amado – nascido no dia 9 de agosto de 1912- é uma excelente oportunidade para se fazer uma releitura de um dos mais famosos e traduzidos escritores brasileiros de todos os tempos.
Numericamente atrás apenas do fenômeno Paulo Coelho, a obra de Jorge Amado foi vertida para 49 idiomas e dialetos, editada em 55 países, existindo também exemplares em braille e em fitas gravadas para cegos.
Para saber o total da obra vendido até hoje, a pesquisadora Ilana Goldstein, autora de O Brasil best seller de Jorge Amado (Senac)(1), realizou um levantamento junto às antigas editoras do escritor e estima que o montante se encontre na casa dos 30 milhões. Segundo a autora, Jorge Amado “iniciou  muita gente na leitura e ajudou um país inteiro a aprender a ler”.
Autor mais adaptado da televisão brasileira, a literatura de Jorge Amado- que inclui 25 romances, dois livros de memórias, duas biografias – a do poeta Castro Alves e a do Comunista Luís Carlos Prestes-, duas histórias infantis e uma infinidade de outros trabalhos, entre contos, crônicas e poesias- conheceu inúmeras adaptações também para cinema e teatro, além de ter sido tema de escolas de samba por todo o Brasil.
Por motivos extra literários, a recepção crítica à sua obra variou muito, desde que o autor baiano começou a publicar, nos anos 30. A razão para a divisão de opiniões, segundo a presidente da ABL(Academia Brasileira de Letras), Ana Maria Machado, se deu, entre outros motivos, pelo fato de o autor ter pertencido ao Partido Comunista, por sua associação com  a Bahia ou pela linguagem coloquial. Os livros de Amado sempre foram alvo de fortes ressalvas. A severidade no julgamento fez com que o autor baiano fosse menosprezado nas análises universitárias de letras, apesar de sempre apreciado por antropólogos e sociólogos.
A postura dos críticos literários contribuiu para um certo descrédito de sua obra e possivelmente para o afastamento dos leitores, sobretudo os mais jovens, algo que as reedições iniciadas em 2008 pela Companhia das Letras, têm buscado reverter. O centenário é um momento-chave nessa reconquista, com exposições, seminários, shows, peças teatrais, livros, além de novela e filme. Toda essa movimentação será uma oportunidade para que se renove também o debate sobre a nova relação da literatura e da crítica com os leitores.
Em apoio à proposta de releitura e reconstrução crítica, sobretudo estética do imenso legado do ilustre baiana, a ABL, vem atuando em duas frentes: a nacional e a internacional. No Brasil, está programada uma grande exposição no mês de aniversário do homenageado (agosto), acompanhada de palestras, exibição de um ciclo de filmes e publicação de artigos.
Internacionalmente, a programação também é variada, sempre em parceria com universidades e instituições culturais estrangeiras. A primeira homenagem foi realizada em Paris,  durante o Salon do Livro, de 16 a 18 de março. Na oportunidade, juntamente com a Sorbonne, universidade da qual ele foi Doutor Honoris Causa, criou-se a jornada Jorge Amado, com uma programação incluindo conferências dos acadêmicos Ana Maria Machado, Nélida Piñon e Sergio Paulo Rouanet.
No cinema,  a novidade desse ano de homenagem fica por conta da Warner Bros.Pictures e da Total Filmes, que levarão para as telas o longa-metragem. As fantásticas aventuras de um capitão(2), baseado no livro Os velhos marinheiros(3). Com uma linguagem moderna e direta, o filme é dirigido e roteirizado por Marcos Jorge (premiado diretor de Estomâgo(4)). As filmagens acontecem entre março e maio de 2012, com 90% da produção realizada no Rio de Janeiro.
A sensualidade do romance Gabriela, por sua vez, voltará a ser exibida nas telas da televisão brasileira, em novela da Rede Globo. Com estreia prevista pra junho (5), o remake baseado no livro do autor baiano terá Juliana Paes e Humberto Martins no papel dos protagonistas, Gabriela e Nacib (na primeira versão exibida pela emissora em 1975, o casal era interpretado por Sônia Braga e Armando Bôgus (6)).No mercado editorial, a Companhia das Letras reuniu quatro dos mais famosos livros de Jorge Amado em um kit, que tem como tema as suas personagens femininas. As Obras, que narram as histórias de Dona Flor, Gabriela, Tieta e Teresa Batista, compõem a caixa As Mulheres de Jorge Amado. O item foi lançado em edição limitada e contém os títulos: Gabriela, Cravo e Canela(1958), Dona Flor e Seus Dois Maridos(1966), Teresa Batista Cansada de Guerra(1972), Tieta do Agreste(1977).
Controversa ou polêmica, não importa. A obra de Jorge Amado encerra uma utopia. Há os que o viam como um trivial contador de histórias. Mas há também os que o consideram um mestre do romance. O fato é que o nosso mais popular autor baiano queria fazer uma obra acessível, acreditando que a literatura poderia ser um meio de libertação.

“Sonho com uma revolução sem ideologia,
onde o destino do ser humano,
seu direito a comer, a trabalhar, a amar,
a viver a vida plenamente
não esteja condicionado ao conceito expresso e imposto por
uma ideologia seja ela qual for.
Um sonho absurdo?
Não possuímos direito maior e mais alienável do que o direito
ao sonho.
O único que nenhum ditador pode reduzir ou exterminar.”
Jorge Amado.

Retalhos no Mundo
 
 (1) CapaEsse livro chega em boa hora por discutir, sob novo ângulo, um dos mais espinhosos temas no que diz respeito à construção da identidade nacional brasileira: a mestiçagem. Com uma teoria inovadora, que aproxima antropologia e estudos literários, e uma narrativa instigante e bem enredada, a autora dialoga com esse universo complexo e problemático no qual as personagens de Jorge Amado, o cotidiano da cidade de Salvador e a imagem do próprio escritor se imbricam.


(2)


WARNER BROS. PICTURES DISTRIBUIRÁ AS FANTÁSTICAS AVENTURAS DE UM CAPITÃO

A Warner Bros. Pictures e a Total Filmes levarão aos cinemas As Fantásticas Aventuras de um Capitão, longa-metragem baseado no livro Os Velhos Marinheiros, de Jorge Amado. Com uma linguagem moderna e direta, o filme é dirigido e roteirizado por Marcos Jorge (Estômago). A produção conta com cenários grandiosos e numerosos efeitos especiais, comandados pelo renomado produtor criativo Juan Tomicic, ganhador de 8 prêmios Goya, e com a colaboração de Diego Saura, filho do consagrado diretor Carlos Saura. As filmagens acontecem entre março e maio de 2012, com 90% da produção realizada no Rio de Janeiro.
O longa é protagonizado pelo premiado ator português Joaquim de Almeida, que dá vida ao capitão-de-longo-curso Vasco Moscoso de Aragão. Almeida já atuou em mais de 90 filmes e curtas, incluindo “Velozes & Furiosos 5 – Operação Rio”, ”O Xangô de Baker Street” e “Perigo Real e Imediato”, além de participar de séries de TV como “The Mentalist”, “CSI: Miami” e “24 Horas”.
Warner Cinema
As Fantásticas Aventuras de um Capitão conta a história do comandante Vasco Moscoso de Aragão (Joaquim de Almeida) e de sua agitada chegada em uma cidadezinha balneária, a vila de Periperi, situada nas proximidades de um grande município portuário. Já maduro, este pitoresco forasteiro vem para ficar, buscando repouso depois de uma longa vida de aventuras por todos os mares do globo.
O charmoso navegante conquista rapidamente a simpatia e admiração dos moradores. Os homens se reúnem ao seu redor para ouvir histórias do mar e as mulheres suspiram por sua figura romântica. O que não demora a suscitar o despeito de alguns invejosos, em especial do fiscal Chico Pacheco, até então o cidadão mais admirado do local.
José Wilker será Chico Pacheco, que perde popularidade na pacata vila de Periperi com a chegada do comandante Aragão. Desconfiado e enciumado das histórias contadas pelo capitão, Chico resolve investigar sua vida pregressa e o desafia a provar suas habilidades.
O filme discute o tema da construção da verdade e do mito. Avançando e recuando no tempo, apresentando os personagens ora de uma maneira ora de outra, manipulando habilmente o ponto de vista, o roteiro do longa dá espaço à fantasia, mas termina por traçar um retrato verídico da condição e das paixões humanas.
O elenco estelar que completa o filme inclui Claudia Raia, Patricia Pillar, Marcio Garcia, Milton Gonçalves, Mauricio Gonçalves, Tainá Muller, Sandro Rocha, entre outros.
As Fantásticas Aventuras de um Capitão tem direção de Marcos Jorge – diretor de Estômago, filme premiado nos festivais do Rio, de Roterdã, de Punta del Este e pela Academia Brasileira de Cinema – e é produzido pela Total Filmes (Se Eu Fosse Você 1 e 2) com coprodução da Warner Bros. Pictures. As filmagens começam em março de 2012, comemorando o centenário de Jorge Amado.
Fonte:http://www.brasiltvdigital.com
(3) 
OS VELHOS MARINHEIROS OU O CAPITÃO-DE-LONGO-CURSO


Num belo dia de 1929, chega à estação de trem de Periperi - um pacato vilarejo de veraneio na periferia de Salvador - um personagem singular, vestindo túnica de oficial da marinha mercante: comandante Vasco Moscoso de Aragão, capitão-de-longo-curso. Aos sessenta anos, ele se declara cansado de navegar mundo afora e diz que veio para ficar.
Logo se torna figura de destaque na comunidade local, composta quase exclusivamente de aposentados, encantando a todos com seus relatos de aventuras românticas e exóticas. Ou a quase todos. Um grupo de cidadãos enciumados com o prestígio do recém-chegado questiona a veracidade das histórias e até mesmo sua condição de comandante.
O fiscal aposentado Chico Pacheco, líder dos questionadores, empreende uma investigação implacável em Salvador e volta com a bombástica notícia de que Aragão é uma fraude: não passa de um velho boêmio, que torrou nos bordéis e cabarés o patrimônio do avô português, comerciante de secos e molhados. Seu título de capitão-de-longo-curso fora obtido por meio de corrupção e malandragem.
Quem estará com a razão? O comandante ou seus detratores? O tira-teima definitivo se apresenta na forma de uma última missão para a qual o comandante é convocado: levar ao porto de chegada um navio cujo capitão morrera em alto-mar.
O romance foi publicado originalmente em 1961, no volume Os velhos marinheiros - Duas histórias do cais da Bahia, que incluía a novela A morte e a morte de Quincas Berro Dágua.
(5)               Estreou no dia 18/06
(6)               Armando Bôgus (1930-1993)

Abertura da Novela-Gabriela 1975
 Trilha original de 1975

05 agosto 2012

O centenário de Jorge Amado, o romântico do século 20

ESPECIAL


Autor popular e criador de um universo de 3 mil personagens, o escritor baiano teve atuação política, religiosa e literária no Brasil

Publicado em 04/08/2012, às 06h21

Diogo Guedes

Imagem da exposição Jorge amado e universal, do Museu de Arte Moderna da Bahia / Divulgação

Imagem da exposição Jorge amado e universal, do Museu de Arte Moderna da Bahia


Militante comunista, deputado constituinte na década de 1940, obá de Xangô, amigo de intelectuais brasileiros e internacionais, pai de três filhos, marido de Zélia Gattai, figura central da cena literária da Bahia e do Rio de Janeiro. Ao pensar nas múltiplas atuações e faces do baiano Jorge Amado, uma pergunta logo surge: como ele conseguia arranjar tempo para escrever? Autor de uma obra de vasta popularidade (continua sendo o que mais vendeu ficção na história do Brasil), o criador de Capitães da areia é celebrado neste ano por ocasião do seu centenário, comemorado na próxima sexta-feira, 10 de agosto.

O poeta chileno Pablo Neruda, seu amigo, o apontava como “o maior romântico do século 20”. Jorge Amado escreveu 36 obras em vida, entre romances, biografias de figuras históricas e até mesmo uma espécie de obra de memórias, Navegação de cabotagem (1992). Dizer que com suas histórias ele materializou "universos ficcionais" não é exagero: poucas vezes uma obra circulou tanto pelo Brasil e pelo mundo, seja por meio dos livros, seja por meio de adaptações televisivas e cinematográficas, que também marcaram no imaginário brasileiro atores como Sônia Braga e Beth Faria. Para ter uma dimensão de tudo isso, basta dizer que, além de vender milhões, foi o responsável pela invenção de mais de 3 mil personagens.
Nasce em Itabuna, na Bahia, na fazenda dos pais, João Amado de Faria e Eulália Leal Amado, a Dona Lalu. Cresceu em Ilhéus, cidade que posteriormente viraria o cenário da sua obra mais famosa, Gabriela, cravo e canela. Seu primeiro livro, O país do Carnaval, sai quando ele tinha 18 anos – antes, já havia escrito uma novela, Lenita, para um jornal, em parceria com Edison Carneiro e Dias da Costa. Dois anos depois, casa-se com a primeira esposa, Matilde, com quem ficou até 1944 – no ano seguinte, conhece a escritora Zélia Gattai, sua grande paixão, com quem ficaria até sua morte.
Ainda na década de 1930, começa o ciclo de romances regionalistas, que retratam tanto o interior da Bahia como os centros urbanos do seu estado. São dessa época também suas narrativas mais políticas, que buscam, ao mesmo tempo, revelar o Brasil e mostrar ao povo a necessidade de uma tomada de consciência.
O materialismo histórico marxista não o impediu de ser adepto do candomblé e até de ganhar o título de obá de Xangô, concedido aos protetores dos terreiros. “É aí que você percebe a dimensão humana dele, que não se deixou limitar pelos dogmas políticos. Tanto que depois, ainda identificado com o partido, não aceitou o autoritarismo de Stalin”, diz o professor e pesquisador da obra de Jorge Amado Eduardo de Assis Duarte, autor de Jorge Amado: romance em tempo de utopia.
A partir de Gabriela, cravo e canela, de 1958, seu maior sucesso midiático (ainda que não seja seu livro mais vendido, posto ocupado por Capitães da areia), passa a desenvolver narrativas mais voltadas para mostrar os costumes da sociedade brasileira, deixando de lado a ideia de um romance proletário.

HOMENAGENS
Naturalmente, o centenário de Jorge Amado não vai passar em branco no calendário cultural do Brasil. Estão previstas exposições e seminários sobre a vida e obra do escritor.

Um dos destaques é Jorge amado e universal, realizada pela Grapiúna e pela Fundação Casa de Jorge Amado, que ocupa a partir de 10 de agosto o Museu da Arte Moderna da Bahia. Dividida em “personagens”, “faceta política” e “malandragem e sensualidade”, a exposição traz objetos e obras raras de Jorge Amado, entre fotografias, folhetos de cordel e filmes.

Leia a matéria completa no Jornal do Commercio deste sábado (4/8).
Fonte: Jornal do Commercio

12 junho 2012

As diversas faces do amor de Romeu e Julieta



Cena de 'Romeu e Julieta'
Por Felipe Candido


“Duas casas, iguais em dignidade - na formosa Verona - apresentam antiga inimizade, manchando mãos fraternas sangue irmão. Do fatal seio desses dois rivais, nasceu um par de amantes malfadados, que em sua sepultura o ódio dos pais depuseram, na morte venturosos”.
Foi com essas palavras que em meados do século XVI o dramaturgo inglês William Shakespeare deu início à história de amor mais conhecida de todos os tempos. A relação proibida entre Romeu e Julieta, filhos de famílias inimigas, se tornou um referencial de amor e romantismo que inspirou (e ainda inspira) artistas de diversas gerações.
Escritores, cineastas, dramaturgos e até compositores se dedicaram a recontá-la. Apesar de trágica, ela é e sempre será também uma referência da paixão. E como estamos no mês em que é celebrado esse sentimento, reunimos alguns desses muitos Romeus e Julietas que ganharam roupagens ao longo da história da arte.
PRIMEIRO ATO: O início
Escrita entre 1591 e 1595, Romeu e Julieta se tornou uma das maiores referências da importância da obra teatral de William Shakespeare. Baseado no mito romano de Píramo e Tisbe, a peça escrita pelo dramaturgo inglês narra as desventuras de um jovem casal apaixonado, Romeu Montecchio e Julieta Capuleto, que pertenciam a famílias rivais e, por essa razão, o inocente e puro amor dos adolescentes é proibido por seus pais.
Para tentar viver plenamente seu romance, o jovem casal chega a medidas extremas que culminam na trágica morte dos dois. Com a esperança de vivência do amor sem limites e concessões, a história de Romeu e Julieta tornou-se arquétipo do amor juvenil, tornando-se um dos maiores signos de romantismo da história.
SEGUNDO ATO: Por entre as letras
Na história da literatura mundial, grandes autores foram beber na fonte de Shakespeare para criar seus enredos. Com sotaque lusitano, nosso patrício Camilo Castelo Branco transpôs para a cidade portuguesa de Visceu a trágica história dos jovens amantes, no caso, Simão e Teresa, em seu romance Amor de Perdição. E, assim como na peça de Shakespeare, o final dos amantes portugueses é trágico, com a morte dos dois jovens apaixonados.
Em terras tupiniquins, um de nossos maiores escritores românticos, José de Alencar, deslocou essa paixão para as florestas, nos primórdios de nossa história. O autor cearense dedicou dois de seus livros, que se tornaram clássicos da literatura brasileira, para narrar a história de amor entre indígenas e colonizadores.
Iracema e O Guarani também remetem à lembrança do texto de Shakespeare. Em Iracema, a virgem dos lábios de mel se entrega ao amor proibido pelo português Martim, que, por amor à jovem índia, abandonou seus costumes e tradições para poder se casar com Iracema. Porém, mesmo com o ato de amor de Martim, não se pode evitar o fim trágico destinado aos amantes.
Já em O Guarani, os papéis são invertidos, e é a jovem portuguesa que se apaixona pelo bravo guerreiro indígena. Peri e Ceci são os protagonistas dessa história de amor ambientada em meio a uma guerra entre Guaranis e Aimorés. Culmina na morte de todos os portugueses partidários dos Guaranis, incluindo os familiares de Ceci, que parte junto a um futuro desconhecido, distanciando-se dos finais trágicos, recorrentes em obras inspiradas no texto de Shakespeare.
Mas não é somente em clássicos da literatura que Romeu e Julieta são revisitados. Autores modernos também recorrem ao mito do amor proibido para criar seus textos.
Em 2008, o autor italiano Paolo Giordano criou um casal de Romeu e Julieta um pouco diferente. Em A Solidão dos Números Primos, ao invés de famílias rivais que proíbem o amor dos jovens, são problemas pessoais e amarguras interiores que barram o relacionamento de Alice e Mattia.
Ela, uma jovem com distúrbios alimentares, e que ficou com dificuldades de locomoção após um acidente. Ele, um rapaz altamente inteligente, mas que vive assombrado pela culpa pelo desaparecimento de uma irmã deficiente mental. Sendo ambos torturados pelas tragédias pessoais, o fato que os liga, mas também os distancia, é o mais inusitado possível: a solidão, conforme descreve o próprio Mattia em determinado ponto do livro: “Nós somos como um casal de números primos que estão lado a lado, ou melhor, quase próximos, porque entre eles sempre há um número par, que os impede de tocar-se verdadeiramente”. O Romeu e Julieta de Giordano, mais que barreiras externas, precisa enfrentar as paredes internas que se tornaram os “números pares” da relação entre eles.
Bella e Edward em Amanhecer - Parte 1
O maior fenômeno editorial entre os jovens nas últimas décadas também é uma reinterpretação pop (e com pitadas sobrenaturais) da clássica história de Romeu e Julieta. A saga Crepúsculo, da escritora americana Stephanie Meyer, trouxe para o universo vampiresco a famosa história. Edward e Bella se tornaram o novo referencial de amor puro e impossível. Mais do que famílias rivais, o fato de pertencerem a raças diferentes e a proximidade constante com a morte são as dificuldades que impedem a realização do amor dos jovens. Ele vampiro e ela humana vivem no limiar entre o que é possível ou não na relação.
Apesar de Edward amar incondicionalmente Bella, ele precisa a todo momento controlar seus instintos de vampiro para evitar atacar a jovem, que, segundo ele, tem o sangue com o melhor odor já sentido pelo jovem vampiro. Lua Nova, segundo livro da série, é o que faz maior referência ao clássico shakespeareano. Após Edward partir da cidade onde moravam, para evitar que a vida de Bella corresse risco em ataques de vampiros, a jovem entra em depressão e começa a enfrentar perigos até que se atira de um penhasco, sendo salva do mar, antes que se afogasse. Ao acreditar que Bella está morta, Romeu Edward decide pôr fim à sua própria vida, assim como na tragédia de Shakespeare, em que Romeu comete suicídio após receber a falsa notícia de que Julieta havia morrido. Mas, fugindo do destino trágico moldado por Shakespeare séculos antes, o casal Edward e Bella resiste, e seu amor triunfa no final da saga.
TERCEIRO ATO: Por novos palcos
Nascido como peça teatral pelas mãos de William Shakespeare, o ideal romântico do amor impossível descrito em Romeu e Julieta também voltou aos palcos de outra forma. Mais musical e contundente. As tragédias de amor impossível são sempre contadas e recontadas no universo da ópera. “Ao falar de amores proibidos, é impossível não se lembrar de uma das maiores histórias de paixão que existem: a ópera Tristão e Isolda, de Richard Wagner, que conta a história do amor infeliz entre uma princesa irlandesa e aquele que era seu inimigo, assassino de seu noivo, mas por quem ela acaba se apaixonando. E, para piorar a situação, ela se casa com o tio dele”, lembra André Heller-Lopes, diretor de óperas.
Mais óperas:

Werther, de Massenet, inspirada no livro de Goethe
Billy Budd, de Benjamim Britten
QUARTO ATO: O amor nas grandes telas
O cinema também se inspirou na romântica história de Romeu e Julieta para reviver amores impossíveis. Além de diversas versões cinematográficas para a peça de Shakespeare, como o clássicoRomeu e Julieta, de Franco Zefirelli, de 1968, outros enredos situaram os jovens amantes em outras épocas e lugares.
Baseado em peça musical de sucesso na Broadway, escrita por Arthur Laurents, o filme West Side Story, que teve o roteiro adaptado por Ernest Lehman, levou os amantes para a periferia de Nova York, na década de 1950. Carregado com tintas sociais e políticas, o musical fez nascer na zona oeste de Manhattan o amor entre Tony, líder da gang formada por rapazes brancos, os Jets, e Maria, imigrante porto-riquenha e irmã do líder da gang rival, os Sharks, formada por latinos. Em meio a brigas entre americanos e imigrantes latinos, o casal de jovens busca as melhores maneiras de viver esse amor proibido.

Cenas de Romeu e Julieta, Moulin Rouge e West Side Story
Após reviver de maneira pop o clássico Romeu e Julieta, em 1996, trazendo para a atualidade o casal de namorados, o diretor Baz Luhrmann reeditou a história de amor, dessa vez em Paris, durante o século XIX, contando a história de amor proibido entre um jovem poeta interiorano e a bela cortesã e estrela do mais famoso cabaré da cidade. Moulin Rouge, de 2001, mostra que, apesar de realmente se amarem, o amor de Christian e Satine é impossível, pois ela está prometida a um figurão, que irá salvar as finanças do Moulin Rouge. Vivendo no ambiente boêmio da romântica Paris, o jovem casal não consegue fugir à tragédia que marca o final da história de amor.
Troy e Gabriella pertencem a mundos opostos. Ele é o popular capitão do time de basquete da escola. Ela, uma tímida e estudiosa aluna. Apesar de estarem em universos distintos, os jovens acabam se apaixonando. Como os colegas de Troy e Gabriella reprovam o relacionamento deles, ambos têm que lutar para conseguir viver seu amor. E o grande elo que acaba por unir, não só Troy e Gabriella, como também os distintos grupos de atletas e estudiosos, é a música. Essa é a história do fenômeno teen,High School Musical, que trouxe mais uma vez o romance de amor proibido para as gerações mais novas.
Em telas brasileiras, Romeu e Julieta também puderam ter sua história recontada. Pelas mãos da diretora Lúcia Murat, Maré, Nossa História de Amor, os namorados de Verona passaram pela favela da Maré com o sonho de se tornar bailarinos. Mas a paixão dos jovens não podia ser concretizada, já que o pai de Analídia disputava com o irmão de Jonatha o controle do tráfico de drogas da região.
Maré - Nossa História de Amor
High School Musical
QUINTO ATO: Canções do amor demais
A música popular brasileira também se inspirou na história dos amantes de Verona para criar canções. Autores das mais diversas épocas compuseram suas versões da clássica história. No início da década de 50, a cantora Dalva de Oliveira deu voz a uma triste história de amor impossível.
Escrita por Paulo Soledade e Marino Pinto, a canção “Estrela do Mar” narra as amarguras de um grão de areia que se vê apaixonado por uma linda estrela, mas o amor dos dois não pode se concretizar pela distância e pela impossibilidade do encontro. Mas, apesar de todas as barreiras, misteriosamente depois de um tempo o mundo pode conhecer a estrela do mar.
Também em forma de fábula, a jovem sambista carioca Teresa Cristina contou sua versão de Romeu e Julieta. O amor impossível entre uma borboleta e um pássaro é o que ela conta em “O Passarinho e a Borboleta”, que a própria natureza se encarrega de separar, pois, apesar de não pertencerem a famílias rivais, o fato de serem de espécies distintas faz com que a paixão deles nunca possa ser concretizada.
Já em seu último disco, Chico Buarque narrou as aventuras amorosas proibidas que aconteceram entre um Romeu escravo e uma Julieta branca na canção “Sinhá”. A relação proibida entre eles foi descoberta, e o rapaz foi torturado por ousar dirigir seus olhos para a bela moça, reafirmando o tom de tragédia que ronda as histórias de amor impossível, desde que o dramaturgo William Shakespeare contou ao mundo as desventuras de um jovem casal de Verona.
Fonte: Saraiva Conteúdo




Retalhos no Mundo:
Dos livros e filmes que vocês leram e/ou assistiram, qual seria o casal perfeito?

18 maio 2012

Outras Estantes - Uma realidade perturbante



Dois novos livros
Gonçalo M. Tavares: Uma realidade perturbante
Gonçalo M. Tavares faz parte daquele reduzidíssimo grupo de escritores que alia uma magnífica prosa a uma estonteante produção de escrita. A publicação em simultâneo de dois livros do autor não constitui, por isso, novidade. O que surpreende é a sempre renovada capacidade de, através da sua escrita, interpelar os leitores. Short Movies e Canções Mexicanas, os seus dois mais recentes livros, são disso prova.

Agripina Carriço Vieira
14:07 Quinta feira, 12 de Abr de 2012


Gonçalo M. Tavares faz parte daquele reduzidíssimo grupo de escritores que alia uma magnífica prosa a uma estonteante produção de escrita. A publicação em simultâneo de dois livros do autor não constitui, por isso, novidade. O que surpreende é a sempre renovada capacidade de, através da sua escrita, interpelar os leitores. Short Movies e Canções Mexicanas, os seus dois mais recentes livros, são disso prova. Sem designação genérica o primeiro, com o rótulo "Ficção" o segundo, estamos perante textos de difícil ou impossível classificação, porque de género indefinido, que oscilam entre os registos da crónica, do conto, do ensaio ou do guião, sem nunca obedecerem totalmente às convenções dos diferentes géneros.

Short Movies e Canções Mexicanas são antes de mais uma tomada de consciência do prazer do contador de histórias, que em traços sóbrios e contidos (textos há que não ultrapassam a dezena de linhas) nos revelam um mundo marcado pela violência gratuita, por ameaças brutais, por atitudes e acontecimentos absurdos. Cada história capta fragmentos de um quotidiano, suficientemente costumeiro para o reconhecermos como nosso, mas que se distancia quando mediado pela cáustica voz e irónico olhar do contador. O distanciamento assim criado obriga-nos, no final de cada história, a uma paragem, porque não se passa impunemente por um texto de Gonçalo M. Tavares, lê-lo tem consequências. As suas ficções desnudam uma realidade que perturba a nossa visão da existência humana e desafiam a nossa reflexão.A lente da câmara, estratégia retórica escolhida pelo autor que deste modo assinala através de um objeto concreto o distanciamento da observação que os seus textos refletem, capta acontecimentos anódinos, sem qualquer excecionalidade, que subitamente deixam de o ser: o menino que posa para uma fotografia em vez de ajudar a extinguir um incêndio; um homem que não regressa ao carro depois de o ter abastecido de combustível; a presença de mulheres a arranjarem o cabelo num cenário de total destruição. É através desse olhar da câmara de filmar, pretensamente neutro, que nos dá a ver um mundo perturbado e perturbador, que impiedosamente nos questiona. Como ficar indiferente à demonstração que a velhice não faz perder a vontade de matar, ou que qualquer pessoa pode adotar uma atitude e o seu inverso (ser agredido e agressor, vítima e carrasco), ou ainda que o perigo pode advir de sentimentos tão paradoxais quanto a arrogância (que impede a assunção dos nossos medos) ou a amizade (inimiga da vigilância e da cautela).

Mais do que quadros do quotidiano, cada texto surge antes como retratos de parcelas de algo mais vasto e abrangente que raramente nos é desvendado. A incapacidade de apreensão e entendimento dos acontecimentos que daí advém, presente em todos os textos (embora em níveis diferentes) é, não raras vezes, verbalizada pelo narrador, que nos explica: "E porque continuamos apenas a ver o rosto, não sabemos o que aconteceu" ou "Com o tamanho daquele espelho a mulher não consegue ver o seu rosto na totalidade, precisa de ajuda para isso". A ajuda de que a mulher ao espelho precisa é extensiva ao leitor que também ele se vê impossibilitado de perceber o que lhe é apresentado devido à proximidade da observação. Apenas quando "o plano se abre" é que algumas das situações ou atitudes que nos pareciam absurdas ou inexplicáveis ganham sentido. Quando a lenta da objetiva se afasta, percebemos porque é que nenhum taxista responde ao chamamento da elegante mulher, ou os motivos pelos quais um homem com uma máscara de gás gesticula de modo ridículo, ou ainda o porquê da fotografia do rosto de Hitler colada numa parede estar cravada de buracos.

É com uma interpelação ao leitor que se fecha este conjunto de curtas narrativas, convidando-nos o narrador a refletir acerca da atitude de aparente loucura de uma personagem que sem motivo aparente corre sozinho em redor de uma mesa. E pergunta-nos o narrador: "E tu, por exemplo, se estivesses na mesma situação - a correr como um louco em redor de uma mesa - também não estarias assustado?", sugerindo deste modo que o perigo mais temível não é físico mas imaterial.

Ao contrário da sua anterior produção que se caracteriza por uma ostensiva indeterminação espacial e temporal, Canções Mexicanas leva-nos numa alucinante viagem até à cidade do México. Se nesses romances a não identificação se constituía como uma outra forma de expressar o sentimento de estranheza que habita grande parte das suas personagens, verificamos que este não só se mantém como se agudiza em textos ancorados numa realidade nacional concreta e definida. Com efeito, nas canções que Gonçalo M. Tavares nos oferece, circunscrevendo-se à observação e descrição de espaços conhecidos e reconhecíveis, perpassa uma intensa sensação de estranhamento. Todos os textos são percorridos por um acrescentado sentimento de incompreensão, aquele que invade o viajante europeu ao percorrer as ruas e as praças da cidade do México e que é resumido de modo lapidar no comentário daquele pai que educa o filho à estalada: "Tu vieste de fora e não entendes nada". A sensação de estranhamento perante a cultura do outro, de que a efabulação dá conta, estende-se ainda ao discurso que surge pespontado por expressões ou vocábulos que não respeitam as convenções gramaticais (nomes próprios grafados ora com maiúscula ora com minúscula; textos que não se fecham graficamente). O turista imprudente ou inadvertido é levado numa espiral de loucura e delírio: o delírio provocado pelo mezcal, que distorce a realidade e cria "um redemoinho em cima da cabeça", o delírio da tarantela, essa dança frenética que salva o viajante da morte, mas também o delírio da brutalidade e da violência que a todos envolvem.

Gonçalo M. Tavares dá-nos a conhecer um mundo de loucura que está para além do racional, povoado por seres estranhos: uma prostituta que obriga os clientes, antes de qualquer ato, a beijar um crucifixo, uma menina que exige a esmola aos transeuntes, um polícia que em vez de desenhar os contornos de um corpo sem vida cria intermináveis representações figurativas. Short Movies e Canções Mexicanas revelam-nos um mundo fragmentado e às avessas, que inquieta e desafia o leitor, fazendo apelo ao seu imaginário para a perceção de cada personagem, de cada situação, de cada espaço.
Gonçalo M. Tavares
CANÇÕES MEXICANAS
Relógio D'Água, 96 pp, 14 euros
SHORT MOVIES
Caminho, 160 pp, 11,90 euros 


Fonte: JL

24 março 2012

O mito do jovem que não lê


Não é raro perceber, ao se conversar com um educador, o quanto a falta de apego dos jovens aos livros tradicionais é causa de preocupação. E, no entanto, não é falta de proximidade com textos que causa esse abismo


Por Janaina M. Cerutti


Quantas vezes já não ouvimos falar que os jovens já não possuem mais tanto apego aos livros quanto tinham em outras épocas, ou então vemos educadores praguejando contra a relutância desses mesmos jovens em se aprofundar em formas de leitura? A cada vez que isso acontece, o pensamento coletivo sempre parece se voltar para o fato de que "os jovens não leem".

Entretanto, tal percepção não poderia estar mais longe da verdade - na era em que para as mais simples pesquisas se recorre ao Google ou à Wikipedia e ferramentas semelhantes, o que os jovens mais fazem é, de fato, ler. A forma de comunicação usada na era digital se baseia fortemente na palavra escrita mais do que na falada, e apesar de a imagem e o vídeo serem grande parte dessas novas mídias, a sua verdadeira força se encontra na palavra escrita, e na leitura desta pelos jovens usuários.


O que é certamente mais benéfico nesse tipo de estratégia de busca e formação de leitores é o fato de que o próprio jovem leitor não é, de maneira nenhuma, subestimado. Enquanto adaptações de obras buscam simplificar os entendimentos que devem ser tidos ao longo dos livros mais difíceis, esses livros citados como exemplos apenas indicam o caminho, fazendo com que a vontade e o desejo de ler parta do próprio jovem em formação como leitor, mas sem jamais supor que ele precisa de algo mais simplório para chegar até lá. A capacidade de interpretação e entendimento do jovem deve ser estimulada a crescer, e jamais podada por meio de simplificações grosseiras, que, a um olhar mais profundo, longe de trazerem o leitor para mais perto do livro, o afastam com a mensagem de que este talvez seja, de fato, difícil demais para ele, e fora do alcance da sua capacidade de compreensão.
O ENTENDIMENTO DOS CLÁSSICOS

Outro grande problema que professores encontram em sala de aula quando se trata de ler livros clássicos é a identificação do período do livro na obra escrita em si. É muito simples, para um aluno, absorver características de determinados períodos literários em uma lista citada em um livro ou apostila, mas a dificuldade mais comum é que esses alunos percebam do que, na prática, tais características tratam, e qual a maneira que elas se manifestam em livros da época tratada.

A não realização dessa percepção - de que as características listadas no quadro e decoradas para a prova têm uma manifestação física no livro que eles devem ler - dificulta não apenas o aprendizado de literatura, mas também o entendimento do livro como um instrumento para se aproximar e entender melhor o período em questão. Fazer com que o aluno entenda que o livro é mais do que algumas centenas de páginas sobre as quais ele terá que apresentar um trabalho ou responder a algumas questões, mas que este é, na verdade, a verdadeira essência de tudo o que ele aprendeu em sala de aula a respeito desse período.

Para facilitar esse entendimento, alguns professores acreditam que seja mais simples - e menos indolor - simplesmente apontar as características dentro do livro, fazendo com que a leitura deste se torne praticamente uma caça ao tesouro, onde o aluno busca trechos específicos para saciar as questões que o professor lançou. Uma tática nada funcional a longo prazo, já que, como as adaptações de clássicos fazem, ela já passa a mensagem ao aluno de que ele não conseguiria entender os traços de período sem a ajuda do professor. A ideia que acaba se eternizando na cabeça dos jovens é de que a literatura clássica não é para ele algo acessível, que é distante e difícil demais para seu entendimento, não restando aí nem mesmo a chance de que o aluno deseje se envolver com a literatura que está estudando propriamente dita.

Para auxiliar esse entendimento, é possível traçar paralelos entre livros contemporâneos e populares entre os jovens com os livros clássicos que são o objetivo de todo professor de literatura. Guardadas as proporções, e desde que os alunos percebam que apenas por terem alguns traços tais livros não se tornam automaticamente clássicos, ou mesmo boa literatura, não há nada de errado com recomendar, por exemplo, a leitura da saga Crepúsculo para que os alunos percebam os traços do Romantismo nela presentes, ou que se cite Percy Jackson como referência de uma saga de um herói grego ao se apresentarem poemas épicos.

A ideia base de estratégias de leitura que funcionam é que, po meio do mais simples, se chegue a um quadro de evolução do leitor: que ele consiga perceber traços românticos em Crepúsculo, e passe dele para autores renomados, como Aluísio de Azevedo, percebendo as semelhanças, mas, mais importante, as diferenças, como a profundidade da narrativa e a beleza das palavras escritas em si. O estímulo à literatura leva não apenas ao conhecimento necessário para passar de ano e no vestibular (o que, todos bem sabemos, é o desejo último de grande parte dos alunos), mas à capacidade de compreensão e interpretação de texto; o benefício é mais extenso do que aparente.


Álvares de Azevedo

Escritor da segunda geração romântica, conhecida como Ultrarromântica ou Byronista, Álvares de Azevedo faleceu pouco depois do lançamento de Lira dos vinte anos. Marcante em sua geração, foi muito influenciado por Lord Byron, Goethe e François-René de Chateaubriand. Sua obra literária foi toda, é claro, composta durante a adolescência, de modo que a tragicidade e a ansiedade típicas do Romantismo ficam acentuadas em sua poesia.

A HISTÓRIA NA FORMAÇÃO DO LEITOR DE LITERATURA

No caso específico de literatura clássica, ambientada em sala de aula, e com a realização de tal leitura já voltada para a absorção de características do período sendo presentemente estudado, outro grande aliado que é muitas vezes menosprezado ou esquecido é a ambientação histórica do período literário em questão, e a relação da vida cotidiana dos leitores daquela época com o que a obra que deve ser lida retrata de fato.

A ambientação histórica é parte, é claro, do que os professores costumam passar antecedendo a leitura de um clássico, mas muito pouco dela é absorvido pelo aluno, principalmente pela discrepância entre as matérias sendo vistas nas disciplinas de Literatura e História do Brasil em sala de aula. Caso o professor consiga fazer com que seu aluno veja a literatura do período aliada à história dele - os traços de estilo, a maneira como a sociedade via a literatura durante a sua época contemporânea, o impacto social que os autores causavam durante a sua vida - a literatura clássica deixa de ser apenas algo vago, e passa a tomar contornos de manifestação cultural presente e passível de conferência. Ao mostrar para o aluno que, ao ler São Bernardo, de Graciliano Ramos, ele pode perceber traços dos movimentos políticos da época ali expostos, ainda que de forma mais velada ou controversa, que ele pode perceber por meio da estória um pouco da história, a literatura ganha novos contornos, e os clássicos, um novo interesse aos olhos do jovem.

"Meramente expor características do livro dificulta não apenas o aprendizado da literatura, mas também o entendimento do livro como um instrumento para se aproximar e entender melhor o período em questão"

A busca pela interdisciplinaridade entre determinadas matérias é, certamente, muito difícil em determinados casos; mas, no caso específico da literatura e da história, elas devem andar de mãos dadas em todos os casos, como apoio de uma e reflexo social da outra, já que são, indubitavelmente, duas faces de uma mesma moeda, complementares em si, e facilitadoras da compreensão da fase histórica e período literário para o aluno quando unidas como uma só.A realidade é que, como educadores e formadores de leitores futuros, a preocupação não deve ser dirigida ao ato da leitura em si - este já é praticado e utilizado amplamente -, mas sim ao que o jovem está, de fato, consumindo em termos de literatura e o quanto isso pode, ou mesmo precisa, ser alterado.


O grande desafio dos professores de literatura e língua portuguesa em escolas já não é mais fazer com que os alunos leiam: os jovens, na verdade, leem, e muito - mas não o que os professores chamam de literatura "clássica", ou o que esperam.



RECURSOS EM LIVROS PARA LIVROS

Adolescentes e pré-adolescentes leem textos na internet, assim como livros atuais e com assuntos mais variados e vocabulário mais acessível do que clássicos da literatura brasileira, como Macunaíma ou Memórias Póstumas de Brás Cubas apresentam. Os livros, blogs e editoriais que possuem, de fato, um apelo maior para os jovens apresentam encantos que os livros clássicos já não têm, e muitos classificam estes últimos como sendo chatos e difíceis, mesmo antes de sequer tentar entender do que se tratam os problemas de Bentinho, ou qual é a verdadeira saga de Peri e Ceci. Remédio para isso há - e muitos -, mas é necessário haver um trabalho maior em escolas e ambientes que estimulem 59a leitura do que simplesmente longas palestras sobre escritores antigos e obscuros, que parecem tirar o encanto que os livros ainda utilizados em escolas, um dia, já possuíram.

Algumas editoras já perceberam este nicho no mercado - a necessidade de se suprir os jovens com literatura interessante e nova, mas que ainda assim trace um caminho que leve aos clássicos requeridos em todos os vestibulares, sem que esta transição seja dolorosa para o jovem. Um caso a ser apreciado é o da editora Atica, que lançou, já há alguns anos, uma coleção de livros chamada Descobrindo os Clássicos. Com um nome assim, certamente se pensa em uma coleção de adaptações dos livros já tão batidos - mas este certamente não é o caso. A coleção trata de uma série de livros que trazem em suas histórias fatos e detalhes ligados aos clássicos a que se dirigem, mas sem desvendá-los por inteiro, ou mesmo mencioná-los diretamente em alguns dos livros.

Com títulos como Onde fica o Ateneu?, O sertão vai virar mar, e Auto do busão do inferno, os autores, entre eles alguns grandemente renomados, como Moacyr Scliar, retomam os clássicos a que se dirigem - O Ateneu, Os Sertões e Auto da barca do inferno, respectivamente - por meio de histórias novas e de vocabulário mais acessível aos jovens do Ensino Fundamental.

Com isso, não se simplificam os clássicos como adaptações tendem a fazer. Não se resumem apenas as partes essenciais, ou se descrevem algumas características básicas do livro em si, para que o jovem, ao ler o clássico, já tenha todas as respostas que deveria obter ao lê-lo: pelo contrário, os livros tentam fazer com que a curiosidade desperte no leitor mais jovem, preparando-o para ter sede de saber do que se trata o livro clássico, o que o levou a ser eternizado, e quais serão as questões tratadas nele. Dessa maneira, a leitura posterior de um livro como, por exemplo, O Ateneu, apesar de ainda seca para os jovens acostumados com abreviações e palavras fáceis, já passa a ter outro sabor: ele já sabe o que foi o Ateneu, ele já sabe até mesmo o fim do livro, mas as questões permanecem mesmo depois de ter lido esse livro que busca exatamente instigar a curiosidade, e não - como muitas vezes acontece - facilitar as respostas que o próprio leitor deveria buscar.

Alguns outros livros alternativos também se dão à tarefa de buscar trazer a curiosidade de volta aos leitores jovens de hoje em dia em relação aos livros que eles terão de enfrentar em seu Ensino Médio, para que essa experiência seja indolor e nada traumatizante. O escritor Mario Teixeira, por exemplo, em seu livro Alma de Fogo, um episódio imaginado da vida de Álvares de Azevedo, coloca como protagonistas de uma trama policial Álvares de Azevedo e Bernardo Guimarães - ambos grandes nomes da literatura brasileira e figuras obrigatórias dentro de estudos da disciplina de literatura durante a escola.

Diferentemente dos exemplos dados antes, a própria linguagem desse livro já se assemelha à usada pelos escritores citados em suas obras - mas, mesmo assim, ele é mais leve e de mais fácil entendimento do que a usada nas obras que tornaram famosos os dois escritores protagonistas de uma trama de mistérios. Os recursos de linguagem que serão vistos em alguns anos - ou meses - pelos jovens em A Moreninha ou Noite na Taverna já terão sido assimilados por eles por meio de algo mais tangível para os jovens do que os romances de séculos passados - apesar de a ambientação e linguagem serem as mesmas.

Longe de substituir os clássicos, esses recursos de formação de leitores tentam ativar a curiosidade do jovem para o que irão ter de, obrigatoriamente, ler mais tarde. Esses livros, com seus recursos mais atraentes para o público jovem do que os livros clássicos em si, são uma das possíveis soluções para diminuir o distanciamento do leitor atual das obras clássicas que deveriam ser uma descoberta agradável, e jamais dolorosa, como têm se tornado.
A FORMAÇÃO DO LEITOR

Apesar de todas as técnicas de aproximação de jovens - pré-adolescentes e adolescentes já em fase de preparação para o vestibular - com a literatura, de pouco valem todos os esforços nessa fase se a cultura do ler mais do que apenas o estritamente necessário não é estimulada na criança desde cedo.



O estímulo à leitura por prazer e a formação do leitor como preocupação de pais e educadores é como um tratamento preventivo dos males que a falta de leitura pode causar em anos mais tardios na vida da criança - seja na época do vestibular, ou mesmo quando já está na faculdade, sem entrarmos aqui nos méritos da leitura como formadora de cidadãos conscientes e seres humanos críticos da sua realidade. A importância da leitura deve ser salientada para pais e educadores, mas deve-se ter a certeza de que apenas dizer à criança que ler é importante traz muito poucos resultados. O trabalho de formação de leitores é assunto discutido incansavelmente por professores, pedagogos e profissionais da área da literatura e da língua portuguesa num todo, e o único ponto em que todos concordam é que não há uma fórmula de formação de leitores pronta que possa ser usada em todas as crianças e que funcionará sem falhas.



"O estímulo à literatura leva não apenas ao conhecimento necessário para passar no vestibular. Também leva à capacidade de interpretação de texto, tornando o benefício mais extenso do que aparente"

Desde muito pequenas, as crianças são expostas aos hábitos da leitura - a contação de histórias entre pais e mães e filhos é claro exemplo disso. É apenas ao amadurecer, e se tornar "grande demais" para tais hábitos, que essa curiosidade pelas histórias começa a diminuir e pode, em muitos casos, vir a desaparecer. É preciso manter em mente que nunca é cedo demais para que a criança tenha contato com livros, e que ela deve ter o poder de escolha sobre o que gostaria de ler - guardadas, é claro, as medidas de idade e capacidade de entendimento. Entretanto, mesmo a ideia de que um livro é grande demais para tal idade, ou que outro objeto de leitura é complexo demais para tal fase deve ser bem pensada. Se a curiosidade existe, e dela não poderá vir nenhum mal, por que não estimulá-la?



Literatura do período aliada à história deleÉ possível apontar, por exemplo, a importância dos escritos de Machado de Assis não como crítica da sociedade da época, mas como uma observação perspicaz do Rio de Janeiro do século XIX. Dessa forma, a leitura de Dom Casmurro, uma história dos subúrbios, é uma excelente aproximação entre o aluno e o cenário onde a obra se desenrola.

É importante que pais e educadores interfiram no processo de formação de leitores. No entanto, para que a criança não acabe por se cansar do hábito da leitura, esta deve ser sempre tratada como diversão e forma de lazer, e jamais como uma obrigação enfadonha, que tire a graça do ato de ler. É exatamente o senso de dever ligado aos livros clássicos que causa a falta de vontade dos jovens de lê-los - e esta é uma ideia que vem desde muito cedo em crianças e pré-adolescentes: a certeza de que a leitura é algo doloroso e difícil, e que livros antigos só podem ser ruins, por não tratarem de assuntos recentes.

A desmistificação do que é o ler por lazer e a leitura por estudo é uma necessidade que deve ser abordada desde muito cedo com a criança. Nem todas as tarefas de leitura serão prazerosas, e nem todos os livros jamais lidos serão divertidos, mas na fase da formação do leitor, na montagem da capacitação da criança de sair dos contos em voz alta pela professora ou responsáveis, a leitura deve, sempre, ser um prazer e um hábito ligado diretamente à alegria da descoberta. Forçar uma leitura indesejada só afasta a criança dos livros, problema que causa danos no futuro da criança não só como leitor, mas que pode também ter impactos negativos na capacidade de interpretação dessa criança quando adulta.
Um hábito negativo que costuma aparecer durante essa fase de encantamento com os livros é a subestimação dos adultos para com a capacidade de interpretação das crianças. Apesar de jovens, as crianças não têm nenhuma falta de capacidade de abstração - é, na verdade, a partir de estímulos feitos durante essa fase que essa capacidade se desenvolve e cresce, de maneira a facilitar compreensões posteriores, e a tendência de simplificar tudo para as crianças é muito mais um mal do que uma ajuda à criança em questão.

É preciso tratar o jovem leitor, tanto na fase inicial de leitura quanto em todas as demais, como alguém apto a entender a mensagem passada pelos livros que lê. Nem todos os livros têm uma "moral da história", e isso é uma das grandes vantagens da literatura infantil atual em relação aos livros infantis antigos. Já não se espera que cada história traga uma lição de vida e algo a ser apreendido para a criança com caráter educacional. A leitura e a literatura infantil devem, sobretudo, causar a curiosidade e estimular as conclusões da própria criança, para que esta cresça sabendo que pode compreender as mensagens dos livros sem auxílio direto de terceiros.

É dessa autoconfiança como leitor jovem que nascem os leitores capazes no Ensino Médio e na vida à frente, tratando desde sempre o leitor como ser pensante e capaz de abstrair as mensagens dos livros sem a necessidade de um tradutor de ideias.

Janaína Cerutti é professora de inglês, estudante de Literatura e colaboradora em diversos sites e projetos sobre escrever.
Fonte: conhecimento prático- Língua Portuguesa

Retalhos no Mundo:
Como é a sua relação com os Clássicos?
© Retalhos no Mundo - 2013. Todos os direitos reservados.
Criado por: Roberta Santos.
Tecnologia do Blogger.
imagem-logo